Capítulo 4 – O peso da tradição

 Na fazenda, boato corre mais ligeiro que cavalo solto. Bastou algumas semanas pra todo mundo reparar que Cauby e Kaike andavam tempo demais juntos. E no sertão, olhar comprido e palavra atravessada pesam quase tanto quanto o sol do meio-dia.

Yuri foi o primeiro a comentar, rindo enquanto jogava milho pras galinhas.

— Ocê num desgruda desse moço da cidade, hein, Cauby? Nunca vi cê gastar tanta paciência com ninguém.

— Deixa de conversa, Yuri. — Cauby retrucou, tentando manter a voz firme. — Tô só ensinano umas coisa pra ele.

— Sei… — Yuri sorriu de canto, mas não insistiu.

Já Goiás falava sem rodeio. Um fim de tarde, sentado na varanda, limpando o facão com um pano velho, lançou de repente:
— Cuidado, Cauby. O povo anda reparano. Homem que se encosta demais em outro vira falatório.

Cauby fingiu que não ouviu, mas Kaike ficou branco como leite.

No curral, João Bonito não perdeu a chance de provocar:
— Ô Kaike, cuidado pra num se perder aí na lida… Se bobear, o Cauby cê te carrega no colo, uai!

Os outros riram, e Kaike forçou um sorriso amarelo. Depois, quando ficaram sozinhos, desabafou:
— Eu não aguento isso, Cauby. Essas piadas, esses olhares… É sempre assim. Eu passei anos fugindo disso na cidade. Achei que aqui seria diferente.

Cauby respirou fundo, tentando segurar a raiva.
— Moço, deixa o povo falá. O que importa é o que nóis sente.

— Não é tão simples. — Kaike abaixou a cabeça. — Você não sabe como é viver escondido, sempre esperando alguém apontar o dedo.

— Sei mais do que ocê pensa. — Cauby respondeu, a voz mais baixa. — Só que eu decidi que num vou me escondê mais. Esse sertão também é meu, e nele eu quero vivê livre.

Kaike não respondeu. O silêncio entre os dois foi pesado, cheio de palavras que nenhum teve coragem de dizer.

Naquela noite, Cauby entrou na cozinha e encontrou tia Zuca mexendo o café na panela de ferro. Sentou-se calado, olhando a fumaça subir. A tia observou o sobrinho por um instante e comentou sem levantar os olhos:
— Fio, num adianta tentá cabrestá sentimento. Coração é bicho brabo: quanto mais ocê prende, mais ele esperneia.

Cauby ergueu o olhar, surpreso.
— A senhora… sabe?

Tia Zuca sorriu de leve.
— Eu sei o bastante. Só digo: quem vive de medo perde o melhor da vida.

Voltou a mexer o café, deixando a frase no ar.

Do lado de fora, a lua brilhava no céu claro, mas a fazenda parecia mergulhada numa sombra diferente. Entre cochichos, provocações e medos, a vida de Cauby e Kaike seguia presa num fio delicado. O sertão, que tantas vezes fora refúgio, agora parecia um campo de prova onde tradição, desejo e coragem se enfrentavam.