A manhã de quinta-feira trouxe uma chuva fina que mantinha as ruas cinzentas e o café da padaria central sempre cheio. Mike estava sentado em uma mesa de canto, observando o movimento, quando avistou Aline, a governanta de Helena, retirando um pedido de pães artesanais no balcão. Ele a reconheceu das visitas breves à casa da delegada e, movido por uma intuição persistente, decidiu se aproximar para oferecer uma ajuda com as sacolas pesadas que ela carregava.

Aline aceitou a gentileza com um sorriso cansado, e os dois acabaram compartilhando uma mesa por alguns minutos enquanto esperavam a chuva diminuir. A conversa começou sobre o clima, mas logo derivou para a rotina exaustiva de cuidar de uma casa envolta em luto, onde o silêncio era a única regra. Aline, em um momento de desabafo causado pelo cansaço, comentou sobre como Helena sempre fora uma mulher implacável, desde os tempos em que o marido de Aline ainda trabalhava na prefeitura e via a delegada "limpar" as ruas da cidade com punho de ferro.

— Ela nunca foi de dar segundas chances, sabe? — comentou Aline, mexendo o açúcar no café com uma colherinha. — Lembro-me bem de uma leva de prisões há uns dez anos, famílias inteiras destruídas por erros que poderiam ter sido resolvidos com uma conversa, mas ela preferia o rigor da lei acima de qualquer humanidade.

— Você se lembra de algum caso específico dessa época que tenha marcado a cidade? — perguntou Mike, tentando manter o tom de voz casual para não espantá-la.

— Ah, teve o caso daquela oficina mecânica no setor sul, o dono foi preso por receptação de peças, mas todos sabiam que ele era apenas um laranja de gente maior — respondeu ela, franzindo o cenho para lembrar. — O sobrenome era o mesmo daquele amigo do Luiz... como é mesmo? Ah, sim, o rapaz que está sempre com vocês, o Gabriel.

O impacto daquela informação atingiu Mike como um soco no estômago, fazendo com que as peças do comportamento errático de Gabriel finalmente começassem a se encaixar. Ele agradeceu a Aline, ajudou-a até o carro e caminhou direto para o apartamento de Luiz, onde sabia que encontraria Gabriel "ajudando" na organização dos documentos do processo. O clima no apartamento estava tenso, com Luiz cochilando no sofá por exaustão, deixando Mike e Gabriel sozinhos na pequena cozinha.

Mike não perdeu tempo com sutilezas e jogou a informação na mesa assim que Gabriel fechou a porta da geladeira. Ele mencionou a história da oficina e o rigor de Helena, observando a mandíbula de Gabriel travar instantaneamente e seus olhos se tornarem duas fendas escuras de ressentimento contido. O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo som da respiração descompassada de Gabriel, que parecia lutar para manter a fachada de bom amigo.

— Eu soube que a Helena prendeu o seu pai, Gabriel — disparou Mike, cruzando os braços e encarando o amigo. — É por isso que você fica tão tenso quando falamos dela?

— Isso é passado, Mike, não tem nada a ver com o que o Luiz está passando agora — respondeu Gabriel, forçando uma risada seca que não chegou aos olhos. — Meu pai cometeu erros e ela fez o trabalho dela, simples assim.

— Não parece simples para mim, parece um motivo bem forte para alguém querer que ela sofra — insistiu Mike, dando um passo à frente.

— Eu não guardo rancor, cara, só quero proteger o Luiz de ser esmagado por aquela mulher como a minha família foi — declarou Gabriel, virando as costas para encerrar o assunto. — Foque no acidente e esqueça a minha árvore genealógica, se você realmente quer ser útil.