Capítulo 3 - A peneira e a recusa

CAPÍTULO 3


No futebol e na vida, a queda é parte do jogo. A dor da rejeição não é o final da história, é só a vírgula que te obriga a respirar fundo antes de seguir a frase. Ser recusado dói mais porque a gente investiu mais do que a perna: a gente investiu o coração.

O dia da avaliação final no Clube Atlético União (CAU) chegou envolto em uma tensão silenciosa. Kauan acordou antes do sol, com o estômago embrulhado. Marta fez um café reforçado, e José Alfredo, apesar de ter que trabalhar, o acompanhou até o ponto de ônibus.

— Vai lá e voa, Falcão. A gente tá te esperando com a notícia boa — disse seu pai, com um sorriso que tentava disfarçar a ansiedade.

Kauan treinou como nunca. Dois meses de sacrifícios, de sono trocado por longas viagens, de estudos negligenciados. Ele fez um jogo impecável, driblando, criando chances e mostrando sua velocidade. Sentia que havia deixado a alma em campo.

Ao final do treino, Rodrigo, o olheiro, reuniu o grupo. O silêncio era absoluto.

— Pessoal, vocês são talentosos. Mas o futebol é cruel. Não há vaga para todos.

Ele começou a chamar os nomes dos aprovados. Um por um, os garotos sorriam e comemoravam. Kauan esperou, o coração martelando no peito, repetindo mentalmente: Vai, Falcão. Vai, Falcão...

O último nome foi chamado. Não era o dele.

Kauan sentiu o chão sumir. Ele tentou encontrar o olhar de Rodrigo, que o chamou para um canto.

— Kauan, você é muito bom tecnicamente. Você tem visão, velocidade... Mas, sendo honesto, você é leve. O futebol profissional é pancada. Você não tem o físico para aguentar o tranco da base. Você precisa amadurecer muito — repetiu Rodrigo, as palavras secas e frias. — Sinto muito, garoto. Você não será aproveitado no CAU.

Era um golpe. Não apenas uma recusa, mas a invalidação de dois meses de dedicação e, pior, do sacrifício de seus pais. Kauan apenas assentiu, incapaz de falar. A dor da rejeição era esmagadora.

A volta para casa foi a mais longa de sua vida. Ele não conseguiu mentir para os pais. Quando José Alfredo e Marta o viram entrar pela porta, notaram imediatamente a mochila caída e o olhar vazio.

— Não deu, mãe — ele disse, a voz embargada.

Marta o abraçou, as lágrimas escorrendo, e José Alfredo sentou-se na cadeira, a mão na testa. O silêncio da casa era mais barulhento do que qualquer grito.

No dia seguinte, a notícia se espalhou como fogo na escola.

— Lá vem o ex-Falcão! O passarinho que não voou! — gritou Caio, na frente de todos.

Bianca se aproximou, com um sorriso de escárnio.

— A loteria não foi sorteada dessa vez, Kauan? Talvez agora você se concentre naquilo que realmente importa. É o destino te mostrando o caminho dos livros.

A humilhação era insuportável. Kauan foi para a quadra, desolado, enquanto Arthur tentava afastar os provocadores.

À noite, ele sentou-se com seu pai.

— Pai, eu desisto. É isso. Eles estão certos. Eu não tenho corpo, não tenho sorte... É melhor eu procurar um emprego, ajudar o senhor. Pelo menos a gente para de gastar dinheiro à toa.

José Alfredo olhou para o filho, seus olhos cansados refletindo a luz fraca da sala.

— Você acha que ser pedreiro é fácil, Falcão? É sacrifício todo dia. Você tem o dom. E você tá pensando em desistir por causa de um olheiro? Quem tem dom não desiste na primeira queda.

— Mas eles disseram que eu sou fraco!

— Você é fraco de corpo agora. Mas seu coração e sua vontade são mais fortes que qualquer um que eu conheço. Essa é só uma porta que não era para ser aberta. Você não vai desistir do seu sonho por causa de um 'não'. Pense nisso: se fosse fácil, todo mundo seria Falcão.

As palavras do pai eram um bálsamo, mas a ferida ainda latejava.

No final daquela semana, Kauan estava na biblioteca, tentando forçar a concentração nos estudos, quando sentiu alguém parar ao seu lado. Era Ana Letícia.

Ela não disse nada sobre futebol. Apenas pegou um livro de Biologia e começou a ler. Kauan ficou tenso.

— O que você quer? Veio dar uma lição de moral sobre a importância do estudo? — ele perguntou, ríspido.

Ana Letícia fechou o livro, olhando-o nos olhos, pela primeira vez sem indiferença.

— Eu não sou cega, Kauan. Vi você pegando o ônibus de madrugada, vi sua roupa suja de barro. Vi o quanto você se dedicou.

— E de que adianta?

— De que adianta? — Ela franziu a testa. — Você acha que quem tem sucesso não ouve "não"? Eu passei a madrugada estudando para tirar nota dez e tirei oito na última prova de História. Eu chorei no meu quarto.

Ela fez uma pausa.

— Você não foi recusado porque não tentou. Foi recusado por um detalhe que você pode mudar. Seu corpo é você quem treina.

Kauan a encarou, surpreso.

— O Caio e a Bianca...

— Eles falam. Você faz. A diferença é essa. Não pare de voar, Falcão. Só mude a direção.

Ana Letícia se levantou e saiu da biblioteca, deixando Kauan sozinho, com a cabeça fervilhando. As palavras dela e de seu pai se fundiram. A primeira grande crise de fé no sonho havia chegado, mas, surpreendentemente, o apoio veio de onde ele menos esperava. A rejeição do CAU não era o ponto final. Era apenas o incentivo doloroso que ele precisava para recomeçar.