Capítulo 3: O Ponto de Ruptura

O Ponto de Ruptura


 Na quinta-feira, a tensão em Paraíso era palpável, e Gabriel sentia que o ar estava eletrizado. A promessa de Letícia de que ele deveria fazer uma escolha pesava sobre ele, mas era o autoritarismo de Marialda que finalmente acendeu a faísca da sua revolta.

Ao meio-dia, o pequeno, mas amado, trailer de hot-dog do Seu Manoel era guinchado da frente do Colégio Municipal por ordem da prefeita. Gabriel assistiu de longe, impotente.

— Ela está tratando a cidade como um jogo de SimCity! — desabafou Lucas, amigo de Gabriel, com os olhos vermelhos. — Meu pai sustentava a família com esse trailer. Ele tem um empréstimo no banco para pagar! Sua mãe nem sequer ofereceu um novo local. Disse que é "questão de estética".

Gabriel sentiu uma onda de náusea. O peso do sobrenome nunca fora tão esmagador. Ele não apenas estava sendo sufocado; a cidade inteira estava sendo controlada por sua mãe, e ele era cúmplice pela omissão. Ele era o filho daquela opressão.

— Eu sinto muito, Lucas. Eu não...

— Não importa o que você sente, Gabriel. — Lucas o interrompeu, a decepção marcada no rosto. — Você é o filho da prefeita. Para nós, você é o futuro do problema.

Aquelas palavras atingiram Gabriel com mais força do que o medo da reação de Marialda. Naquele momento, ele percebeu que precisava escolher: ou ele estava do lado da mãe e do controle, ou estava do lado da verdade, da amizade e de Letícia.


No final da tarde, no ginásio da escola, Gabriel estava terminando o treino de basquete quando viu Valéria e suas duas amigas no canto, atrás das arquibancadas. O sorriso nos lábios de Valéria era frio, calculista, e elas estavam concentradas em um copo grande, misturando um líquido escuro e pegajoso. O olhar delas estava fixo na saída dos vestiários femininos, onde Letícia havia entrado minutos antes.

O coração de Gabriel disparou. Ele não precisava de explicações. Ele reconheceu o padrão de crueldade. Aquela seria a humilhação pública que Valéria prometera nas entrelinhas das redes sociais.

A voz de Letícia, exigindo que ele agisse como se o amor fosse real, ecoou em sua mente. O rosto de Lucas, chamando-o de "futuro do problema", o impulsionou. Ele não fugiria desta vez.

Gabriel largou a bola de basquete e marchou até elas. Sua voz estava baixa, mas carregada de uma autoridade inédita.

— O que vocês estão fazendo?

Valéria pulou, assustada, e tentou esconder o copo atrás das costas, mas o cheiro doce e forte era inconfundível.

— Gabriel! Que susto! Nada, bobo. Só conversando sobre... a festa do fim de semana. — Ela riu, um som falso.

— Não minta para mim. O que você está aprontando com esse copo? É para a Letícia, não é? O seu último ato de bullying ridículo.

— O de sempre. — Valéria deu de ombros, recuperando a postura de superioridade. — Dando uma lição na estrangeira intrusa. Ela precisa aprender a ficar no lugar dela.

Gabriel não deu tempo para ela terminar a frase. Ele deu um passo à frente, agarrou o copo da mão dela e, sem hesitar, despejou todo o líquido na lixeira mais próxima. O som alto da bebida atingindo o fundo de metal atraiu a atenção de alguns alunos que passavam.

— Chega, Valéria. Acabou. — A voz dele era firme e cortante. — Se você quer ser popular, seja por algo que você fez, não por quem você destruiu.

Valéria estava lívida, sua máscara de frieza desmoronando em raiva e humilhação.

— Você está fazendo isso por ela? Por aquela? Você está me expondo por causa da argentina desajeitada?

Gabriel olhou-a nos olhos, sem vacilar. Ele sentiu o medo se dissolver e dar lugar a uma clareza gelada. Era a primeira vez que ele usava a força do seu sobrenome e da sua popularidade para o bem.

— Sim, Valéria. Eu estou escolhendo-a. E estou escolhendo a paz e o respeito. E só para você saber, se você tocar nela, ou falar mais uma palavra cruel sobre ela nas redes, eu vou te expor. Eu vou mostrar a Paraíso quem é a verdadeira pessoa tóxica aqui. Não me importo mais com a sua 'opinião' ou com as suas 'regras' de popularidade.

— Você não vai durar! Você não tem coragem de assumir!

— Pode apostar que sim. — Gabriel afirmou, dando um passo para trás, deixando-a sozinha com o olhar espantado das amigas e a lixeira gotejante. — Você perdeu, Valéria.

Enquanto se afastava, Gabriel viu Letícia sair dos vestiários, confusa com o pequeno tumulto. Ele a alcançou, não mais se importando com quem olhava. Pegou sua mão, a palma suada, e entrelaçou seus dedos com força. Ele não disse nada, mas o aperto na mão dela era uma promessa silenciosa, uma resposta ao seu ultimato.

Naquele instante, Gabriel tinha certeza de que acabara de salvar Letícia da humilhação, mas também tinha certeza de que havia assinado sua própria sentença de tempestade doméstica. A crise estava apenas começando, e Marialda não perdoaria esse desafio público à sua autoridade.