A atmosfera na mansão Patrones tornou-se mais densa, como se as próprias paredes estivessem absorvendo a melancolia de seu dono. Alberto, movido por um interesse que não sentia há décadas, passou a observar Victor não mais como um empregado, mas como uma peça de argila a ser moldada. Para o imortal, o rapaz era uma distração viciante para a sua "fadiga de viver".

Victor, por outro lado, começou a notar as fissuras na fachada de normalidade do patrão. Certa manhã, ao tentar entregar uma correspondência urgente, o jovem percebeu que a porta do quarto de Alberto não tinha apenas uma tranca, mas parecia selada contra qualquer fresta de luz. Não havia janelas naquele aposento, apenas o silêncio absoluto de uma tumba.

Mais tarde, enquanto ajudava Alberto a se preparar para uma videoconferência com acionistas de Tóquio, o rapaz segurava um espelho de mão para auxiliar nos ajustes finais. Foi quando o desconforto se transformou em dúvida.

— O senhor nunca se olha no espelho enquanto faz o nó da gravata? — Victor perguntou, curioso, enquanto arrumava a gola do patrão. Ele olhava para o vidro e via apenas um vulto turvo, uma mancha cinzenta onde deveria estar o rosto nítido de Alberto.

— Eu já decorei meu rosto há séculos, Victor. Não preciso que o vidro me confirme quem eu sou — respondeu Alberto, mantendo o olhar fixo no vazio à frente. — Além disso, o que os olhos veem é apenas a casca. O que importa é o que flui por baixo da pele.

Victor engoliu em seco, sentindo o peso daquela afirmação. Pouco depois, ao abrir um envelope com um abridor de cartas afiado, Alberto acabou sofrendo um corte profundo na palma da mão por um descuido calculado. Victor correu para buscar um curativo.

— Senhor, deixe-me ajudar, está sangrando muito...

— Não se incomode — interrompeu Alberto, fechando o punho por apenas três segundos.

Quando ele abriu a mão novamente, a pele estava lisa, pálida e intacta. Não havia cicatriz, nem sinal de sangue, apenas o cheiro metálico que subitamente preencheu o ar, fazendo as narinas de Alberto dilatarem levemente. Victor recuou um passo, o coração martelando contra as costelas.

Enquanto o jovem lidava com o medo, Alberto ocupava suas madrugadas de forma diferente. Ele não estava apenas gerindo hotéis; ele estava caçando. Através das câmeras de segurança de alta definição instaladas nos arredores da casa de Victor, ele monitorava os adolescentes que haviam humilhado seu assistente. Ele os via rir, usar drogas e planejar novos pequenos crimes sob a luz dos postes.

Alberto sentia o instinto predador, há muito adormecido sob camadas de tédio aristocrático, despertar com uma fúria renovada. Ele não via naqueles jovens seres humanos, mas parasitas que desperdiçavam a vida que ele mesmo já não suportava carregar.

— Eles têm tanta pressa em destruir o que possuem — sussurrou Alberto para a tela do monitor, onde a imagem de um dos rapazes surgia em close. — Talvez eu devesse ensiná-los que o tempo pode parar muito antes do que eles imaginam.

Naquela noite, o "projeto de legado" de Alberto ganhou contornos de sangue. Ele não queria apenas que Victor fosse rico; ele queria que Victor fosse livre, nem que para isso tivesse que arrastar o rapaz para dentro da sua própria escuridão eterna.