O corredor da delegacia parecia mais longo e frio do que o normal naquela manhã de terça-feira. Luiz caminhava ao lado de Mike, com os ombros encolhidos e o olhar fixo nos próprios pés, enquanto o som de seus passos ecoava no piso de cerâmica desgastada. Mike mantinha uma mão firme no ombro do amigo, sentindo a trepidação nervosa que emanava dele, um sinal claro de que o confronto iminente com a autoridade máxima da cidade seria um divisor de águas em sua sanidade já fragilizada.
Ao entrarem na sala de interrogatório, deram de cara com Helena, que estava sentada atrás de uma mesa metálica, cercada por pastas e um gravador digital que parecia um monólito negro entre eles. A delegada não levantou os olhos imediatamente; ela continuou lendo um relatório com uma calma gélida, sublinhando frases com uma caneta que batia ritmicamente no papel. O ar condicionado zumbia baixo, mas o frio que Luiz sentia vinha diretamente do olhar de Helena quando ela finalmente o encarou, desprovido de qualquer traço de condescendência.
Mike observava a cena de um canto da sala, cruzando os braços enquanto analisava a postura de Helena. Ele percebeu que a delegada não estava ali apenas para cumprir um protocolo jurídico; havia uma intensidade quase predatória em sua forma de formular as perguntas, como se ela estivesse tentando enxergar através do crânio de Luiz para encontrar a verdade que ele insistia em não lembrar. Cada palavra dela era uma lâmina afiada, projetada para cortar a névoa mental do rapaz e forçar uma confissão que encerrasse o ciclo de sua dor pessoal.
— O senhor afirma que não se lembra da velocidade, mas as marcas de frenagem dizem que o veículo estava muito acima do permitido para uma zona residencial — declarou Helena, inclinando-se para frente com um sorriso sem dentes. — Como alguém esquece o peso do próprio pé no acelerador, Luiz?
— Eu... eu juro que não sei, delegada — respondeu Luiz, com a voz falhando e as mãos suando sobre os joelhos. — Tudo o que eu vejo é um clarão e depois o corpo dele ali.
— "O corpo dele" tem nome, era o Bernardo — rebateu ela, com a voz subitamente rouca e carregada de um veneno que Mike identificou como puro sofrimento transformado em fúria. — E ele não era apenas um cachorro, era a última coisa que me restava de um filho que você nunca terá a honra de conhecer.
— Helena, por favor, meu cliente está colaborando — interveio Mike, percebendo que o interrogatório estava cruzando a linha da neutralidade. — Ele não está escondendo informações por malícia, ele está em estado de choque pós-traumático.
— O choque dele não trará o que eu perdi de volta — encerrou Helena, levantando-se e saindo da sala sem olhar para trás, deixando um rastro de tensão que pairou no ar como fumaça.
Após deixarem a delegacia, Mike sentiu que não podia mais confiar apenas no que lhe diziam e decidiu ir sozinho até o local do acidente, sob a luz dura do meio-dia. Ele caminhou pela curva onde tudo aconteceu, observando o ângulo dos postes e a posição exata das marcas de pneus que ainda manchavam o asfalto. Usando uma fita métrica e sua intuição, ele começou a simular o movimento do carro, percebendo que a trajetória descrita por Gabriel no dia anterior simplesmente não fazia sentido físico para quem estivesse sentado no banco do carona.
— Se o carro veio deste ângulo, o motorista teria visto o cachorro muito antes — murmurou Mike para si mesmo, franzindo o cenho enquanto olhava para o meio-fio. — A menos que quem estivesse dirigindo quisesse, por algum motivo, não desviar... ou se a reação veio de alguém que não conhecia bem o tempo de resposta deste veículo.
Mike sentiu um nó no estômago ao perceber que a narrativa de Gabriel tinha lacunas que não podiam ser preenchidas apenas pelo estresse do acidente. Ele se lembrou da tensão de Gabriel ao falar de Helena e começou a suspeitar que Luiz estava sendo usado como um escudo humano em uma guerra que ele sequer sabia que existia. O mistério deixava de ser sobre um acidente trágico e passava a ser sobre uma traição silenciosa que Mike estava determinado a desmascarar, custasse o que custasse.
