O Grito de Liberdade
O ato de coragem de Gabriel no ginásio se espalhou por Paraíso na velocidade da luz. A "briga feia com a ex" e a defesa da "argentina desajeitada" eram a manchete mais quente dos grupos de fofoca da cidade. Na manhã seguinte, o confronto já era um escândalo.
Na Casa Grande, a atmosfera estava mais gélida do que nunca. O café da manhã, que já era tenso, transformou-se em um tribunal. Marialda estava sentada à mesa, impecável, mas com o rosto contraído. Ela não falava, apenas deslizou o Jornal de Paraíso sobre a mesa na direção de Gabriel. A nota de rodapé, com um título exagerado, resumia o incidente.
— Você está satisfeito? — A voz de Marialda era um sussurro perigoso, muito mais assustador do que um grito. — Você envergonhou esta família. O que significa isso, Gabriel? Você sabe o quanto eu trabalhei para construir essa imagem de ordem e decência em Paraíso? Eu passei anos afastando a vulgaridade, e você, em um minuto, destrói tudo por causa de uma... de uma garota!
Gabriel não desviou o olhar. Pela primeira vez, ele não sentiu medo, mas sim uma exaustão libertadora. Ele estava farto de ser o adereço perfeito.
— Ordem? Decência? Mãe, você não constrói decência, você constrói uma prisão de fachada! Você é uma tirana em Paraíso! — A palavra, dita em voz alta, ecoou no silêncio da sala. — Você não se importa com a cidade, você se importa com o seu ego de prefeita. Fechou o trailer do Seu Manoel e ainda me pergunta por que eu não estou te apoiando?
— Você está sendo ingrato! Eu faço tudo por você! Você é meu filho!
— Não, você faz tudo pela prefeita Marialda, e eu sou apenas a propaganda. — Gabriel apoiou as mãos na mesa, inclinando-se ligeiramente. — Você não me vê, mãe. Você só vê o que eu posso te dar politicamente. O que eu sinto, o que eu quero, quem eu amo... isso é uma "futilidade adolescente" para você.
A expressão de Marialda mudou, atingida pela palavra "amo".
— O que você disse? Você está namorando aquela... aquela desordeira?
— Eu disse que eu a amo. — Gabriel repetiu, firme. — Sim, Letícia é minha namorada. Se isso for uma vergonha para sua campanha, se isso for um problema para sua "imagem", então que seja. Eu não sou seu acessório político, e eu não vou mais viver na escuridão. Eu não sou mais um segredo.
Marialda se levantou, batendo as mãos na mesa.
— Você está me desafiando! Está escolhendo essa garota instável em vez do seu futuro! Pense bem, Gabriel, as pessoas vão te julgar, vão te ridicularizar!
— Que julguem! Eles já fazem isso. Mas agora, eles vão me julgar por algo que eu escolhi, e não por algo que você me impôs. Eu escolhi a Letícia. E eu escolho a mim mesmo. Você pode ser a prefeita de Paraíso, mas você não é a prefeita da minha vida!
Gabriel se afastou da mesa e correu para fora da casa, o grito de sua mãe ainda ecoando nas suas costas, mas sem poder alcançá-lo. O peso de anos de expectativas acabara de ser lançado.
Ele encontrou Letícia no parque, sentada em um banco, olhando o lago. Ela havia ouvido tudo.
— Foi a coisa mais corajosa que eu já vi. — Letícia sussurrou, levantando os olhos cheios de lágrimas. — Eu pensei que ela te prenderia para sempre.
— Ela tentou. Mas a sua voz foi mais alta que a dela. — Gabriel sentou-se ao lado dela, exausto, mas leve. — Eu entendi, Letícia. Eu entendi que o medo que eu tinha não era da Valéria ou da cidade. Era do meu sobrenome. E eu não quero mais isso.
Ele segurou as duas mãos dela, sem se importar que estivessem à vista de qualquer vizinho fofoqueiro ou funcionário da prefeitura.
— Eu te amo, Letícia. Eu te amo mais do que amo a paz. Não vamos mais nos esconder. Não vou mais te pedir desculpas por quem eu sou ou por quem você é.
— O que isso significa, Gabriel?
— Significa que acabou o segredo. Acabou o Beijinho e o Brigadeiro de mentira. Hoje, eu escolhi a coragem. Eu escolhi a felicidade. — Ele beijou as costas da mão dela. — Vamos sair daqui, agora. Juntos. De mãos dadas. Sem disfarces. Vamos mostrar a Paraíso o que é um casal de verdade.
Letícia sorriu, um sorriso que iluminou o parque mais do que o sol. Ela apertou a mão dele, sentindo-se finalmente segura, finalmente pertencente. A tempestade na casa do Gabriel era o preço da liberdade deles.
