Capítulo 5: Eu Preciso Contar A Verdade!



    A vida de Lucas havia se tornado um roteiro de filme ruim, e o pior: ele era obrigado a estrelar todos os dias. A presença de Isabela havia solidificado sua lenda. Eles eram o "Casal Aventura" da nação, e a cada evento, a cada foto forçada para os paparazzi, Lucas sentia a corda da farsa apertar em volta de seu pescoço. O apartamento dele agora era um centro de logística, com agentes, personal stylists e assessores de imprensa. Os beijos, abraços e carícias trocados com Isabela eram sempre para as câmeras, mas a convivência forçada começou a gerar algo real e perigoso: sentimentos.

Isabela, a atriz que havia sido paga para interpretá-la, era engraçada, inteligente e, para a surpresa de Lucas, genuinamente gentil por trás de sua persona de modelo ousada. Eles passavam horas conversando, e Lucas descobriu que o brilho nos olhos dela, que ele inicialmente pensou ser parte da atuação, era real. A atração era mútua, uma eletricidade verdadeira que contrastava ironicamente com a primeira vez que seus lábios se tocaram — um beijo rápido e profissional na frente de milhões de pessoas no palco de Marcelo. Era o primeiro beijo dele, e ele estava em coma social.

O problema era que Isabela estava apaixonada pelo personagem.

— Eu amo o seu coração destemido, Lucas — ela confidenciou uma noite, enquanto jantavam em um restaurante que ele nunca poderia pagar sozinho. — Sua coragem de correr para o fogo, sua alma livre que não se prende a nada. Você é o homem que eu sempre soube que existia, um herói de verdade.

O elogio perfurou Lucas como uma adaga. Aquele "herói" era a invenção dele, e o Lucas verdadeiro, o rapaz que lia fantasy no escuro e tinha medo de pedir um aumento, estava sufocado. Para ter uma chance real com Isabela, para viver a aventura do amor verdadeiro, ele percebeu que precisava matar o "Galã de Ouro" que a nação amava. Ele precisava confessar a verdade.

O momento escolhido foi uma coletiva de imprensa convocada para anunciar a criação do "Instituto Lucas Ferreira", um projeto de "filantropia marinha" (outra mentira gigantesca) que ele não fazia ideia de como gerenciar. Centenas de jornalistas se espremiam na sala de conferências de um hotel de luxo, e Isabela estava ao seu lado, sorrindo e segurando sua mão com um aperto de apoio. Seus pais estavam na primeira fila, orgulhosos, já pensando em qual ONG iriam patrocinar.

Lucas respirou fundo, soltou a mão de Isabela, e caminhou lentamente até o microfone. A sala ficou em silêncio expectante.

— Boa tarde a todos — começou Lucas, sua voz surpreendentemente firme. — Eu os chamei aqui hoje para falar sobre o futuro. Mas, para falar sobre o futuro, eu preciso, primeiro, falar sobre o passado. E eu preciso falar a verdade.

O ar na sala ficou pesado. O sorriso de Isabela vacilou.

— Vocês me conhecem como Lucas Ferreira, o Galã de Ouro, o aventureiro destemido, o homem que arrisca a vida pela paixão e que salva modelos de incêndios terríveis. — Ele fez uma pausa, varrendo a sala com o olhar, fixando-o por um momento em seus pais e depois em Isabela. — Eu lhes digo, hoje, com toda a honestidade do meu coração... que esse homem nunca existiu.

A plateia reagiu com um murmúrio confuso, que rapidamente se transformou em burburinho de choque.

— Eu nunca estive na China para salvar pandas. Eu nunca mergulhei em uma caverna bioluminescente na Indonésia. Eu nunca, jamais, salvei a Valeska do incêndio do hotel. No dia daquele incidente, que vocês tanto divulgaram, eu estava em casa, na minha sala, jogando videogame e comendo macarrão instantâneo.

O choque era palpável. Seus pais se entreolharam, apavorados. Isabela, ao lado dele, tinha o rosto em branco, incrédula.

— Tudo era mentira. Minhas namoradas? Invenções. A Valeska, a Sofia, a Antônia... eu as criei para que vocês não me julgassem. Eu criei essa vida de aventura e coragem porque eu me sentia envergonhado da minha vida real. Eu sou um nerd, um analista de marketing sem graça, que nunca viajou para um lugar realmente perigoso, e, mais importante... — As lágrimas vieram aos olhos de Lucas, mas ele continuou, a voz embargada pela emoção. — Eu sou um rapaz de 25 anos que nunca, sequer, beijou alguém por vontade própria e amor verdadeiro.

O beijo que Isabela lhe deu no programa de TV havia sido uma atuação, mas, agora, a confissão era a coisa mais real que ele já havia feito.

— Me desculpem, mas a verdade é que eu sou um mentiroso, forjado no medo e na insegurança. E a única razão pela qual eu estou confessando isso é porque eu me apaixonei. Eu me apaixonei por uma mulher que se apaixonou pelo meu fantasma, pelo herói que eu inventei.

A sala explodiu em caos. Repórteres gritavam, câmeras piscavam, e os pais de Lucas pareciam ter encolhido em seus assentos. A fúria inicial era audível: o Brasil havia sido enganado.

Isabela, no entanto, não gritou. Ela apenas ficou parada, digerindo a bomba. Lágrimas rolavam pelo seu rosto, mas não pareciam ser de raiva. Ela estava vendo a vulnerabilidade, a coragem pura e sem filtro que ele exibia. Ela viu o verdadeiro Lucas.

Ela caminhou lentamente em direção a ele, atravessando o palco em meio ao pandemônio. Ela parou a um passo de distância.

— Você nunca beijou ninguém? — perguntou Isabela, a voz trêmula, mas um sorriso começando a surgir em seus lábios. — Nem mesmo quando nos apresentaram no programa do Marcelo?

— Aquele beijo foi para a câmera, Isabela. Foi o meu primeiro, mas não contou. Foi parte da farsa.

Isabela então sorriu de verdade, um sorriso tão caloroso e lindo que apagou todas as luzes de estúdio. Ela se inclinou, e dessa vez, sem câmeras ou roteiros, e o beijou. Foi um beijo longo, doce e desajeitado, o primeiro beijo real de Lucas, e era, de longe, mais emocionante e aventureiro do que qualquer história que ele já havia inventado.

Ao se separarem, o silêncio momentâneo da imprensa foi quebrado por um único aplauso, logo seguido por uma cacofonia de gritos e perguntas. A imprensa estava dividida: metade estava furiosa pela fofoca do século, a outra metade estava celebrando a mais nova e verdadeira história de amor que nascia ali.

Lucas, agora desmascarado e finalmente livre, segurou a mão de Isabela, sentindo o calor e a solidez da verdade.

— Então... o que vamos fazer agora? — perguntou ele, o pânico substituído pela excitação.

Isabela apertou a mão dele, olhando para a multidão enlouquecida com um brilho divertido nos olhos.

— Vamos viver a vida real, Lucas. Sem mentiras e sem sketches de moda. Essa, meu amor, é a aventura que vale a pena.

De mãos dadas, enfrentando o furor da imprensa e o futuro incerto, Lucas e Isabela deixaram o palco. A lenda do "Galã de Ouro" havia terminado, mas a verdadeira história de Lucas, o rapaz que finalmente aprendeu a beijar, estava apenas começando.