Capítulo 4 – Água turva

 A casa ficou muda.

Depois do almoço desfeito, Rita voltou no fim da tarde. Celina já não estava, o vinho secando nas taças ainda na mesa. Guilherme a esperava na sala, mas ela subiu direto, tirou os sapatos, tomou um banho longo, sem pressa e sem palavras.

Nos dias seguintes, foi como se tivesse virado fumaça.

Comia qualquer coisa que achava na geladeira. Um pedaço de queijo, um pão seco, às vezes nem isso. Deixava a louça na pia e voltava pro quarto. Não ligava a TV, não ouvia música. Só ficava sentada na beira da cama, olhando pro nada, com as mãos no colo.

Guilherme tentava manter a rotina. Saía pra trabalhar, voltava no fim da tarde. Às vezes perguntava:

— Quer conversar?

Rita só balançava a cabeça. Outras vezes, nem isso.

Ele dizia que a mãe não quis dizer aquilo. Que as palavras foram mal escolhidas. Que estavam todos nervosos.

— Ela é complicada, mas... é o jeito dela. Você sabe.

Rita continuava muda.

Uma noite, tirou do fundo da mala o álbum de fotos que tinha trazido do Amazonas. Sentou no chão do quarto e abriu devagar, como se estivesse tocando em coisa viva. Passou os dedos pelas fotos da família: a mãe sorrindo na rede, o pai com os pés na água, os primos no rio, rindo de alguma coisa que já tinha se perdido no tempo.

Parou numa foto dela criança, segurando um peixe quase do tamanho do braço.

Sorriu de leve.

Lembrou da voz do pai, firme, num fim de tarde qualquer:

— Quem nasce na água aprende a ir embora antes da seca chegar, minha filha.

Naquela hora, entendeu. Não era tristeza só. Era deslocamento. Era como estar dentro de um aquário com vidro trincado. Um lugar onde ela nunca foi convidada de verdade, só tolerada.

Guilherme, do outro lado da casa, continuava tentando fingir normalidade. Lavava a louça, dobrava roupa, ligava a TV com o volume baixo. Mas também sabia. Algo tinha mudado. E o silêncio entre os dois já era coisa velha.

Na madrugada, Rita foi até a cozinha. Encheu uma bacia com água, colocou no chão e molhou os pés. A água estava gelada. Ainda assim, fechou os olhos. Ficou ali por longos minutos.
Era a única coisa que a fazia lembrar que ainda existia nela um pedaço de Rita.

O resto... já estava indo embora.