Beijinho ou brigadeiro?
A decisão de Gabriel se espalhava por Paraíso de forma clara e verdadeira. Naquela mesma tarde, ele e Letícia andavam de mãos dadas pela Praça Central, o lugar principal da cidade, onde Marialda gostava de fazer seus eventos e onde Valéria criava boatos. Eles caminhavam devagar, calmos, sem se esconder.
Cada pessoa que olhava, cada fala baixa que ouviam, mostrava que o medo tinha acabado. O casal, antes um segredo, agora era algo real e forte que desafiava o que todos esperavam.
Eles pararam bem na frente do lugar vazio onde, há pouco tempo, ficava o trailer do Seu Manoel. A falta do trailer era um lembrete agridoce do controle de Marialda, mas também da revolta de Gabriel.
Ele percebeu Valéria olhando com raiva de um café. O poder de Valéria tinha acabado; ela era apenas uma garota amargurada, cujas ações não conseguiam mais afetar ninguém.
— Você está sentindo? — perguntou Letícia, sorrindo. — O ar está mais leve. Estão nos vendo, mas não faz diferença. A confiança me deixou mais firme.
Gabriel sorriu, beijando sua testa. — Não ligo mais para o que pensam. Eu só ligo para o que nós pensamos. E eu decidi que meu futuro não vai ser o que minha mãe quer.
A fúria de Marialda não se manifestou. Em vez disso, ela cruzou a praça em passos lentos e controlados. Ela se aproximou sozinha. Seu rosto não mostrava mais raiva, mas sim uma dor e um cansaço que Gabriel nunca tinha visto.
— Gabriel, Letícia. — A voz dela era baixa e trêmula, carregada de uma honestidade nova. — Eu não vim brigar. Eu vim... eu vim dizer que você tem razão, meu filho. Eu vi o jeito que você defendeu Letícia ontem, e vi o jeito que você falou comigo. Eu vi o quanto você cresceu, e eu... eu estava ocupada demais tentando ser a prefeita perfeita para ver o filho perfeito que eu já tinha.
Marialda respirou fundo, olhando para Letícia.
— Letícia, peço desculpas. Pelo meu filho ter te escondido, e por eu ter feito a vida dele tão difícil. Eu não prestei atenção em você, Gabriel. Eu entendi. Eu entendi que eu estava sufocando você.
— Mãe... — Gabriel murmurou, surpreso.
— Eu sou a prefeita desta cidade, e sim, eu errei em tratar Paraíso como minha propriedade. E errei muito mais em tratar você como meu projeto. — Marialda estendeu a mão, tocando brevemente o braço de Gabriel. — Seja feliz, meu filho. É só isso que importa.
Marialda se afastou, sua figura tensa, mas não mais irritada, sumindo entre as pessoas. O domínio dela tinha sido substituído pela compreensão.
Gabriel levou Letícia para perto do lago, tirando da mochila duas caixinhas coloridas.
— Lembra que a Valéria usou os doces para te ofender? — ele perguntou, dando uma das caixinhas.
— Lembro. Beijinho, fácil de esquecer.
— E Brigadeiro, o que eu pegaria por ser mais fácil. — Ele abriu a caixinha, mostrando brigadeiros feitos em casa. — Mas a vida não é sobre o doce que os outros dizem para você comer. É sobre escolher o que você mais gosta. E eu escolhi não ter mais que fingir.
Ele abriu a segunda caixinha, que tinha beijinhos, e ofereceu um a Letícia.
— O Beijinho é nosso, porque mostra o carinho, o amor que a gente sente em público. E o Brigadeiro... — Ele pegou um brigadeiro, erguendo-o para brindar. — O Brigadeiro é a parte boa da vida, que vamos ter juntos. Eu não sou mais o filho da prefeita com medo. Eu sou o homem que te ama.
Letícia pegou o brigadeiro, com os olhos brilhando de alegria.
— E eu sou a moça que te ama, que não vai mais pedir desculpas por ser atrapalhada, nem por ser argentina. Você escolheu ser verdadeiro, Gabriel. E isso tem um sabor melhor do que tudo.
Ela comeu o brigadeiro, e Gabriel a beijou. Um beijo que era público, demorado e de verdade. O beijo não era mais um segredo; era o jeito deles de dizer o que sentiam.
A narrativa se encerra com o gosto de felicidade e chocolate: a maldade de Valéria não tinha mais força, o domínio de Marialda foi substituído pela compreensão, e Gabriel e Letícia estavam finalmente felizes juntos, prontos para viver a doçura de sua própria história.
FIM.
