Capítulo 3: A Ginga e o Engatinhar


A GINGA E O ENGATINHAR

 Três meses se escoaram desde que Rosana deixara Yago na soleira de sua porta. Três meses de noites picadas, de refeições apressadas e de uma fadiga que se instalara em Leandro como um parasita teimoso. O teste de DNA, insistido por seu pai com ligações cada vez mais frias, permanecia engavetado. Leandro tomara uma decisão instintiva e obstinada: antes de provar a paternidade ao mundo (ou a Sebastião), ele precisava prová-la a si mesmo e, mais importante, a Yago.

Seu esforço para equilibrar a vida era hercúleo. A marcenaria exigia concentração milimétrica, mas a falta de sono tornava seus reflexos lentos. Muitas vezes, ele se pegava cochilando em pé, apoiado na bancada, sendo despertado pelo cheiro forte de verniz ou pelo pigarro impaciente do Sr. Osvaldo.

— Capivara, parece que você está lutando com a madeira, não trabalhando com ela! — o Sr. Osvaldo reclamou certo dia, apontando um corte torto na prancha de cedro. — Se não consegue manter o ritmo, me avise.

Leandro sentia a pressão da falha iminente.

Na capoeira, a situação era ainda mais frustrante. A roda era seu santuário, mas agora a entrada era uma tortura. Seu corpo estava pesado. O "Capivara" ágil e esquivo dava lugar a um lutador hesitante, cuja esquiva chegava sempre meio segundo atrasada.

— Você está na defensiva, Capivara! A vida te deu um peso, mas você está deixando esse peso te enterrar! — Gavião bradava durante o treino. — Você precisa se liberar desse peso, usá-lo como impulso. Senão, vai cair.

Leandro sentia o ferrão da verdade em cada reprimenda. Ele estava exausto demais para usar o peso como impulso. O que o mantinha de pé era Yago.

A relação com o menino, agora com dois anos e meio, havia evoluído de um pânico mútuo para uma intimidade construída sobre paciência e repetição. Havia ainda as frustrações: a birra inesperada no supermercado, a recusa em comer o que ele preparava com esforço, as noites em que Yago chorava pela mãe que não voltava. Nesses momentos, Leandro sentia um medo gelado de falhar, de não ser suficiente.

Foi nesses momentos de desespero que ele recorreu à única linguagem que dominava: o ritmo.

Ele descobriu que a melodia da capoeira era um portal para a calma do menino. Quando Yago estava agitado, Leandro o pegava no colo, colocava-o sobre seu peito e começava a cantar uma ladainha antiga, baixinha, embalando-o no ritmo. Ele não podia treinar, mas podia usar a musicalidade da luta.

Com o tempo, ele criou uma rotina só deles: a "hora da roda mansa". Todas as noites, antes de dormir, Leandro sentava-se no chão com o berimbau na mão (tocando suavemente para não acordar os vizinhos) e cantava. Yago engatinhava ao redor, depois arriscava os primeiros passos desajeitados, os olhos fixos na cabaça, absorvendo o som.

Certa noite, porém, essa rotina se transformou em um triunfo.

Leandro havia chegado em casa mais tarde que o normal, cansado e com uma dor latejante no pulso de tanto manusear a plaina. Ele mal teve tempo de dar o jantar a Yago, que estava especialmente irritadiço. Enquanto tentava vesti-lo para dormir, o menino começou a chorar, jogando-se no chão.

Leandro sentiu o limite da sua paciência. Ele se ajoelhou, respirou fundo e, em vez de brigar, começou a cantar a sua ladainha favorita, o som grave e cansado da sua voz preenchendo a pequena sala. Ele não estava olhando para Yago; estava cantando para si mesmo, para encontrar sua própria força.

Enquanto cantava, ele começou a fazer a ginga, lento, no lugar, balançando o corpo de um lado para o outro. Era um movimento meditativo, de busca pelo centro.

De repente, a voz aguda de Yago parou. O choro cessou.

Leandro manteve os olhos fechados, esperando o próximo soluço, mas só ouviu um ruído peculiar.

Quando ele abriu os olhos, o coração deu um salto. Yago não estava mais no chão. Ele estava tentando imitar o movimento do pai.

O menino estava de pé, as perninhas bambas, balançando o corpo para a frente e para trás, quase caindo. A coordenação era inexistente, e o equilíbrio, precário. Ele não estava fazendo a ginga, mas estava entrando no jogo. E o que fez Leandro se sentir vencedor não foi a tentativa do golpe, mas o sorriso que se abriu no rosto de Yago.

Era um sorriso largo, desdentado e genuíno, de pura cumplicidade. Era a primeira vez que o menino não sorria para um brinquedo, ou para uma brincadeira. Ele sorria com Leandro, compartilhando o ritmo, reconhecendo a linguagem corporal do pai. Era um "nós" sem palavras.

Naquele instante, a fadiga de três meses, a pressão do pai e as críticas de Gavião desapareceram.

Leandro cessou a ginga e sentou-se, exausto, mas com uma energia nova o invadindo. Ele estendeu os braços. Yago cambaleou e se jogou no seu peito, aninhando-se.

O calor daquele abraço não precisava de assinaturas ou laudos periciais. A ligação era real, forjada na luta diária e no afeto conquistado. Ali estava sua verdadeira vitória.

— É isso, meu guri — sussurrou Leandro, apertando-o forte. — A gente faz a nossa própria roda.

A decisão estava cimentada. O DNA podia esperar, talvez para sempre. A prioridade não era mais provar uma origem, mas construir um futuro. Ele podia ser um capoeirista mediano e um marceneiro desatento por um tempo, mas não falharia em ser o melhor pai que Yago poderia ter, mesmo que essa nova família fosse completamente "torta" aos olhos do mundo.