Capítulo 3 – A Coragem do Primeiro Amor

 As festas juninas daquele ano coloriram São Paulo com bandeirinhas de papel e fogueiras acesas nas esquinas. O cheiro de pipoca, canjica e pólvora se misturava ao barulho das sanfonas e aos gritos animados das crianças que corriam pela praça. Era uma noite viva, quente, e a cidade parecia inteira sorrindo.

Catarina estava ali, entre as vizinhas e parentes, vestida com uma saia de chita e uma fita azul no cabelo — a mesma que a mãe havia costurado dias antes. Mas sua atenção não estava nas danças nem nas barracas. Estava em Nágila.

Ela apareceu mais tarde, com um vestido simples e uma trança solta, os olhos buscando alguém entre a multidão. Quando se encontraram, não precisaram dizer nada. Apenas sorriram. Sabiam que aquela noite guardava algo.

— Vem — disse Nágila, puxando Catarina pela mão.

Escaparam pela lateral da praça, entre árvores e sombras, até chegarem à beira do Tamanduateí. O rio seguia seu curso calmo, refletindo a luz tímida da lua. Estavam sozinhas. Os sons da festa vinham de longe, como um eco distante.

Sentaram-se sobre o gramado úmido. Por um momento, ficaram em silêncio, ouvindo apenas o canto dos grilos e o bater do próprio coração.

— Você já beijou alguém? — perguntou Nágila, olhando o céu.

Catarina abaixou os olhos, sentindo o rosto corar.

— Nunca — respondeu, quase num sussurro.

— Posso ser a primeira?

A pergunta pairou no ar como um segredo. Catarina sentiu o estômago se revirar. Não de medo, mas de expectativa. A respiração ficou curta. O mundo pareceu parar, como se aguardasse sua resposta.

Ela não falou nada. Apenas fechou os olhos, devagar.

Nágila se aproximou com cuidado, como se o instante fosse frágil demais para pressa. Seus lábios se tocaram de leve. Era um beijo tímido, doce, sem promessas, mas cheio de verdade. Um toque de alma. Uma entrega silenciosa.

Quando se afastaram, ficaram se olhando por um longo tempo. Nenhuma riu. Nenhuma tentou fingir que não tinha acontecido. Havia ali uma gravidade nova, um elo recém-criado que nenhuma das duas sabia desatar.

— Eu não sei o que isso significa — disse Catarina, baixinho.

— Significa que é real — respondeu Nágila. — E que agora a gente vai ter que aprender a viver com isso.

A partir daquela noite, tudo mudou.

Passaram a se encontrar com mais frequência. Inventavam desculpas para escapar de casa, combinavam lugares improváveis para evitar olhares. Dividiam livros, histórias, sonhos. E beijos. Sempre curtos, sempre escondidos — mas sempre verdadeiros.

Criaram um mundo só delas. Um mundo que cabia num banco de praça, no fundo de uma sala da biblioteca ou atrás de um muro de igreja. Ali o tempo parava. Ali elas podiam existir sem medo.

Mas o mundo lá fora não era tão gentil. Começaram a surgir olhares curiosos. Uma vizinha cochichava algo. Um padre franzia a testa. E mesmo sem serem flagradas, sabiam que não estavam invisíveis por completo.

Ainda assim, voltavam uma para a outra. Como se soubessem que aquele amor, mesmo breve, mesmo ameaçado, era a coisa mais certa que já tinham sentido.

E Catarina, no presente, ao contar essa parte da história a Gabriel, dizia com voz firme:

— Ninguém me falou que era possível. Mas eu vivi. E não me arrependo de nada.