A noite de 12 de abril trouxe um frio que parecia cortar o aço do Titanic. Em um canto sombrio do convés de passeio da segunda classe — um território neutro onde as sombras eram longas o suficiente para esconder um "funcionário" e uma dama — Fillemon e Isabella se encontraram novamente. O navio vibrava suavemente sob seus pés, um lembrete constante da força das máquinas que os levavam em direção ao oeste.

— Você parece estar carregando o mundo nos ombros hoje, Miller — disse Isabella, puxando o seu estol de pele para mais perto do pescoço.

Fillemon soltou um suspiro que se transformou em uma pequena nuvem de vapor no ar gélido. Ele olhou para as próprias mãos, marcadas pelo trabalho pesado que fingia realizar e pelas pequenas cicatrizes de uma vida de privações.

— Eu estava pensando na minha mãe — confessou ele, permitindo que uma fresta da verdade aparecesse. — Ela vive em uma casa onde o vento entra pelas frestas das paredes com a mesma facilidade que o medo. Tudo o que eu faço... cada risco que corro, é para que ela nunca mais precise escolher entre comprar pão ou carvão para o inverno.

Isabella o observou com uma doçura que o incomodava. Ela não via o golpista, o homem que usava um nome morto e documentos roubados; ela via apenas um filho dedicado.

— Ser rico não é apenas ter dinheiro, Miller — disse ela, sua voz soando como uma nota baixa de violoncelo. — A fama, para mim, tornou-se uma prisão de ouro. As pessoas não me veem; elas veem a "Pianista Isabella". Esperam que eu seja perfeita, que eu sorria para fotógrafos e que minha vida seja tão harmoniosa quanto uma sonata de Beethoven. Mas, às vezes, eu sinto que estou afogando em meio a tanta admiração vazia.

Fillemon sentiu um nó se apertar em sua garganta. Ele passara a vida acreditando que o sofrimento era exclusividade dos pobres e que a riqueza era o remédio para todas as feridas da alma.

— Você tem tudo — murmurou ele, quase com raiva de si mesmo por sentir piedade dela. — Tem comida fina, roupas que custam mais do que a casa da minha mãe e o respeito de todos. Como pode se sentir sozinha?

— Porque ninguém aqui se importa com quem eu sou quando as luzes do palco se apagam — respondeu ela, aproximando-se um pouco. — Estamos em um navio de milhares de pessoas, e aqui estou eu, conversando com um estranho nas sombras porque ele é o único que parece notar que eu sou real.

Fillemon desviou o olhar para a vastidão negra do oceano. O peso moral de seus atos começou a pressionar seu peito. Ele queria ser como os homens do convés superior para salvar a mãe, mas percebia que a mulher à sua frente, o ápice de tudo o que ele desejava alcançar, compartilhava da mesma solidão e vazio que ele sentia nos becos escuros de sua cidade.

— Eu não sou quem você pensa que sou, Isabella — disse ele, a voz quase sumindo.

— Nenhum de nós é, Miller — ela colocou a mão sobre a dele, um toque leve que queimou mais que o frio. — Mas, aqui, no meio do Atlântico, as máscaras não importam tanto, não acha?

Fillemon apertou os dentes, escondendo suas mentiras sob o silêncio. Ele queria contar tudo — que seu nome era Fillemon, que ele era um infiltrado, um mentiroso — mas o medo de perder aquele olhar de admiração era maior que sua necessidade de redenção. Pela primeira vez, ele não queria apenas o dinheiro dos ricos; ele queria ser digno daquela mulher doce que, ironicamente, se sentia tão perdida quanto ele no imenso gigante de aço.