Capítulo 4: A Roda Quebrada


A RODA QUEBRADA

 O esforço sobre-humano de Leandro para sustentar todos os pilares de sua vida chegou a um ponto de ruptura violenta. O carinho de Yago, embora fosse sua principal fonte de força, não era suficiente para vencer o cansaço crônico e as exigências do mundo.

O primeiro desastre ocorreu na marcenaria. O Sr. Osvaldo havia confiado a Leandro a construção de uma mesa complexa de madeira nobre, um trabalho que exigia precisão e paciência. Naquele dia, a falta de sono o atacou com uma tontura repentina. Ao operar a serra circular, Leandro perdeu o foco por um instante. O resultado foi um corte desastroso, que inutilizou metade da prancha de lei, cujo custo era significativo.

— Capivara! Você perdeu a cabeça? Isso é prejuízo! — Osvaldo berrou, a voz rouca de frustração. — Eu entendo o problema com o seu menino, mas você não pode trazer seus problemas para cá! Você tem que decidir o que é prioridade!

Leandro teve que pagar parte do custo da madeira, um rombo nas suas finanças já apertadas. De repente, a nobreza do seu esforço em ser pai foi confrontada pela crua realidade da sobrevivência financeira. Ele estava falhando como profissional.

A falha se alastrou para o único lugar onde ele jamais esperava tropeçar: a capoeira.

A época de graduação se aproximava. A Academia do Gavião preparava os alunos para a troca de cordas, um momento de reafirmação de disciplina e evolução. Leandro, que almejava a próxima graduação há meses, sabia que precisava se destacar. Mas, no dia da apresentação, seu corpo não respondeu. A exaustão era um peso real que impedia seus saltos e roubava sua velocidade.

Na roda principal, sob os olhares atentos do Mestre e dos colegas, Leandro foi lento. Recebeu um golpe duro, que o fez cair e perder a concentração. Ele se levantou, cambaleante, e Gavião tocou o berimbau com uma nota longa e grave, encerrando o jogo abruptamente.

— Chega, Capivara — disse Gavião, com a voz grave e sem raiva, mas repleta de decepção. — Você não está aqui. Seu corpo está aqui, mas sua cabeça está em outro lugar. A corda nova não vem por mérito antigo, vem por foco e entrega agora. Você precisa parar de lutar em duas rodas ao mesmo tempo e decidir em qual delas você quer vencer.

Leandro sentiu o rosto queimar. A derrota não foi física, mas moral. Ele não seria graduado. Ele falhou como capoeirista.

Ao mesmo tempo, seu pai intensificava a pressão.

— Você está perdendo o controle de tudo, Leandro! — Sebastião disse ao telefone, sem rodeios. — O prejuízo na marcenaria, a vergonha na capoeira... Isso tudo é reflexo de ter aceitado essa criança sem questionar! Você precisa parar de bancar o herói. Faça o teste de DNA, resolva a situação e volte para a sua vida. A vida que você tinha.

As palavras do pai, cheias de lógica cruel, acertaram em cheio a insegurança de Leandro. Ele estava falhando em tudo. Talvez Sebastião estivesse certo. Talvez ele devesse ter sido cético, pragmático, e não impulsivo.

Naquela noite, após Yago finalmente dormir, Leandro sentou-se na poltrona e sucumbiu. A crise foi silenciosa, mas profunda. Ele olhou para o berimbau no canto, para as contas empilhadas, para o quarto do filho invadido por brinquedos, e sentiu um desespero avassalador.

Ele se perguntou: Eu estraguei minha vida? Por que eu insisto nisso? Rosana tinha o direito de ir embora, mas eu tenho o direito de ter a minha vida de volta.

O pensamento era egoísta, mas honesto. Ele pensou em Rosana, na carta, na fuga dela. E pensou no DNA. Se o teste desse negativo, ele teria um motivo para se afastar, para retomar a "normalidade" exigida pelo pai.

Leandro pegou o envelope amassado, pronto para procurar o número do laboratório. Mas, ao passar pelo berço, ele parou.

Yago dormia com o braço esticado, a mão minúscula agarrada a uma ponta da toalha que Leandro usava no banho. Um objeto simples, com o cheiro familiar do pai. Naquele gesto inconsciente de apego, não havia cálculo, não havia armadilha. Havia apenas confiança.

Leandro sentiu o coração quebrar, não de tristeza, mas de uma nova compreensão. Ele percebeu que a sua vida antiga (a de excelência na capoeira, de aprovação paternal, de foco total no trabalho) era incompatível com a vida que ele havia escolhido. Não havia como vencer nas duas frentes sem destruir a si mesmo e, pior, destruir a confiança daquele pequeno ser.

Ele não precisava ser o melhor capoeirista do mundo. Ele não precisava da validação de Sebastião. Ele não precisava daquela mesa perfeita. Ele precisava ser um pai presente, mesmo que imperfeito.

O DNA? O resultado não mudaria o fato de que Yago o via como pai, e de que ele sentia amor por Yago. A paternidade não era um certificado genético; era um ato de vontade diário.

Naquele instante de aceitação, Leandro fez uma escolha fundamental. Ele guardou o envelope. Não faria o teste. A dúvida não seria resolvida pela ciência, mas pela entrega.

Ele renegociou suas prioridades. A partir daquele dia, ele trocaria a busca pela excelência pela busca pela sustentabilidade. Ele reduziria os treinos na capoeira (para a frustração de Gavião) para garantir que teria energia para Yago e para o trabalho. Ele aceitaria a imperfeição na marcenaria e o distanciamento do pai.

A luta não era mais para ter uma vida normal, mas para construir uma vida possível. O Contramestre Gavião dissera: "A vida te deu um peso, use-o como impulso." Leandro finalmente entendeu: o peso não era Yago, o peso era a tentativa de ser o que ele não podia mais ser. Ao soltar o fardo das expectativas antigas, ele sentiu um novo, embora modesto, equilíbrio. Ele não teria a roda perfeita, mas teria a família que ele mesmo estava construindo.