Capítulo 3: "A Floresta Misteriosa"

 No caminho de volta da escola, Evandro estava mais pensativo do que de costume. As palavras de Pietro e Bia ainda ecoavam em sua cabeça. "Crescer é uma aventura", eles haviam dito, mas ele ainda não tinha tanta certeza. O medo de fazer 9 anos ainda estava lá, firme e forte.

Quando chegou à fazenda, em vez de ir direto para casa, Evandro decidiu seguir a trilha que passava pelos campos. O sol estava começando a descer no horizonte, espalhando uma luz dourada sobre as árvores. Ele gostava de caminhar por ali, sempre encontrava algo interessante — uma flor diferente, um coelho saltitante ou até um pássaro cantando.

Dessa vez, porém, Evandro se distraiu mais do que o normal. A trilha foi ficando cada vez mais estreita, até que ele percebeu que estava entrando em uma parte da fazenda onde nunca tinha ido antes: a floresta. As árvores eram altas, com galhos grossos, e as folhas criavam uma sombra fresca no chão. Evandro parou, percebendo que estava mais longe do que deveria.

— Acho que é melhor voltar... — murmurou para si mesmo, olhando para trás, tentando ver o caminho de volta.

Mas, de repente, um som estranho cortou o silêncio. Um tambor. Era um som ritmado, como se alguém estivesse batendo com as mãos em um instrumento grande, lá no fundo da floresta.

Evandro parou, intrigado. Seus pés congelaram por um instante, mas a curiosidade era maior do que o medo. "O que será que é isso?", pensou. Ele olhou ao redor, e, sem perceber, começou a andar na direção do som.

Os tambores continuaram, ecoando pelo meio das árvores. Quanto mais ele andava, mais o som ficava claro, mas também mais misterioso. O coração de Evandro começou a bater um pouco mais rápido, e ele quase voltou atrás. No entanto, alguma coisa naquela música o chamava.

Depois de alguns minutos caminhando, ele chegou a uma clareira. No centro, havia um homem. Ele estava de pé, com uma expressão calma, como se estivesse esperando por algo ou alguém. O homem era forte e vestia roupas simples, mas o que chamou a atenção de Evandro foi a maneira como ele se movia. Era como se dançasse com o vento. Ele girava com leveza, levantava as pernas em chutes altos, e seus braços faziam movimentos graciosos no ar, ao som dos tambores.

Evandro ficou parado, escondido atrás de uma árvore, observando. Ele nunca tinha visto nada assim. Aquilo era... mágico. "Será que é um lutador?" pensou Evandro. Mas os movimentos eram tão fluidos, quase como uma dança. Ele se lembrou de ter visto algo parecido na TV uma vez: capoeira. Sim, era isso. Aquele homem estava praticando capoeira, mas de um jeito que parecia mais uma arte do que uma luta.

De repente, o homem parou, como se sentisse a presença de Evandro. Ele se virou lentamente, seus olhos gentis encontrando os de Evandro.

— Não precisa ter medo, menino — disse o homem com uma voz suave. — Pode se aproximar.

Evandro hesitou por um segundo, mas algo no jeito calmo do homem o fez se sentir seguro. Ele saiu de trás da árvore, caminhando devagar até o centro da clareira.

— Oi... eu sou o Evandro — disse ele, um pouco sem jeito.

O homem sorriu e fez um leve aceno com a cabeça.

— Eu sei, Evandro. Eu sou o Mestre João. E você está aqui porque o som dos tambores te chamou, não é?

Evandro franziu o cenho.

— Como você sabe meu nome? — perguntou, um pouco desconfiado.

Mestre João deu uma risada baixa, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— A floresta me contou. Ela sabe muitas coisas. — Ele olhou em volta, como se as árvores estivessem ouvindo.

Evandro não sabia se aquilo era verdade ou se era apenas uma brincadeira, mas a curiosidade tomou conta de novo.

— O que você estava fazendo? Parecia... uma dança — perguntou.

— É capoeira — explicou Mestre João. — É uma arte que mistura luta e dança. Ensina o corpo a ser forte e a mente a ser corajosa. Assim como você, Evandro.

Evandro arregalou os olhos.

— Eu... corajoso? — ele riu, achando a ideia estranha. — Eu tenho medo de um monte de coisas, até de fazer aniversário!

Mestre João se aproximou, colocando uma mão no ombro de Evandro.

— Todos nós temos medo de algo, Evandro. Mas a coragem vem quando enfrentamos esse medo, um passo de cada vez. Você vai aprender isso. Está escrito em você, garoto especial.

As palavras de Mestre João ficaram ecoando na cabeça de Evandro. Ele não sabia o que exatamente significava ser "especial", mas, por algum motivo, sentiu que aquele encontro não era por acaso. O som dos tambores, a floresta misteriosa... tudo parecia uma grande aventura que estava só começando.

E talvez, só talvez, crescer não fosse tão assustador assim, se ele pudesse aprender a ser corajoso.