Capítulo 4: "O Encontro com o Mestre"

 Evandro não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido no dia anterior. O som dos tambores, o homem dançando como se fosse parte do vento, e as palavras misteriosas de Mestre João. Ele sentia que precisava voltar àquela floresta. Talvez o mestre pudesse ajudá-lo a entender seus medos.

No fim da tarde, depois da escola, Evandro seguiu novamente pela trilha da fazenda. Ele sabia que estava indo para a clareira onde havia encontrado Mestre João. Desta vez, não estava com tanto medo, mas sentia o coração bater rápido. Quando chegou, lá estava o mestre, esperando, como se soubesse que Evandro voltaria.

— Sabia que você viria — disse Mestre João, com um sorriso tranquilo, enquanto batia levemente nas mãos, como se chamasse o vento.

Evandro, meio sem jeito, parou na frente dele.

— Oi... — disse Evandro, olhando para os pés. — Eu não sei bem por que voltei... Mas... acho que quero entender o que você quis dizer ontem.

Mestre João sentou-se em uma pedra grande, fazendo um gesto para que Evandro se sentasse ao seu lado.

— Não tem problema não saber, Evandro. Às vezes, o que sentimos nos guia mais do que sabemos — disse o mestre, com um tom suave. — Mas me conte... o que está te incomodando tanto?

Evandro respirou fundo e decidiu contar tudo. Sobre seu medo de fazer 9 anos, de crescer, de ter responsabilidades e de errar.

— Eu sei que ainda sou criança, mas parece que quanto mais eu fico mais velho, mais complicado tudo fica. Todo mundo fala que ser gente grande é difícil. E eu... eu tenho medo de não conseguir.

Mestre João olhou para ele com gentileza, mas também com uma seriedade que mostrava que ele compreendia o que Evandro sentia.

— Sabe, quando eu era pequeno, eu também tinha medo de crescer — disse o mestre. — Eu olhava para os adultos ao meu redor, trabalhando, cuidando de tudo, e pensava que eu nunca ia ser capaz de fazer metade do que eles faziam. Tinha dias que eu só queria continuar criança para sempre.

Evandro levantou a cabeça, surpreso.

— Sério? — perguntou. — Mas você parece tão corajoso agora.

O mestre sorriu, um sorriso que mostrava que ele entendia bem o que Evandro estava passando.

— A coragem não é algo que nasce com a gente, Evandro. É algo que a gente aprende. Sabe o que eu descobri com o tempo?

Evandro balançou a cabeça, curioso.

— Eu descobri que ser corajoso não significa não ter medo. Ser corajoso é fazer as coisas mesmo com medo. O medo é natural, ele faz parte da gente. Mas o que você faz com esse medo é o que te torna forte.

Evandro ficou pensando nas palavras do mestre. Ele nunca tinha pensado dessa maneira antes.

— Mas... como eu faço isso? Eu ainda tenho medo de crescer — admitiu ele, com uma voz baixa.

Mestre João levantou-se e olhou para a clareira ao redor.

— Quando você aprender a capoeira, você vai entender melhor — disse ele, com uma voz tranquila. — A capoeira não é só uma luta. Ela ensina a gente a enfrentar desafios, a ter paciência e a não desistir. O corpo fica forte, mas é a mente que realmente aprende a ser corajosa.

Ele deu um passo para trás e começou a mover os braços, girando lentamente, como se estivesse mostrando os primeiros movimentos de capoeira. Evandro assistia, fascinado. O jeito como o mestre se movia era como uma dança, mas também como uma preparação, algo que parecia ao mesmo tempo leve e poderoso.

— Você quer aprender, Evandro? — perguntou Mestre João, parando e olhando nos olhos do garoto.

Evandro hesitou por um momento, mas sentiu que aquela era uma chance. Uma oportunidade de enfrentar seus medos de uma maneira nova.

— Eu quero — respondeu ele, com firmeza.

Mestre João sorriu mais uma vez.

— Ótimo. Porque a coragem, Evandro, é como uma semente. Você planta ela aqui dentro — ele tocou o peito de Evandro levemente — e, com o tempo, ela cresce. Um passo de cada vez, como em uma roda de capoeira.

Evandro sentiu um calor no peito. Talvez ele não tivesse que entender tudo de uma vez. Talvez crescer não fosse uma coisa que acontecia de repente, mas algo que ele poderia aprender, devagar, um pouquinho por dia.

— Quando começamos? — perguntou Evandro, agora com um sorriso tímido.

— Agora mesmo — respondeu o mestre. — E o primeiro passo é simples: acredite que você é capaz.

E assim, com o coração um pouco mais leve e cheio de curiosidade, Evandro deu o primeiro passo em sua jornada para se tornar corajoso, mesmo com o medo ainda por perto.