
O jantar
Todos sabemos o quanto é difícil confiar em alguém, mas agora que o planeta vai acabar, tem muita gente chutando o balde, deixando o emprego, assumindo riscos, matando vontades e fazendo coisas que nunca teve a coragem ou impulso necessário. Pensar em um fim da uma ideia de que devemos aproveitar o momento.
Tem gente gastando todas as suas economias para conhecer o ídolo, o país dos sonhos ou se aventurar na coisa mais louca possível. O turismo tem se fortalecido com uma dimensão extraordinária, mas enquanto vêm gente de fora para Entre Rios, tem gente aqui da cidade procurando turismo em outras cidades.
— O pessoal aqui da sua cidade tem uma energia muito boa. Parece que todo mundo é protagonista de uma história. Você não tem essa visão, Rayane?
— Mas todo mundo é protagonista da sua história. Pedro, veja o seu caso, você é o protagonista que saiu da sua cidade para desvendar a morte do seu avô, um jornalista em uma cidade que o resto do mundo nem mesmo sabe que existe. Então nesse momento Entre Rios do Oeste é a cidade protagonista da sua história.
Pedro deu risada. — Já eu, acredito que a protagonista seja você — observou o rosto dela por um instante, deixando ela retraída e então voltando os olhos para a mesa — a guia protagonista de uma cidade misteriosa, que possui uma lenda conhecida em todo o Brasil. Isso sem falar dela estar envolvida em coisas misteriosas...
— Que calúnia! Envolvida em coisas misteriosas... Deixa minha avó saber que você falou isso que ela não deixa a gente se encontrar de novo.
— Não tem vontade ir embora daqui? — perguntou Pedro deixando ela pensativa.
— Aqui é o meu lar. Por mais que exista essa lenda sobre a mulher das águas e que a cidade tendo uma história legal, ainda seja protagonizada pela Carolina, minha família é daqui, então acho que... mesmo que um dia eu vá embora, eu vou acabar voltando.
Pedro sorriu.
— É a magia da cidade.
No ano de 1978 foi instalado o primeiro posto telefônico na cidade de Entre Rios do Oeste, e a primeira telefonista foi Vilma Zimermann. Todos tiveram que usar o único PS por 4 anos até que em 1981 foram instalados 55 aparelhos de telefone fixos DDD a um valor muito alto. No ano de 1982 a Igreja Católica passou a ser paróquia, abrangendo quatro comunidades interioranas.
Telefonema
Eugênia não era de falar muito sobre sentimentos, mas imagine uma mãe perdendo a sua filha, porque a cidade inteira julgava aquela adolescente e de uma hora para outra ela estava no meio de mortes misteriosas. Ela sempre acreditou que Carolina iria voltar e que as perguntas seriam respondidas, então quando adquiriu seu telefone lá em 1981, em todos esses anos, nunca trocou de número e sempre divulgava nos classificados dos jornais.
Como 2012 é um ano imprevisível, enquanto Rayane e Pedro estavam jantando, o telefone acabou tocando lá na casa, foi Eugênia quem atendeu, pedindo para que abaixassem o volume da televisão. Quando ela escutou a voz daquela mulher do outro lado da linha, ela sabia que era Carolina, mas conteve a emoção para que ninguém ali na sala soubesse o que estava acontecendo.
De volta ao restaurante, Rayane e Pedro continuavam se entregando.
— Você causa uma sensação em mim que faz eu me sentir injusta e ao mesmo tempo poderosa.
— Eu quero desvendar você.
— Eu quero saber mais sobre você...
— Se eu te contar, então você entrega as informações?
— Eu fico na dúvida sobre o que você realmente quer.
Sorrindo ele respondeu — as duas coisas.
A gente sabe o que aconteceu depois desse jantar. Na verdade, sabemos o que pode ter acontecido. Foi uma grande noite para os moradores de Entre Rios do Oeste, Rayane se encontrava encantada por Pedro e Eugênia agora tinha a certeza de que Carolina estava viva e bem. Existia um sorriso disfarçado com Eugênia, e razão era porque Carolina decidiu voltar para Entre Rios do Oeste.
Em Curitiba...
— Estela, é uma loucura você querer voltar para Entre Rios do Oeste! Você conseguiu refazer a sua vida, você tem uma carreira, você tem uma família. Eu fico toda arrepiada dessa sua decisão, porque... que dimensão isso vai tomar? O que é que seu filho vai pensar de você?
— Amiga... Não teve um dia nesses últimos 40 anos que eu não fui atormentada pelo meu passado. Eu sou a Estela hoje, mas a Carolina vive aqui dentro de mim — disse batendo no peito — Ano passado quando eu decidi contratar aquele investigador não era pra eu encontrar minha mãe apenas, mas que ele fizesse o serviço completo de resgatar a verdade. Eu devo essa verdade a minha mãe, que agora já é uma senhora... e que sempre me fez falta.
— Eu não consigo desenhar essa história. Eu tenho medo que você desmorone, porque a sua vida não foi fácil e agora você voltar pra casa... Será que você está pronta?
— Eu nunca tive tanta certeza na minha vida... Eu posso ter construído tudo isso daqui, ter essa casa gigantesca, o filho mais lindo do mundo, estar na televisão, mas faltando a Dona Eugênia, isso tudo é incompleto. Você consegue me entender? Quando toda a cidade me odiava, ela acreditava em mim. E falaram tanto sobre o mundo acabar que eu quero estar lá com minha família...
— O Gustavo já sabe?
— Não. Ele sempre soube que eu tinha segredos, mas que eu só contaria na hora certa.
Com o telefone em mãos — Então liga pra ele, Estela... ou devo te chamar de Carolina?
Continua...