Naquela sexta-feira, Miguel passou boa parte da manhã olhando para o relógio. Não era por causa de alguma prova, nem porque estivesse esperando o fim das aulas para voltar para casa. Na noite anterior, Samuel havia mandado uma mensagem perguntando se os dois poderiam se encontrar depois da escola, como faziam antes de toda aquela confusão com os novos amigos. Miguel respondeu quase imediatamente, tentando disfarçar a animação com uma frase curta, mas passou o restante da noite pensando no que poderiam fazer. Talvez fossem até a praça, comprassem alguma coisa na padaria ou simplesmente andassem pelas ruas sem destino, conversando sobre os professores e inventando planos que provavelmente nunca sairiam do papel. Não precisava ser nada especial. Na verdade, era justamente isso que ele queria: uma tarde comum, sem precisar disputar a atenção de ninguém, sem ficar tentando descobrir se ainda ocupava o mesmo lugar na vida do melhor amigo.

Quando chegou à escola, encontrou Samuel perto do portão, conversando com Caio e André. Miguel diminuiu o passo por um instante, observando os três rirem de alguma coisa no celular de Caio. Sentiu aquela velha vontade de chegar fazendo alguma piada, pegar o aparelho da mão de um deles e se meter na conversa como se nada tivesse mudado. Foi o que fez.

— Estão rindo de quê? Se for vídeo de tombo, eu quero ver também.

Caio virou o celular na direção dele, mostrando um vídeo de um garoto tentando chutar uma bola e acertando o próprio pé. Miguel riu junto com os outros, embora não tivesse entendido por que Samuel parecia tão entretido com aquilo. Era só um vídeo bobo. Talvez fosse esse o problema: Miguel estava começando a prestar atenção em coisas que antes nem perceberia.

— E aí, está de pé hoje? — perguntou Samuel, guardando o celular no bolso.

Miguel sentiu o corpo relaxar um pouco.

— Claro. Você falou que a gente ia se encontrar depois da aula.

— Falei, sim.

— Então fechou. Passo em casa, deixo a mochila e te encontro na praça?

Samuel assentiu, mas Caio começou a falar sobre um campeonato de futebol que estavam tentando organizar. A conversa mudou de assunto antes que Miguel pudesse perguntar qualquer outra coisa. Ele acompanhou os amigos até a sala, sentou-se no lugar de sempre e tentou prestar atenção à aula, repetindo mentalmente que não havia motivo para ficar preocupado. Samuel tinha confirmado o encontro. Não precisava transformar cada conversa em uma investigação, como se estivesse tentando encontrar provas de alguma coisa.

O problema era que, ultimamente, Miguel vinha fazendo exatamente isso.

Na hora do intervalo, ele ficou com Gabriel e Rebeca perto das mesas da cantina. Gabriel reclamava de uma atividade de matemática, enquanto Rebeca tentava convencê-los de que estudar na última noite antes da prova não era uma estratégia tão inteligente quanto eles insistiam em acreditar. Miguel participou da conversa, fez algumas brincadeiras e até esqueceu por alguns minutos a preocupação com Samuel. Quando o sinal tocou, os quatro voltaram para a sala juntos.

Foi durante a última aula que as coisas começaram a dar errado. Samuel recebeu uma mensagem, olhou para a tela e respondeu rapidamente. Pouco depois, virou-se para Miguel.

— Cara, talvez eu me atrase um pouco hoje.

Miguel levantou os olhos do caderno.

— Por quê?

— O pessoal quer passar na quadra. Acho que vou dar uma olhada lá antes.

— Mas a gente não combinou de se encontrar?

— Combinou. Eu só falei que talvez me atrase.

Miguel ficou alguns segundos olhando para ele, esperando alguma explicação que não veio.

— Você vai para a quadra com o Caio?

— Com o Caio, o André e quem mais aparecer. Eles estão vendo o negócio do campeonato.

— E você não pode ver isso amanhã?

Samuel soltou o ar pelo nariz, sem chegar a responder de imediato.

— Miguel, eu só vou passar lá um pouco. Depois a gente se encontra.

— Tá bom — respondeu Miguel, voltando para o caderno.

A conversa acabou ali, mas o incômodo continuou. Ele tentou resolver alguns exercícios, copiou o que o professor escreveu no quadro e até respondeu a uma pergunta quando foi chamado. Ainda assim, sua cabeça estava longe da sala. Não conseguia entender por que Samuel precisava encaixar outra coisa justamente no dia em que haviam combinado de ficar juntos. Uma parte dele sabia que o amigo tinha direito de fazer seus próprios planos. A outra, muito mais barulhenta, lembrava de todas as vezes em que Miguel havia esperado por Samuel, mudado seus próprios compromissos ou deixado de fazer alguma coisa porque acreditava que os dois estariam juntos.

Quando as aulas terminaram, Miguel foi para casa, trocou de roupa, comeu alguma coisa e deixou a mochila sobre a cadeira do quarto. Antes de sair, ainda olhou o celular para confirmar o horário. Nenhuma mensagem nova. Mandou um simples “Estou indo” e atravessou algumas ruas até a praça, onde costumavam se encontrar desde crianças. Havia famílias passeando, crianças correndo perto dos bancos e um senhor tentando fazer o cachorro parar de puxar a coleira. Miguel sentou-se no muro baixo ao lado da árvore mais antiga da praça e ficou esperando.

Às quatro e dez, mandou outra mensagem.

Miguel: Você está vindo?

Samuel visualizou alguns minutos depois, mas não respondeu. Miguel bloqueou a tela, guardou o aparelho e tentou se distrair observando o movimento da rua. Às quatro e vinte, tirou o celular do bolso novamente. Nada. Começou a imaginar que Samuel havia esquecido o combinado, embora soubesse que o amigo não costumava fazer isso. Pelo menos, não costumava fazer com ele.

Às quatro e meia, o telefone vibrou.

Samuel: Foi mal, cara. Acabou demorando aqui. Acho que não vou conseguir ir hoje. Depois a gente marca.

Miguel leu a mensagem duas vezes. A primeira, tentando ter certeza de que havia entendido. A segunda, procurando alguma justificativa que tornasse aquilo menos desagradável. Olhou para a praça, para o banco vazio ao lado dele e para a rua por onde Samuel costumava chegar. Havia saído de casa acreditando que aquela tarde poderia resolver alguma coisa, mesmo sem saber exatamente o quê. Agora, sentado sozinho, sentiu vergonha de ter criado tanta expectativa em torno de um encontro que, para o amigo, parecia tão fácil de cancelar.

Digitou uma resposta, apagou, escreveu outra e apagou também. Por fim, mandou apenas:

Miguel: Beleza.

Levantou-se e voltou para casa. No caminho, passou em frente à quadra e ouviu gritos de comemoração. Não precisou entrar para saber quem estava lá. Mesmo assim, olhou por cima do portão. Samuel estava perto da lateral, com uma bola debaixo do braço, enquanto Caio e André discutiam alguma coisa sobre os times. Samuel parecia tranquilo, sorria e conversava como se a tarde estivesse acontecendo exatamente como deveria.

Miguel ficou parado por alguns segundos. Samuel ainda não o tinha visto. Ele poderia ter entrado, chamado pelo amigo e perguntado por que havia cancelado o encontro para continuar ali. Poderia ter fingido que não se importava e se juntado aos outros. Poderia, inclusive, ter voltado para casa sem fazer nada disso. Em vez de escolher qualquer uma dessas opções, permaneceu olhando até Samuel virar o rosto na direção do portão. Os dois se viram. Samuel ergueu a mão num cumprimento rápido, como se dissesse que estava tudo bem, e voltou a conversar com Caio.

Miguel seguiu andando.

Em casa, tentou assistir a um episódio de uma série, mas não conseguiu acompanhar a história. Voltou algumas vezes a mesma cena, até desistir e deixar o controle remoto sobre o sofá. A mãe perguntou se havia acontecido alguma coisa, e ele respondeu que estava cansado. Não queria explicar uma situação que nem ele próprio sabia explicar direito. Como poderia contar que estava com raiva de seu melhor amigo por ter feito algo que, em qualquer outra circunstância, pareceria perfeitamente normal? Como poderia dizer que não era só aquela tarde, mas todas as outras em que começara a sentir que precisava pedir licença para participar da vida de alguém que conhecia desde criança?

No início da noite, Gabriel mandou uma mensagem perguntando se ele queria sair para comer alguma coisa. Miguel recusou, dizendo que estava sem vontade. Pouco depois, Rebeca apareceu na conversa e perguntou se ele tinha falado com Samuel. Miguel respondeu que não havia muito para falar. Rebeca mandou um áudio curto, dizendo que os dois estavam estranhos havia dias e que talvez fosse melhor conversarem pessoalmente. Miguel ouviu até o fim, mas não respondeu.

Ele sabia que ela tinha razão. O que não sabia era como começar uma conversa sem parecer que estava reclamando de tudo.

No sábado, Samuel mandou uma mensagem perto do meio-dia.

Samuel: Vai fazer alguma coisa hoje?

Miguel estava deitado na cama, com um caderno aberto ao lado, tentando escrever uma história que havia começado naquela semana. Ao ler a pergunta, sentiu uma mistura de alívio e irritação. Uma parte dele queria responder imediatamente, dizer que estava livre e aceitar qualquer convite. Outra queria deixar Samuel esperando, só para que ele soubesse como era ficar olhando para o celular sem ter certeza se alguém apareceria.

Miguel: Não sei. Por quê?

Samuel: O pessoal vai jogar bola de tarde. Você pode ir também.

Miguel encarou a tela. O convite era quase igual aos anteriores, mas havia alguma coisa nele que incomodava mais do que deveria. Samuel estava chamando-o para participar do grupo, não para passar um tempo com ele. Talvez essa diferença só existisse na cabeça de Miguel, mas, naquele momento, parecia enorme.

Miguel: Não precisa me chamar por obrigação.

A resposta veio alguns minutos depois.

Samuel: Que obrigação, cara? Estou te chamando porque você pode ir.

Miguel: Tá bom, Samuel. Esquece.

Samuel: Você está estranho de novo. O que foi agora?

Miguel sentou-se na cama. Finalmente, Samuel estava perguntando. Era a oportunidade que ele vinha esperando, mas as palavras saíram de um jeito que nem ele havia planejado.

Miguel: Você quer mesmo saber?

Samuel: Quero. Estou tentando entender o que está acontecendo.

Miguel começou a digitar. Dessa vez, não apagou.

Miguel: Você combina as coisas comigo e depois cancela. Quando eu chego na escola, você está sempre com o Caio e os outros. Quando eu tento conversar, parece que estou atrapalhando. E agora você me chama para jogar bola como se eu fosse só mais um cara que pode aparecer se estiver livre. Eu não sei mais se você quer passar um tempo comigo ou se só me chama para não ficar feio.

Ele enviou a mensagem e sentiu o coração acelerar. Durante alguns segundos, imaginou que Samuel responderia com alguma explicação, talvez reconhecesse que havia exagerado ou dissesse que também estava sentindo falta dos dois. Em vez disso, o amigo demorou a responder. Quando a mensagem finalmente chegou, foi mais curta do que Miguel esperava.

Samuel: Você está falando sério?

Miguel: Estou.

Samuel: Eu não sabia que você estava guardando tudo isso. Mas você está agindo como se eu não pudesse fazer mais nada sem te avisar.

Miguel: Não é isso.

Samuel: Então é o quê? Eu tenho que pedir autorização para sair com meus amigos agora?

Miguel apertou o celular entre as mãos. A frase parecia injusta, porque não era isso que ele queria. Não queria controlar os horários de Samuel, escolher com quem ele deveria conversar ou impedir que fizesse novas amizades. Queria apenas sentir que ainda era importante, mas, quando tentou explicar, as palavras saíram cheias de ressentimento.

Miguel: Você sabe que não é isso. Só que antes a gente fazia as coisas juntos. Agora parece que você tem uma vida inteira em que eu não faço falta.

A resposta demorou um pouco mais.

Samuel: A gente ainda é amigo, Miguel. Mas eu não posso ficar fazendo tudo do mesmo jeito para você não se sentir mal. Eu também quero conhecer outras pessoas, fazer outras coisas. Isso não significa que eu deixei de gostar de você.

Miguel leu a mensagem e sentiu o rosto esquentar. Samuel estava dizendo que ainda eram amigos, mas a explicação não lhe trouxe o alívio esperado. Na verdade, foi como se o amigo tivesse confirmado que alguma coisa havia mudado e que Miguel era o único que não conseguia aceitar.

Miguel: Você fala como se eu estivesse inventando tudo.

Samuel: Não estou dizendo isso. Estou dizendo que você está me cobrando por coisas que eu nem sabia que estavam te machucando. E, quando eu tento explicar, você já decidiu que eu estou te deixando de lado.

Miguel: Porque é o que parece!

Samuel: Para você, talvez. Mas eu não tenho como adivinhar tudo o que você está pensando. Você podia ter falado comigo antes, em vez de ficar esperando que eu percebesse.

Miguel levantou-se e começou a andar pelo quarto. Havia algo de verdadeiro naquela última frase, e era justamente isso que mais o irritava. Ele poderia ter conversado com Samuel antes. Poderia ter dito que estava se sentindo deslocado, que sentia falta das tardes dos dois, que não sabia como se comportar diante de tantas mudanças. Mas tinha medo de parecer carente, de transformar uma amizade em uma obrigação ou de ouvir uma resposta que confirmasse suas suspeitas. Então guardou tudo, esperando que Samuel percebesse sozinho. Agora, quando finalmente falava, parecia incapaz de fazer isso sem acusá-lo.

Miguel: Esquece. Você não entende.

Samuel: É difícil entender quando você não quer ouvir o que eu estou falando.

Miguel parou de andar.

Miguel: Eu ouvi. Você quer fazer suas coisas, ficar com seus amigos e não quer que eu reclame. Entendi perfeitamente.

Samuel: Não foi isso que eu disse!

Miguel: Mas é isso que está acontecendo.

Samuel: Cara, eu não vou ficar discutindo por mensagem. Quando você quiser conversar sem colocar palavras na minha boca, a gente conversa.

A conversa terminou ali. Miguel ficou olhando para a tela, esperando que Samuel mandasse mais alguma coisa. Uma desculpa, talvez. Ou uma mensagem dizendo que não queria brigar. Quando percebeu que o amigo não escreveria mais, largou o celular sobre a cama e sentou-se na cadeira. Tinha conseguido dizer tudo o que guardava havia semanas, mas não se sentia mais leve. Pelo contrário, agora as coisas que antes existiam apenas dentro da sua cabeça estavam entre os dois, escritas em mensagens que nenhum deles poderia fingir que não havia lido.

Naquela tarde, Miguel acabou aceitando o convite de Gabriel para sair. Encontrou o amigo e Rebeca em uma lanchonete perto da praça. Gabriel percebeu que ele estava quieto, mas não perguntou nada até os três se sentarem. Rebeca pediu um refrigerante, Gabriel começou a contar uma história sobre um professor e Miguel tentou acompanhar, rindo nos momentos certos. Por algum tempo, os amigos falaram de assuntos comuns, como as provas da semana seguinte e uma festa que talvez acontecesse no mês seguinte. Miguel gostava daquilo. Com Gabriel e Rebeca, ainda conseguia reconhecer uma parte da vida que conhecia, embora até mesmo aquele grupo estivesse começando a mudar.

Foi Rebeca quem tocou no assunto primeiro.

— Você brigou com o Samuel?

Miguel olhou para ela.

— Por que você está perguntando isso?

— Porque ele me mandou mensagem ontem à noite perguntando se você estava bem. Hoje, quando eu perguntei se vocês iam sair juntos, ele respondeu que vocês estavam discutindo.

Gabriel apoiou os braços na mesa.

— E porque você está com uma cara de quem perdeu uma final de campeonato.

— Obrigado pelo apoio — respondeu Miguel, sem sorrir.

— Estou tentando ajudar — disse Gabriel. — Só não sei se você quer ajuda ou se quer que a gente concorde com tudo o que você está pensando.

Miguel franziu a testa.

— Eu não estou pedindo para ninguém concordar comigo.

— Então conta o que aconteceu — pediu Rebeca, num tom mais calmo.

Miguel contou sobre o encontro cancelado, a quadra e a conversa por mensagem. Não escondeu a própria irritação, mas também não repetiu todas as acusações que havia feito a Samuel. Enquanto falava, percebeu que algumas coisas pareciam diferentes quando eram ditas em voz alta. O cancelamento da tarde de sexta-feira ainda o incomodava, principalmente porque havia visto Samuel continuar na quadra depois de desistir do encontro. Mas, quando tentou explicar por que aquilo significava tanto, acabou falando novamente sobre o grupo, sobre as mensagens e sobre o jeito como Samuel parecia sempre ter alguma coisa mais interessante para fazer.

Rebeca ouviu sem interromper. Gabriel também ficou quieto, o que, considerando o hábito que tinha de comentar tudo, chamou a atenção de Miguel.

— Eu entendo você ficar chateado — disse Rebeca, depois que ele terminou. — Se vocês tinham combinado, ele podia ter avisado antes. E eu sei que vocês sempre fizeram quase tudo juntos. Deve ser estranho perceber que isso está mudando.

Miguel assentiu, sentindo que, finalmente, alguém estava entendendo o que ele tentava dizer.

— Só que — continuou ela — uma coisa é ficar chateado com o que aconteceu. Outra é decidir que ele não se importa mais com você.

O alívio desapareceu do rosto de Miguel.

— Eu não decidi isso do nada.

— Eu sei. Mas você está usando cada coisa que acontece como prova de que está perdendo o Samuel. Talvez ele esteja se afastando um pouco, talvez esteja apenas conhecendo outras pessoas. A gente não sabe. Você também não sabe.

— Então eu tenho que fingir que está tudo bem?

— Não! — Rebeca respondeu, um pouco mais alto do que pretendia. — Você pode falar que sente falta dele. Pode dizer que ficou magoado porque ele cancelou. Só não pode decidir por ele o que tudo isso significa.

Gabriel mexeu no canudo do próprio copo antes de entrar na conversa.

— Eu gosto de vocês dois, e não quero ficar no meio dessa briga. Mas acho que o problema é que vocês estão tentando provar quem está certo, em vez de descobrir o que aconteceu. O Samuel provavelmente acha que você está tentando controlar a vida dele. Você acha que ele está te trocando. Aí cada um responde ao que imagina que o outro está fazendo, e ninguém conversa sobre o que realmente sente.

Miguel desviou os olhos para a rua. Não gostava de ouvir aquilo, especialmente porque fazia sentido. Ainda assim, havia algo que Gabriel parecia não compreender.

— É fácil falar quando não é você que está ficando para trás.

Gabriel não respondeu imediatamente. Rebeca baixou os olhos para o copo, e por alguns segundos os três ficaram em silêncio.

— Você acha que só você está tentando entender como as coisas estão mudando? — perguntou Gabriel, por fim. — A gente também está crescendo, Miguel. Todo mundo está. Eu não sei como vai ser o próximo ano, nem se a gente vai continuar se vendo tanto quanto agora. Mas não quero que você transforme o medo de perder as pessoas em um motivo para brigar com elas enquanto ainda estão aqui.

Miguel sentiu a garganta apertar, mas disfarçou tomando um gole do refrigerante. Não queria que a conversa virasse uma espécie de reunião sobre seus sentimentos, com cada amigo apresentando uma explicação diferente para algo que ele próprio não sabia resolver. Tinha procurado Gabriel e Rebeca porque esperava encontrar um pouco de compreensão, não porque quisesse ouvir que também precisava mudar.

— Vocês estão fazendo parecer que o problema sou eu — disse.

— Não é isso — respondeu Rebeca.

— Parece.

— Miguel, a gente está tentando ajudar.

— Eu sei. Mas vocês ficam falando que eu preciso aceitar, que tenho que entender, que não posso cobrar. Ninguém está falando que talvez o Samuel também pudesse fazer um esforço.

Gabriel se recostou na cadeira.

— Ele poderia, sim. Eu não acho que ele fez tudo certo. Mas você também precisa deixar espaço para ele explicar o lado dele sem decidir antes o que ele está pensando.

Miguel não respondeu. O problema era que, naquele momento, ouvir o lado de Samuel parecia significar admitir a possibilidade de que suas próprias conclusões estivessem erradas. E, se estivessem erradas, o que faria com todas aquelas semanas de preocupação? Com as tardes em que ficara esperando uma mensagem, com as conversas que analisara em busca de algum sinal de que ainda era importante? Sentia vergonha de ter se importado tanto e, ao mesmo tempo, não conseguia simplesmente deixar de se importar.

Rebeca estendeu a mão e tocou de leve o braço dele.

— Você não precisa resolver tudo hoje. Só tenta não transformar isso numa disputa. O Samuel é seu amigo, Miguel. Mas ele não é a única pessoa com quem você pode contar.

A frase fez Miguel pensar em Davi. Desde que haviam começado a conversar, ele encontrara no colega uma companhia diferente, alguém com quem podia falar sobre o futuro, sobre as coisas que gostaria de fazer e até sobre os assuntos que normalmente guardava para si. Com Davi, não sentia a necessidade de provar que era importante. Podia simplesmente estar ali. Mas, se aquela amizade era tão boa, por que continuava tão preocupado com Samuel? E por que a ideia de que o amigo pudesse encontrar outras pessoas parecia diminuir o valor de tudo o que tinham vivido?

Ele não tinha uma resposta. Também não queria que Gabriel ou Rebeca lhe oferecessem outra.

A conversa mudou de assunto pouco depois, embora Miguel tenha continuado distante. Quando os três se despediram, Rebeca o abraçou antes de ir embora, e Gabriel disse que ele deveria parar de tentar resolver a vida inteira em um fim de semana. Miguel fez uma brincadeira sobre o amigo estar se tornando um conselheiro profissional, mas a risada saiu fraca. Caminhou para casa sozinho, sentindo que havia recebido conselhos de duas pessoas que gostavam dele e, ainda assim, continuava sem saber o que fazer.

Naquela noite, Davi mandou uma mensagem perguntando se Miguel havia terminado um texto que comentara na escola. Miguel respondeu que não, porque tinha passado o dia pensando em outras coisas. Davi perguntou se estava tudo bem, e Miguel ficou alguns segundos olhando para a tela. Poderia contar o que havia acontecido. Davi provavelmente ouviria, faria alguma pergunta e talvez conseguisse ajudá-lo a enxergar a situação por outro ângulo. Mas Miguel não queria começar a amizade transformando cada conversa em um relato dos problemas com Samuel. Além disso, ainda estava tentando entender os próprios sentimentos.

Miguel: Está tudo meio confuso, mas vai passar.

Davi: Espero que sim. E você não precisa resolver tudo de uma vez.

Miguel sorriu discretamente ao ler a resposta. Era curioso como uma frase simples, escrita por alguém que conhecia havia tão pouco tempo, podia parecer mais fácil de aceitar do que as palavras dos amigos de infância. Agradeceu e deixou o celular de lado. Depois abriu o caderno e tentou escrever novamente. Dessa vez, conseguiu avançar algumas linhas, embora os personagens da história parecessem tão perdidos quanto ele.

Samuel, por sua vez, também não estava tão tranquilo quanto Miguel imaginava. No domingo à tarde, enquanto os outros garotos discutiam a organização do campeonato, ele se afastou um pouco da quadra e sentou-se no degrau perto do portão. Caio percebeu que ele estava olhando o celular pela terceira vez em poucos minutos.

— Está esperando alguém? — perguntou.

— Não.

— Então por que fica olhando para a tela?

Samuel bloqueou o aparelho.

— Nada, cara.

Caio não insistiu. Voltou para perto dos outros, e Samuel ficou sozinho por mais alguns minutos. Abriu a conversa com Miguel, releu algumas mensagens e sentiu a irritação voltar. Não gostava de ser tratado como se estivesse abandonando o melhor amigo, principalmente porque nunca havia decidido fazer isso. Gostava de passar tempo com Caio, André e os outros. Gostava de jogar bola, conversar sobre coisas novas e descobrir que existiam pessoas com quem também podia se divertir. Não via motivo para se sentir culpado por isso.

Mas também não conseguia ignorar o que Miguel havia escrito.

Parece que você tem uma vida inteira em que eu não faço falta.

Samuel conhecia Miguel desde pequeno. Sabia quando ele estava irritado, quando fazia uma piada só para esconder o constrangimento e quando precisava de alguns minutos antes de conseguir falar sobre alguma coisa. O que não sabia era quando a amizade dos dois havia se transformado em uma espécie de responsabilidade que precisava cumprir para evitar uma discussão. Talvez tivesse deixado de perceber alguns sinais. Talvez realmente estivesse cancelando planos com mais frequência do que imaginava. Ainda assim, não entendia por que tudo precisava se transformar em uma prova de que gostava ou não do amigo.

Abriu a conversa novamente e começou a escrever.

Samuel: Não quero que a gente fique brigado por causa disso.

Ficou olhando para a frase, mas não enviou. Apagou tudo e guardou o celular no bolso. Não queria mandar uma mensagem só para acabar com o desconforto, porque sabia que, se Miguel respondesse com outra cobrança, acabariam discutindo de novo. Preferiu esperar até conseguir conversar pessoalmente.

Na segunda-feira, os dois chegaram à escola em horários diferentes. Miguel entrou acompanhado de Davi, que estava contando uma história sobre uma peça que havia tentado consertar na oficina do avô. Samuel os viu do outro lado do pátio, perto da escada, e ficou observando por alguns segundos. Miguel riu de alguma coisa que Davi disse, depois mostrou algo no celular. Era uma cena comum, sem nada que justificasse a sensação desagradável que Samuel sentiu ao olhar para os dois. Afinal, Miguel também podia fazer novas amizades. Samuel nunca havia dito o contrário.

Mesmo assim, foi difícil não se perguntar se Miguel estava encontrando em Davi uma maneira de substituí-lo.

A ideia o irritou imediatamente. Não tinha o direito de reclamar de algo que ele próprio estava fazendo. Se Miguel quisesse passar o intervalo com Davi, não havia motivo para se incomodar. Se quisesse sair com outros colegas, também não. Samuel sabia disso, mas saber não impedia que a situação o atingisse.

Durante o intervalo, Gabriel encontrou Samuel perto da cantina e ficou ao lado dele enquanto esperavam na fila.

— Você e o Miguel ainda não se resolveram? — perguntou.

Samuel suspirou.

— Não tem muito o que resolver. Ele acha que eu estou deixando ele de lado, e eu já expliquei que não é isso.

— Explicar não significa que ele conseguiu entender.

— E eu tenho que ficar repetindo até ele acreditar?

Gabriel olhou para ele, sem demonstrar irritação.

— Não. Mas talvez você precise entender por que ele está se sentindo assim. Vocês sempre foram muito próximos. Para ele, deve ser estranho perceber que as coisas estão mudando.

Samuel ficou quieto por um instante.

— Eu também acho estranho. Só não fico fazendo disso uma briga.

— Talvez porque você esteja lidando com a mudança de um jeito diferente.

Samuel soltou uma risada curta, sem humor.

— Todo mundo resolveu me dar conselho agora?

— Não estou te dando conselho. Estou tentando evitar que vocês dois estraguem uma amizade por causa de uma coisa que talvez pudesse ser resolvida com uma conversa.

— Eu tentei conversar. Ele disse que eu tenho uma vida inteira em que ele não faz falta. O que você quer que eu responda a isso?

Gabriel demorou um pouco antes de falar.

— Talvez você pudesse dizer que ele faz falta, sem precisar desistir dos outros amigos para provar isso.

Samuel olhou para a fila, que havia avançado alguns passos. Não gostava da sensação de estar sendo colocado diante de uma escolha que ninguém, de fato, havia feito. Não queria perder Miguel, mas também não queria voltar a viver como se cada tarde precisasse ser combinada entre os dois. Talvez o que mais o incomodasse fosse não saber como encontrar um meio-termo sem que Miguel interpretasse qualquer mudança como um afastamento definitivo.

— Eu não quero que ele pense que não é importante para mim — disse, finalmente. — Só quero poder fazer as minhas coisas sem ter que me explicar o tempo todo.

Gabriel assentiu.

— Então vocês precisam falar disso. Mas falar mesmo, sem tentar ganhar a discussão.

Samuel pegou o lanche quando chegou sua vez na fila. Antes de voltar para a mesa, olhou mais uma vez na direção do pátio. Miguel estava sentado com Davi, Gabriel e Rebeca. Parecia participar da conversa, embora Samuel não conseguisse ouvir o que diziam. Por um instante, pensou em se aproximar. Poderia sentar com eles, perguntar como tinha sido o fim de semana e tentar agir normalmente. Mas ficou parado, imaginando se Miguel interpretaria sua presença como uma tentativa de fingir que nada havia acontecido.

Acabou voltando para o grupo de Caio.

Do outro lado do pátio, Miguel viu Samuel se afastar. Não sabia que o amigo havia pensado em se aproximar, nem que estava tentando encontrar uma maneira de conversar sem provocar outra discussão. Viu apenas que Samuel tinha escolhido ficar com os outros.

E, mais uma vez, sentiu que aquela escolha dizia alguma coisa sobre ele.

Naquela tarde, Miguel chegou em casa e encontrou a mãe organizando algumas contas sobre a mesa. Ajudou a guardar as compras que ela havia trazido do mercado, perguntou o que fariam para o jantar e ficou conversando sobre assuntos pequenos enquanto ela terminava o que estava fazendo. Era bom ter alguma coisa concreta para fazer, algo que não dependesse de interpretar mensagens ou descobrir o que outra pessoa estava pensando. Quando voltou para o quarto, sentou-se diante do caderno e releu as páginas escritas na noite anterior.

A história que estava tentando criar falava sobre dois amigos que prometiam nunca se separar. Miguel achou a ideia boba de repente. Não porque a promessa fosse falsa, mas porque os personagens haviam feito aquela promessa quando ainda eram crianças, numa época em que não sabiam quantas coisas poderiam mudar sem que ninguém tivesse escolhido mudá-las. Pegou a caneta e riscou a última frase.

Ficou pensando em como reescrever o trecho. Talvez os dois personagens pudessem continuar amigos, mas de um jeito diferente. Talvez pudessem passar um tempo afastados e depois se reencontrar. Talvez um deles precisasse aprender a ficar sozinho, enquanto o outro descobria que não era necessário pedir desculpas por crescer. Havia muitas possibilidades, e nenhuma parecia simples o bastante para caber em uma frase bonita.

O celular vibrou sobre a mesa.

Era Samuel.

Samuel: A gente precisa conversar pessoalmente. Não quero continuar assim.

Miguel leu a mensagem sem responder de imediato. Sentiu o alívio de saber que Samuel também queria resolver a situação, mas, junto dele, veio o medo de que a conversa terminasse confirmando tudo o que vinha tentando evitar. Não sabia se conseguiria ouvir o amigo sem se defender, nem se Samuel teria paciência para escutar o que ainda não havia conseguido explicar.

Depois de alguns minutos, escreveu:

Miguel: Tá. Podemos conversar amanhã depois da aula.

Samuel: Pode ser. Na praça?

Miguel: Pode.

A conversa terminou com duas mensagens curtas, sem desculpas, sem promessas e sem qualquer garantia de que as coisas voltariam ao normal. Miguel deixou o celular sobre o caderno e ficou olhando para a página riscada. Pela primeira vez em dias, não tentou adivinhar o que Samuel estava pensando. Ainda tinha medo de perder o amigo, mas começava a perceber que o silêncio entre os dois não era feito apenas daquilo que Samuel deixava de dizer. Também era feito das palavras que Miguel guardava, das perguntas que transformava em acusações e das respostas que recusava antes mesmo de ouvi-las.

Naquela noite, nenhum dos dois dormiu com a sensação de que a briga estava resolvida. Samuel continuou sem entender por que precisava justificar as próprias escolhas, enquanto Miguel ainda não sabia como aceitar que a amizade podia mudar sem deixar de existir. Os dois tinham motivos para estar magoados, e os dois tinham coisas pelas quais precisavam se responsabilizar. O problema era que, até então, cada um estava ocupado demais tentando fazer o outro compreender sua dor para perceber a dor que também estava causando.

Na manhã seguinte, eles se encontrariam na praça onde tantas vezes haviam passado tardes inteiras sem precisar planejar o que dizer. Dessa vez, porém, teriam uma conversa que nenhum dos dois poderia resolver apenas com uma brincadeira ou uma mudança de assunto. E talvez fosse justamente isso que mais assustasse Miguel: descobrir que conhecer alguém desde a infância não significava saber, para sempre, como chegar até essa pessoa.