Capítulo 3: Júlia

14 de junho, 23h30

Hoje, mais uma vez, ele apareceu. Rafael, com aquele sorriso que poderia derreter até o gelo mais frio. Entrou no salão segurando o capacete de moto e uma sacola de pão fresco, como sempre faz. Disse que veio “dar um trato” no cabelo, mas eu sabia que era só uma desculpa.

Não consigo evitar. Meu coração dispara toda vez que ele entra pela porta. É ridículo, eu sei. Quantos meses já se passaram desde que comecei a cortar o cabelo dele? Desde a primeira vez, aquele homem mexeu comigo.

Ele sempre faz perguntas sobre meu dia, ri das minhas piadas bobas e, às vezes, até traz café. É como se o salão ficasse mais quente, mais vivo, quando ele está lá.


17 de junho, 01h10

Hoje, decidi que vou contar a verdade. Não aguento mais esse nó no peito, essa expectativa toda vez que ele aparece. Quero dizer a Rafael o que sinto, mesmo que isso signifique me expor, mesmo que ele não sinta o mesmo.

“Você é tão corajosa, Júlia”, me disse Marlene, minha colega de trabalho, quando confessei a ela meus planos. Será que sou mesmo?


18 de junho, 21h45

O salão estava vazio quando Rafael chegou. Eu pedi para Marlene sair mais cedo, porque sabia que precisava de privacidade.

Enquanto cortava o cabelo dele, minhas mãos tremiam. Tentei disfarçar, falando sobre banalidades: o clima, o trânsito, o jogo de futebol da noite passada. Rafael, como sempre, foi simpático e envolvente.

Quando terminei, respirei fundo.

“Rafael, posso te falar uma coisa?”

“Claro, Júlia. O que foi?”

Olhei nos olhos dele e, pela primeira vez, senti que era agora ou nunca.

“Eu gosto de você.” Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. “Não só como cliente, mas... como pessoa. Eu gosto mesmo de você.”

O silêncio que veio em seguida foi como um balde de água fria. Rafael desviou o olhar e coçou a nuca, claramente desconfortável.

“Júlia... você é incrível, sério. Mas eu não vejo você dessa forma.”


18 de junho, 23h10

Quando Rafael saiu do salão, a realidade bateu como um soco no estômago. Por mais que eu tenha tentado me preparar para a rejeição, doeu. Doeu mais do que eu imaginava.

Passei horas sentada na cadeira em frente ao espelho, olhando para mim mesma. Pensando em tudo o que eu queria ouvir e que não veio. Pensando no vazio que ele deixou ao ir embora.

Mas, enquanto encarava meu reflexo, algo mudou.

“Júlia, você é incrível”, repeti, dessa vez para mim mesma. Ele estava certo. Eu sou incrível. E o amor que eu queria de Rafael talvez não fosse para mim. Mas isso não significa que não sou digna de amor.


19 de junho, 00h30

Escrevo agora, com o coração mais leve. O amor que não veio de Rafael é o amor que vou cultivar em mim.

Porque, no final das contas, ninguém pode me amar mais do que eu mesma. E isso já é o suficiente.