Os dias que se seguiram ao beijo à beira do rio foram os mais felizes da vida de Catarina. Cada encontro com Nágila era um fôlego novo, uma certeza de que havia beleza no mundo, mesmo que o mundo ainda não estivesse pronto para reconhecê-la.
Mas São Paulo não dormia. Observava.
Começaram a circular boatos entre os corredores da escola, sussurros disfarçados de risadas. Um professor mais rígido chamou Catarina para uma conversa seca, cheia de insinuações. Dias depois, os pais dela foram convocados. A mãe chegou em casa com os olhos baixos, o pai, com os punhos cerrados.
— Você está dando motivo pra falarem da nossa família? — ele gritou, sem esperar resposta. — Isso é coisa que se faça?
Catarina tentou negar, tentou recuar, mas a culpa já tinha sido instalada. A partir daquele dia, passou a ser vigiada. Foi proibida de sair sozinha, de ir à biblioteca, de encontrar qualquer “menina diferente”.
Enquanto isso, Nágila desapareceu da escola.
Soube, por outra aluna, que ela havia sido enviada para morar com uma tia no interior de São Paulo. A família achava que o ambiente da cidade a “desviava”. Não houve aviso, nem despedida.
Mas o destino, ainda que cruel, ofereceu uma última chance.
Na tarde seguinte, Catarina fugiu. Pegou suas economias guardadas na caixinha de costura da mãe e correu até a Estação da Luz. Chegou sem saber se Nágila ainda estaria lá, mas ela estava. Com uma mala pequena, uma expressão entre firmeza e medo, e um lenço amarrado no cabelo.
Quando se viram, se abraçaram com urgência. Não havia tempo, mas havia amor.
— Promete que vai continuar escrevendo? — perguntou Nágila, apertando as mãos de Catarina como se quisesse memorizar o toque.
— Prometo. E vou te esperar — respondeu Catarina, os olhos cheios d’água, tentando conter o choro que ameaçava romper tudo.
O trem apitou. Nágila subiu. Catarina ficou na plataforma, observando até que o último vagão desaparecesse na curva.
A partir dali, as cartas se tornaram seu único refúgio. Escreviam com códigos, com cuidado. Falavam de flores, do tempo, dos livros — mas também do que sentiam, nas entrelinhas. Cada envelope era um alívio. Cada palavra, um reencontro.
Catarina escondia as cartas numa caixa de costura velha, entre linhas e botões, onde ninguém ousaria procurar. Lia e relia até decorar.
Mas o tempo é impiedoso.
Os meses passaram. As respostas começaram a demorar. Depois, pararam.
Um dia, chegou a última carta. Nágila falava com ternura, mas com tom de despedida. Disse que estava bem, mas que a família a vigiava constantemente. Disse que ainda a amava, mas não sabia até quando poderia escrever. Não dizia adeus. Mas era um adeus.
Depois, o silêncio.
Catarina esperou. Durante semanas, meses. Olhava o carteiro com esperança, mas nada mais vinha.
A vida, então, continuou. Não por vontade, mas por necessidade. Terminou os estudos. Arranjaram-lhe um noivo. Casou-se. Teve filhos. Construiu uma vida segura, respeitável, como se esperava.
Mas dentro dela, Nágila nunca foi embora.
O amor não morreu — apenas se calou. Viveu nos detalhes, nas noites em que chorava baixinho. Nos poemas que lia sozinha, nos lenços que bordava em segredo. E, acima de tudo, nas entrelinhas do que nunca pôde ser.
Mesmo velha, Catarina sabia: aquele amor tinha existido. E mesmo que ninguém mais soubesse, ela o carregaria até o fim.
