Capítulo 3: Saiam da Frente da Minha Casa



 Os dias de Lucas no coma foram, para o Brasil, uma telenovela em tempo real, um drama nacional com hashtags de mobilização e vigílias transmitidas ao vivo. A história do "Galã de Ouro" — o jovem herói, aventureiro e indomável, injustiçado pelo destino — havia viralizado a tal ponto que sua recuperação era aguardada com a ansiedade de um final de campeonato. No Twitter, a hashtag #ForçaLucasAventureiro figurava diariamente nos trending topics, e a frente do Hospital Santa Helena havia se transformado em uma espécie de santuário improvisado, repleto de velas, cartazes e mensagens de apoio.

Lucas acordou sem a menor ideia desse circo que se desenrolava do lado de fora. A primeira sensação que registrou foi o zunido constante das máquinas e a luz branca e fria da UTI. Quando seus olhos finalmente focaram, a primeira coisa que viu foi o rosto de D. Sílvia, sua mãe, curvado sobre a cama, chorando um misto de alívio e exaustão.

— Meu filho, meu guerreiro, você voltou! — ela soluçou, apertando a mão dele com uma força surpreendente.

O segundo foco de Lucas foi a televisão suspensa no canto do quarto. Ela estava sintonizada em um programa de variedades. Embaixo do rosto sorridente e emoldurado de Lucas, piscava a manchete em letras garrafais e chamativas: O GALÃ DE OURO DO BRASIL ACORDOU! SEU ATO DE VONTADE É INCRÍVEL!. Lucas tentou entender a confusão. Galã de Ouro? Ato de vontade? Ele só se lembrava do caminhão-guincho.

Pouco depois, o médico chefe, um homem alto e sisudo, entrou no quarto acompanhado por uma enfermeira sorridente. Eles checavam os equipamentos, e Lucas tentou fazer a pergunta mais lógica: — Doutor, o que aconteceu comigo? Estou bem?

O médico sorriu, um sorriso paternal e quase reverente. — Você está ótimo, Lucas. Ótimo, considerando tudo. Sua recuperação é um milagre, um testemunho da sua incrível força interior. Realmente, só um homem com a sua paixão pela vida e com a sua... — ele lançou um olhar significativo para a enfermeira — ...trajetória de vida, conseguiria essa virada. A nação está celebrando sua força de vontade de herói, rapaz.

A enfermeira, por sua vez, enquanto ajustava o soro, sussurrou para ele, com os olhos brilhando em admiração. — Seu quarto está lotado de flores, Lucas. De admiradoras do país inteiro. Disseram que você as abandonou no altar em Milão. Ah, essas conquistas amorosas são de dar inveja!

Lucas ficou horrorizado. Milão? Ele só tinha ido a Milão numa viagem de Google Maps. Ele queria gritar, queria se debater e dizer: — Eu nunca beijei ninguém! Não sou um herói! Eu só estava indo tirar uma foto para postar uma mentira no Instagram! — Mas a fraqueza física e a magnitude da mentira que o havia engolido o paralisaram.

Dias depois, veio a alta hospitalar. O momento da saída foi coreografado como uma aparição papal. A equipe de segurança do hospital mal conseguia conter a multidão de repórteres e fãs que gritavam seu nome. Lucas, magro e pálido, parecia um fantoche sendo guiado por seus pais.

Ao chegar em sua rua, o cenário era apocalíptico. Não era mais a rua residencial tranquila que ele conhecia. A quadra estava completamente bloqueada. Atrás das grades de segurança instaladas pela polícia, havia uma multidão ensandecida de centenas de pessoas. Elas seguravam cartazes coloridos, alguns com o rosto dele desenhado, outros com frases absurdas: “Volta para mim, Valeska te ama!”, “Lucas: O Príncipe da Coragem e do Mar!” (referência à namorada fictícia pesquisadora marinha), e “Obrigado por salvar a Valeska do fogo!”.

A sensação de Lucas não era de triunfo; era de claustrofobia e pânico total. A rua, sua rua, havia sido roubada por uma fantasia. Ele cambaleou levemente, assustado com o volume ensurdecedor dos gritos e flashes.

Seu pai, Sr. Armando, que antes era um homem calmo e sem graça, agora andava com o peito estufado, acenando para a multidão como se fosse um político vitorioso. Ele parou na porta de casa, virou-se para Lucas e sorriu com os dentes.

Lucas agarrou o braço do pai, a voz embargada e quase inaudível devido ao tumulto. Ele precisava confessar. Ele precisava parar aquilo.

— Pai... eu preciso te falar uma coisa. Olhe para todos eles. Eles acham que eu sou alguém que eu não sou. Eu nunca beijei ninguém, Pai! Eu nunca...

O Sr. Armando interrompeu-o, voltando o rosto para a multidão, que clamava por Lucas. Ele estava completamente fora da realidade, intoxicado pela fama refletida do filho.

— Agora não, filho, a nação espera por você! — O pai falou alto, sem nem olhar para ele. — Essa é a vida que você sempre mereceu. Seja o Lucas que eles amam!

E com um empurrão suave, o Sr. Armando o forçou a ir para a varanda da casa, acenar e sorrir para a multidão enlouquecida. Lá estava Lucas, o rapaz que tinha medo de segurar a mão de uma moça, acenando para o Brasil inteiro como o galã mais destemido da nação. Ele havia desejado ser amado por suas histórias, e o universo o punia, forçando-o a viver dentro da mentira que ele havia criado. O Lucas real, o nerd inseguro, havia sido permanentemente substituído pelo "Galã de Ouro" que precisava sustentar a farsa a qualquer custo.