A fazenda se enchia de vida naquele fim de semana. Era dia de festa: bandeirinhas coloridas penduradas entre os galhos, fogueira alta preparada no terreiro, cheiro de milho assado e quentão tomando conta do ar. O povo vinha de longe: vizinhos, parentes, gente de outras propriedades. Crianças corriam em volta da fogueira, mulheres ajeitavam os vestidos rodados, e os homens se agrupavam em rodas de conversa, cerveja na mão e risada solta.
No meio daquele movimento, Cauby ajeitava a sanfona. Passara os últimos dias ensaiando, mas naquela noite os dedos pareciam pesados. Tocaria para todos, como sempre, mas o coração estava distante. Desde que os boatos cresceram, Kaike mal trocava palavra com ele na frente dos outros.
— Bora, Cauby! — gritou João Bonito, já animado. — Puxa um xote aí que o povo tá é doido pra dançá!
Cauby sorriu sem vontade, mas começou a tocar. A música encheu o terreiro, alegre, convidativa. Os pares se formaram rápido: Yuri dançava com Rita Linda, Pedro puxava Juliana pela mão, até Goiás arriscava uns passos atrapalhados. Mas Cauby, mesmo mantendo o ritmo, sentia cada nota cortando por dentro. O olhar buscava Kaike na multidão, e quando o encontrou, viu-o parado num canto, braços cruzados, olhando a festa sem se misturar.
O tempo passou devagar. Cauby mudava a melodia, os pés batiam no chão, o povo vibrava, mas sua mente estava em Kaike. Entre uma música e outra, parou para ajeitar o fole e respirou fundo. Foi então que viu Kaike caminhar em sua direção.
O coração de Cauby bateu forte. Kaike parecia mais decidido que nos outros dias. Parou bem diante dele, ignorando os olhares que já começavam a se levantar curiosos.
— Cê vai ficá parado só olhando, moço? — Cauby brincou, com voz baixa, tentando esconder a esperança.
Kaike hesitou, respirou fundo, e respondeu:
— Eu cansei de me esconder.
Antes que Cauby entendesse por completo, Kaike estendeu a mão. O gesto simples calou o terreiro. Alguns cochicharam, outros prenderam o riso, mas Kaike não recuou. Cauby, com o peito cheio, largou a sanfona no banco e aceitou a mão.
Os dois começaram a dançar. Não era um passo ensaiado, não era perfeito, mas era verdadeiro. A fogueira iluminava seus rostos, a poeira subia do chão, e o silêncio dos curiosos logo se misturou às palmas de alguns que decidiram apoiar. Yuri gritou animado:
— Isso aí, Cauby! Mostra pro povo que amor num tem vergonha, não!
Mas nem todos reagiram assim. Goiás balançou a cabeça, resmungando qualquer coisa sobre “tempo estranho”. João Bonito apenas cruzou os braços, meio contrariado. Ainda assim, a dança continuava.
Em certo momento, Kaike parou de dançar. Olhou para Cauby, os olhos marejados, e antes de pensar, puxou-o para um beijo rápido, mas firme, no meio da festa. A reação foi imediata: uns aplaudiram, outros ficaram boquiabertos. Tia Zuca, sentada perto da fogueira, apenas sorriu, murmurando para si:
— Coração brabo num se prende em cerca.
Quando se afastaram, Kaike tremia, mas sorria pela primeira vez sem medo.
— Eu não quero mais viver escondido, Cauby. Se for pra ser difícil, que seja. Mas que seja ao seu lado.
Cauby apertou a mão dele.
— Agora sim, moço. Agora cê falou bonito.
A festa seguiu, dividida entre cochichos e aplausos. Uns se afastaram, outros se aproximaram, mas o que importava era que, pela primeira vez, Cauby e Kaike não estavam mais escondidos. No meio do sertão, onde tantos acreditavam que só havia espaço para tradição, nascia uma nova história. Uma prova de que, mesmo em terra dura, amor também cria raiz.
Fim.
