Capítulo 3 – Segredos ao luar

 

Os dias na fazenda corriam lentos, mas para Cauby e Kaike o tempo parecia ter outro ritmo. Aos poucos, o rapaz da cidade foi se aproximando das tarefas. Ainda desajeitado, às vezes tropeçava no curral, ou deixava cair o balde de água, arrancando risadas de Yuri e João Bonito. Mas Cauby estava sempre por perto, pronto para ajudar.

— Num se aperreia, não, moço — dizia ele, estendendo a mão. — A lida cansa, mas depois cê pega o jeito.

Kaike sorria, meio sem graça, mas cada vez mais confiante na presença do sanfoneiro. Entre uma conversa e outra, começaram a dividir confidências: Kaike falava das ruas iluminadas da cidade, do barulho constante, do quanto se sentia sufocado mesmo cercado de gente; Cauby contava sobre as festas juninas, a música que corria solta na beira do fogo e sobre como aprendera sanfona sozinho, só ouvindo os mais velhos tocarem.

Numa dessas conversas, perto do curral, um gesto simples mudou tudo. Os dois riam de uma piada qualquer, quando as mãos se encontraram sem querer. O toque foi breve, mas suficiente para que o coração de ambos disparasse. Kaike puxou a mão de volta rapidamente, olhando ao redor, temendo que alguém tivesse visto.

— Melhor a gente… tomar cuidado — murmurou, a voz baixa, quase um sussurro.

Cauby o encarou, sério.

— Cuidado de quê? Aqui ninguém tá reparano, não. Só se os porco tiver falano.

— Você não entende… — Kaike desviou o olhar. — Na cidade, isso não é simples. Não é seguro. Eu passei a vida aprendendo a esconder.

Cauby suspirou fundo.
— Pois aqui, moço, eu num quero escondê nada, não. O sertão também pode sê lugar de amor, uai.

Kaike não respondeu. Ficou em silêncio, com o peso das lembranças e dos medos que carregava.

Naquela noite, o céu estava limpo e a lua derramava sua luz sobre a fazenda. Cauby sentou na varanda com a sanfona no colo, dedilhando uma melodia suave, diferente das que costumava tocar em festa. Era lenta, carregada de sentimento.

Kaike apareceu devagar, atraído pelo som. Sentou-se ao lado dele, olhando para o céu. Nenhum dos dois falou por alguns instantes. O vento leve passava entre as árvores, o mugido distante do gado completava a música.

— É bonito — disse Kaike, quebrando o silêncio.

— Ocê também acha? — Cauby respondeu, mantendo o olhar firme no luar.

Foi então que Kaike se virou. Os olhos se encontraram, e o mundo pareceu parar. Sem pensar muito, Cauby deixou a sanfona de lado e se aproximou. Kaike hesitou por um segundo, mas não recuou. O beijo aconteceu ali, simples e urgente, iluminado pela lua e embalado pelo som que ainda vibrava no ar.

Quando se afastaram, Kaike respirava rápido, quase assustado.
— Isso… isso tem que ficar entre nós.

Cauby assentiu, mas dentro dele havia outra certeza: não queria que aquele amor fosse segredo.

E assim, sob a luz da lua e com o som da sanfona, nascia algo que poderia mudar para sempre o destino dos dois.