Todo mundo tem uma história para contar. Cada um tem a sua cicatriz, sua dor e os seus segredos. Juramos mentiras, e escondemos a realidade, vivemos em um multiverso onde cada pessoa tem a sua história e vive nela segundo a sua verdade. O que realmente é verdade e o que é mentira a gente acaba descobrindo com o tempo, e se a justiça não vier da Terra, ela vêm na história.
Guardar um segredo por 40 anos é possível. Você pode ter um dia brilhante, maquiado naquela pessoa que você inventou hoje quando acordou, mas quando colocar sua cabeça no travesseiro, tudo volta ao que era antes, é difícil dormir, mas você precisa ser forte. E então você dorme, mas amanhã precisa viver a mentira mais uma vez... Até quando você consegue?
Caminhando...
Estela olhou para às horas em seu celular pela última vez antes de deixar a sua casa e estava marcando 06:01. Sorriu, se virou para Leonard Matlovich, ou simplesmente Leonard, que estava no banco traseiro e disse — Seja o que tiver que ser!
Pontas soltas
Rayane e Mariana estavam conversando e caminhando ali próximo da prefeitura.
— Se você realmente entrar como candidata a vereadora, você vai ter o meu voto amiga. E não é só por ser minha amiga, eu gosto das suas ideias e nossas opiniões políticas são parecidas...
— Eu fiquei bem animada com a ideia de entrar para a política. A gente precisa ocupar mais lugares pra que assim possa existir uma busca maior por igualdade. No meu pensamento, a melhor pessoa para pautar a saúde das mulheres em nossa cidade tem que ser uma mulher, da mesma forma que alguém para proteger a comunidade LGBTQIA+ precisa ser alguém que faça parte da causa. Não dá pra gente pegar uma pessoa totalmente despreparada pra que possa lutar por uma ideia até então desconhecida por ela.
— Aos poucos a gente vai evoluindo. Eu vejo que os jovens estão começando a ter uma consciência política e estão lutando pela verdade. Eu só fico preocupada com quem está preso no passado, porque ainda existe muita gente machista, homofóbica e transfóbica. Isso é assustador! Mas a verdade sempre aparece...
— Ah, e eu quero saber sobre o turista, você jurou que iria me contar tudo pessoalmente.
— Eu acho que eu fiquei louca. É isso!
— Mas você não é louca. Amiga, você sempre foi centrada quando o assunto era algum boy magia...
— Não teve jeito! O Pedro tem alguma coisa especial, em segundos eu passei de mulher para uma menina de 12 anos apaixonada, só faltava eu fazer uma cartinha... E pensar que eu quase recusei de jantar com ele.
— Não é sempre que acontece isso com alguém, mas dá pra se apaixonar no primeiro encontro. Você acha que vão ter algo mais sério?
— Não tenho a mínima ideia. Nós somos de polos opostos, não sei se daria certo... Ele é neto do Paulo...
— O famoso? — Mariana parecia espantada.
— O próprio!
— Se eu fosse você, eu contava já que era da família da Carolina.
— Não sei. Eu acho que existe um pouco de desconfiança. Minha avó não me perdoaria... Eu queria ser uma cachorrinha, cachorros não precisam mentir, eles te amam independente de qualquer coisa, você não precisa justificar...
— Acho que as coisas deveriam acontecer dessa maneira, e você é uma amiga maravilhosa. Acredito eu, que ele te entenderia.
— Quer tomar um café? — ofereceu Rayane — Lá podemos continuar essa conversa...
Todas as manhãs, Rayane e Mariana saem para caminhar. Mariana foi obesa na adolescência e os problemas de autoestima deixaram ela com depressão e em um de seus surtos, foi Rayane quem a socorreu. Terem se aproximado, além de ter apoio e estar conseguindo se reerguer, mostrou pra ela que ela pode ser amada exatamente como é.
O dia em Entre Rios do Oeste parecia se repetir como se estivéssemos parados no tempo, e vivendo sempre o mesmo dia. Rayane acordava cedo, ia caminhando até a padaria, e quase sempre, era ela quem arrumava o café da manhã; salvo quando Eugênia resolvia acordar mais cedo que a neta. Após o café da manhã, ela se encontrava com Mariana e ambas caminhavam nas redondezas da prefeitura.
De volta para casa, ela se arrumava e por volta das 11 horas ela começava a receber turistas e informar sobre o que eles desejassem saber. Seu almoço era às 13 horas, sempre focado em saladas e legumes, já que havia parado de comer carne a pelo menos 5 meses. Agora no período da tarde, quando não havia algo burocrático para resolver, Rayane trabalhava de forma externa na area do turismo. De noite, após o jantar em família, todos assistem a novela Avenida brasil. Porém, tudo estava mudando.
Leonard
Já passavam das 3 da tarde quando Estela parou no posto de gasolina.
— Pode encher o tanque por favor!
O frentista, com toda sua simpatia atendeu aquela senhora toda chique passando que estava passando por ali. Leonard estava eufórico, coitado, em toda a sua vida, jamais havia passado 8 horas dentro de um carro com duas mulheres à flor da pele, indo para o interior do estado em busca de algo que ele não tinha a mínima noção. Estela não estava preocupada com Leonard, ele era apaixonado por explorar então certamente viveria altas aventuras em Entre Rios do Oeste.
— Moço, por favor!
— Pois não.
— Eu estou procurando uma moça, ela tem uns vinte e poucos anos e trabalha como guia turística, você sabe onde eu posso encontrar ela?
— Acho que pela hora... ela deve estar pela praia. Mas, espera ai, dá pra senhora ligar no 3257... Eu já pego um papelzinho ali.
Assim que ele entregou para ela o número do telefone, Estela lhe deu uma nota de 100 reais e disse para ele ficar com o troco.
— Anastácia, liga pra mim no telefone que o menino entregou...
Anastácia é a melhor amiga de Carolina, que agora é conhecida como Estela. Anastácia conhece Estela desde 1992 quando ela se casou com o médico Luis Marcelo, até aquele momento o seu patrão. A proximidade entre as duas foi tamanha que de funcionária acabou se tornando amiga e assistente pessoal.
Ligando para o telefone, avisaram que Rayane teria ido para casa mais cedo.
— Já sei, foi a minha mãe que chamou ela... Amiga, eu estou apaixonada por Entre Rios, a cidade está mais bonita pessoalmente, ao mesmo tempo eu estou cheia de recordações. Queria saber descrever tudo o que eu estou sentindo, é um turbilhão de emoções.
Assim que o carro parou em frente a casa de Eugênia, Leonard não parava de latir para as pessoas na rua. Não posso chorar, pensava Estela enquanto respirava pelo nariz e soltava pela boca. Anastácia não disse nada, sabia que aquele reencontro era importante e único.
Estela abriu uma porta do carro e buzinou em frente a casa antes de sair. Rayane atendeu, com a maior naturalidade possível. — Pode chamar a Dona Eugênia pra mim? — pediu.
— Quem gostaria? É que... — Sou eu, a Carolina, você deve ser a Rayane, não é?
— Carolina? — Perguntou Pedro saindo da casa de Eugênia.
—... — Rayane ficou muda, apenas olhando para Carolina sorrindo e Pedro boquiaberto com o que estava presenciando.
Continua...
