CAPÍTULO 4
O talento te coloca na porta, mas a persistência é a chave que abre. Não existe atalho para o sucesso, existe o caminho mais longo: o do trabalho invisível. Aquele que ninguém vê, mas que é o único capaz de te preparar para o holofote.
O papel amassado da recusa do Clube Atlético União (CAU) foi parar no fundo da gaveta de Kauan, não como um troféu de fracasso, mas como um lembrete do que ele precisava corrigir. A crítica de Rodrigo – "falta corpo" – ecoava em sua cabeça, e as palavras de Ana Letícia – "seu corpo é você quem treina" – eram a força motriz.
Kauan decidiu transformar a rejeição em um projeto. Ele não desistiria de ser o Falcão.
Ele procurou o professor Junior, que o acolheu de imediato.
— Eles disseram que eu sou fraco, professor. Eu preciso de um treino para ganhar força, para aguentar a porrada.
— É isso, Falcão! Essa é a atitude! — Junior sorriu, orgulhoso. — A gente vai começar um trabalho de resistência e explosão. De manhã, você faz corrida de rua. À tarde, a gente usa a quadra da escola para treinos funcionais e alguns exercícios de força com peso do corpo.
A rotina de Kauan se tornou brutal. Ele acordava às cinco da manhã para correr, enfrentava a escola, e passava as tardes sob o comando de Junior, levantando pneus velhos e fazendo agachamentos intermináveis. A alimentação era difícil; a família não tinha dinheiro para "suplementos", então Marta caprichava no feijão e arroz, na base do esforço.
Para aliviar a pressão financeira sobre José Alfredo, Kauan tomou uma decisão: trabalhar.
— Pai, eu vou arrumar um bico. Não aguento mais ver o senhor se matando.
Ele conseguiu um emprego de meio período, à noite, ajudando a limpar e organizar mercadorias em um pequeno armazém do bairro. Era cansativo, mas o salário, por menor que fosse, era a sua contribuição. O sacrifício era total: escola, treino e trabalho.
Certa tarde, Kauan estava fazendo alongamento sozinho após um treino exaustivo na quadra, quando uma moça se aproximou. Ela vestia uma camiseta de uma ONG local e tinha um olhar atencioso.
— Ei, cuidado com esse alongamento forçado. Você pode inflamar o tendão.
Kauan a olhou, desconfiado.
— Quem é você?
— Meu nome é Carol. Sou fisioterapeuta recém-formada. Estou fazendo um trabalho voluntário aqui na comunidade, ensinando o pessoal a prevenir lesões. Vi você treinando. Seu preparo físico é bom, mas você está sobrecarregando o corpo.
Carol pediu que ele se sentasse e começou a explicar a importância do aquecimento e do alongamento correto. Ela tinha uma linguagem simples e eficaz.
— Seu corpo é sua ferramenta de trabalho, Falcão. Se você não cuidar dele, ele vai quebrar. E aí, acabou o sonho.
Kauan ficou fascinado pela dedicação dela. Carol, em poucas semanas, se tornou uma mentora valiosa. Ela o ensinou a reconhecer os sinais de cansaço muscular, a importância do descanso e até o ajudou a montar uma dieta com os poucos recursos que a família tinha (mais ovos, mais verduras).
— Você tem a velocidade de um Falcão, mas a estrutura ainda é de um pardal. A gente precisa reforçar essa base, Kauan. E precisa aprender a escutar o corpo — dizia Carol, durante as sessões de liberação miofascial improvisadas na beira da quadra.
Na escola, Caio e Bianca diminuíram as provocações. Não por respeito, mas porque Kauan mal parava na escola. Quando o viam, ele estava sempre com a cara de sono, os músculos tensos e a mochila pesada.
Numa manhã, enquanto tentava manter os olhos abertos na aula, Ana Letícia, sentada na carteira à frente, virou-se discretamente.
— Você está acabando com você. Não dá para fazer tudo de uma vez.
Kauan piscou, lutando contra o sono.
— Eu tenho que dar um jeito. Meu pai não pode pagar mais por mim.
— Eu sei. Mas a persistência não pode virar autodestruição, Kauan. Você está aprendendo a ter foco. Use esse foco para otimizar o tempo.
Apesar da rigidez nas palavras, o olhar dela era de preocupação genuína.
Kauan absorvia os conselhos. Ele estava no caminho mais longo, o do trabalho invisível. Enquanto os outros garotos da idade dele iam a festas e passavam noites jogando videogame, ele estava correndo no escuro, levantando peso ou trabalhando no armazém.
Ele estava mais forte, mais rápido e, principalmente, mais maduro. O choro da rejeição havia secado, dando lugar a uma determinação de aço. Ele sabia que o próximo "não" não o derrubaria. Ele estava se preparando para a próxima porta que se abrisse. Ele só precisava que alguém, em algum lugar, o notasse.
