Miguel passou a manhã de terça-feira tentando decidir se deveria chegar à escola mais cedo para encontrar Samuel ou se seria melhor esperar até o fim das aulas, como haviam combinado. A conversa na praça continuava ocupando seus pensamentos desde a noite anterior, e ele já havia imaginado tantas maneiras de começar que nenhuma parecia natural. Em algumas versões, Samuel reconhecia que havia se afastado e os dois conseguiam conversar como antes. Em outras, Miguel admitia que tinha exagerado nas cobranças, o amigo explicava o próprio lado e tudo terminava com uma brincadeira que os fazia rir da situação. Havia até uma terceira possibilidade, a que ele menos gostava de imaginar, em que os dois descobriam que não tinham mais tanta coisa para dizer um ao outro. Miguel sabia que estava se preparando para uma conversa que ainda nem havia acontecido, mas não conseguia evitar. Era mais fácil ensaiar respostas sozinho do que correr o risco de ouvir alguma coisa para a qual não estivesse preparado.

Na cozinha, a mãe terminava de organizar a mesa antes de sair para resolver alguns assuntos. Havia contas sobre a geladeira, uma sacola de roupas que precisava ser separada e uma torneira que voltara a apresentar problemas. Miguel percebeu que ela estava mais quieta do que de costume, mas só perguntou se precisava de ajuda quando a viu tentando alcançar uma caixa guardada na parte mais alta do armário.

— Segura aqui para mim? Acho que coloquei isso muito para cima.

Ele se levantou e pegou a caixa, colocando-a sobre a mesa.

— Você podia deixar essas coisas em um lugar mais fácil.

— Podia. Também podia ter mais tempo para organizar a casa, mas parece que o dia só tem vinte e quatro horas para mim.

Ela falou sorrindo, sem intenção de reclamar de verdade, mas Miguel percebeu o cansaço na voz. Nos últimos meses, a mãe andava dividindo o tempo entre o trabalho, as tarefas domésticas e algumas preocupações com as despesas. Nem sempre comentava o que estava acontecendo, e Miguel também não costumava perguntar muito. Tinha a impressão de que, se não tocasse nos assuntos difíceis, eles acabariam se resolvendo sozinhos. Era uma maneira confortável de viver, desde que alguém continuasse cuidando de tudo.

— Posso lavar a louça quando voltar — ofereceu.

— Não precisa fazer tudo de uma vez. Só não deixa para amanhã o que você já pode fazer hoje.

Miguel sorriu.

— Isso foi uma indireta?

— Foi uma mensagem educativa, que é diferente.

Ele riu, pegou a mochila e se despediu. Na rua, enquanto caminhava para a escola, ficou pensando na conversa. A mãe não havia pedido que ele resolvesse nenhum problema, mas havia coisas que ele poderia fazer para tornar a rotina um pouco mais fácil. Até então, Miguel estava tão concentrado no que acontecia com Samuel que quase não percebia o restante da própria vida. A casa continuava precisando de cuidados, as contas não desapareciam porque ele estava triste e o calendário escolar seguia avançando, mesmo quando sua cabeça insistia em voltar aos mesmos acontecimentos.

Ao chegar à escola, encontrou Davi sentado perto da entrada, desenhando alguma coisa no canto de uma folha. O colega ergueu os olhos quando ouviu seus passos e fechou o caderno pela metade.

— Você demorou hoje.

— Eu sempre demoro.

— É verdade. Estou começando a achar que você faz isso de propósito para manter sua reputação.

Miguel sentou-se ao lado dele.

— É importante ter uma identidade.

Davi riu e voltou a abrir o caderno. Havia o desenho de uma rua estreita, com casas antigas, árvores e uma bicicleta encostada em um muro. Miguel se inclinou para olhar melhor.

— Você desenhou isso agora?

— Comecei ontem. Ainda falta bastante coisa.

— Ficou bom.

— Você fala isso porque ainda não viu o resto.

— Então mostra quando terminar.

Davi fez uma expressão desconfiada.

— Você promete ler minhas histórias quando terminar as suas?

Miguel soltou uma risada.

— Você também está guardando essas coisas contra mim?

— Não estou guardando nada. Só estou tentando entender por que você começa uma história, fala dela como se fosse mudar a literatura brasileira e depois abandona tudo na terceira página.

— Às vezes a história não funciona.

— Ou você fica com medo de terminar e descobrir que ela não ficou tão boa quanto imaginava.

Miguel abriu a boca para responder, mas acabou fechando novamente. Davi continuava olhando para o desenho, sem perceber o efeito que aquela frase havia provocado. Ou talvez tivesse percebido e simplesmente não quisesse transformar uma brincadeira em uma conversa séria.

— Você fala umas coisas muito inconvenientes — disse Miguel.

— Obrigado. Estou desenvolvendo essa habilidade.

O sinal tocou, e os dois entraram na escola. Durante as aulas, Miguel conseguiu prestar mais atenção do que nos dias anteriores. Ainda pensava em Samuel, mas não passou o tempo inteiro procurando o amigo com os olhos. Quando o viu conversando com Caio no corredor, sentiu o incômodo habitual, embora dessa vez tenha tentado não transformar a cena em uma conclusão sobre o futuro da amizade. Samuel estava conversando com um colega. Era só isso que ele sabia. Todo o restante era uma história que Miguel construía na própria cabeça.

No intervalo, Davi o convidou para sentar com ele e outros dois colegas da turma. Miguel aceitou e participou da conversa sobre um trabalho que precisariam entregar na semana seguinte. Em determinado momento, Davi começou a contar uma história sobre o avô, que havia tentado consertar um rádio antigo e acabou desmontando mais coisas do que pretendia. Miguel riu tanto que precisou apoiar o copo na mesa para não derramar o refrigerante. Quando o intervalo terminou, percebeu que não havia pensado em Samuel durante boa parte daqueles minutos.

A constatação trouxe um alívio inesperado. Depois, quase imediatamente, veio a culpa.

Era como se estar bem na companhia de outra pessoa significasse que ele estava deixando a amizade antiga para trás. Miguel sabia que isso não fazia sentido, mas seus sentimentos nem sempre obedeciam ao que ele conseguia entender racionalmente. Durante muito tempo, Samuel havia sido a primeira pessoa para quem queria contar qualquer novidade, a companhia mais fácil para uma tarde sem planos e o amigo que conhecia tantas histórias de sua vida que quase não precisava de explicações. Agora, Davi começava a ocupar um espaço diferente, construído a partir de conversas novas, interesses em comum e uma curiosidade que Miguel não sentia havia algum tempo. Não era melhor nem pior. Apenas era outra coisa.

Na última aula, o professor avisou que começariam a conversar sobre as possibilidades para o ano seguinte. Alguns alunos já pensavam em cursos técnicos, outros queriam fazer faculdade e havia quem pretendesse procurar emprego assim que terminasse o ensino médio. Miguel ouviu tudo com a sensação de que a conversa era destinada a uma versão futura de si mesmo, alguém mais organizado e capaz de tomar decisões sem passar semanas imaginando todas as consequências possíveis.

— Não adianta deixar para pensar nisso na última hora — disse o professor. — As escolhas não precisam estar todas resolvidas agora, mas vocês precisam começar a descobrir o que faz sentido para cada um.

Miguel olhou para o caderno. No alto de uma página, havia escrito o título de uma história que começara algumas semanas antes. Abaixo, três parágrafos e várias anotações sobre personagens que ainda não tinham chegado a lugar algum. Na página seguinte, uma lista de coisas que queria fazer algum dia: conhecer outras cidades, escrever um livro inteiro, aprender mais sobre cinema, talvez trabalhar com comunicação. Eram desejos que pareciam próximos quando ele pensava neles sozinho, mas distantes quando comparava tudo aquilo com a vida que tinha naquele momento.

O professor continuou falando sobre inscrições, prazos e informações que os alunos poderiam pesquisar. Miguel anotou algumas palavras, embora ainda não soubesse por onde começar. Pela primeira vez, percebeu que estava tão preocupado com a possibilidade de perder uma amizade que quase não havia pensado no que queria construir para si mesmo. Não era culpa de Samuel. O amigo não havia pedido que Miguel parasse de pensar no futuro, assim como Davi não tinha a obrigação de fazê-lo esquecer os problemas. A distração vinha dele, da maneira como havia colocado tanta energia em tentar impedir uma mudança que talvez não pudesse impedir.

Depois da aula, Davi o alcançou no corredor.

— Você ficou quieto durante a conversa sobre o ano que vem.

— Estava pensando.

— Perigoso.

— Muito engraçado.

— Estou falando sério. Você já sabe o que quer fazer depois da escola?

Miguel ajeitou a alça da mochila no ombro.

— Tenho algumas ideias. Escrever, trabalhar com alguma coisa ligada a comunicação, talvez fazer um curso. Mas não sei se consigo organizar tudo.

— Por que não conseguiria?

— Porque uma coisa é pensar no que eu quero fazer. Outra é descobrir como fazer isso acontecer.

Davi assentiu, como se entendesse a diferença.

— Meu avô sempre fala que ninguém aprende a consertar uma coisa só olhando para ela. Uma hora precisa abrir, ver como funciona e aceitar que talvez tenha de montar tudo de novo.

— Você acabou de comparar minha vida com um rádio velho?

— Não fui eu que fiz a comparação. Foi meu avô. Estou apenas usando a sabedoria familiar.

Miguel riu, mas continuou pensando naquilo enquanto os dois caminhavam até o portão. Davi não tinha apresentado um plano de vida nem prometido que tudo daria certo. Só havia lembrado que pensar não era a mesma coisa que começar. E, naquele momento, Miguel precisava ouvir algo assim. Havia passado semanas analisando as mudanças na amizade com Samuel, tentando prever o que aconteceria e procurando uma maneira de voltar ao ponto em que tudo parecia mais simples. Talvez pudesse gastar um pouco desse esforço com as coisas que ainda estavam ao seu alcance.

Os dois seguiram juntos até a esquina, onde precisariam tomar caminhos diferentes. Antes de se despedirem, Davi perguntou se Miguel queria ir à padaria na quinta-feira, depois das aulas, para terminarem uma conversa sobre filmes que haviam começado no intervalo.

— Pode ser — respondeu Miguel. — Eu te aviso.

— Você fala isso como quem está assinando um contrato com possibilidade de cancelamento.

— Estou protegendo meus direitos.

Davi balançou a cabeça, rindo, e atravessou a rua. Miguel continuou andando, sentindo-se mais leve do que havia se sentido nos últimos dias. Gostava da companhia de Davi, mas começou a perceber que precisava tomar cuidado para não transformar aquela amizade em uma espécie de abrigo contra tudo o que estava acontecendo com Samuel. Davi não tinha a obrigação de preencher os espaços vazios de sua vida, assim como Miguel não precisava fingir que a amizade nova era menos importante apenas porque a antiga estava passando por dificuldades.

Uma amizade não precisava substituir outra. Também não precisava ser comparada o tempo inteiro para provar seu valor.

Em casa, Miguel encontrou a mãe sentada à mesa, separando alguns papéis. A televisão estava ligada na sala, mas o volume era baixo. Ele deixou a mochila no quarto, voltou para a cozinha e perguntou se havia alguma coisa que pudesse fazer para ajudar. A mãe levantou os olhos, surpresa.

— Você está precisando de dinheiro?

— Não. Por que eu precisaria?

— Porque normalmente você só aparece na cozinha com essa disposição toda quando quer alguma coisa.

Miguel riu.

— Talvez eu esteja amadurecendo.

— Nesse caso, vou aproveitar enquanto dura.

Ela entregou a ele uma pilha de roupas que precisava ser dobrada. Miguel levou tudo para a sala e começou a separar as peças enquanto a mãe terminava de organizar os papéis. Não era uma tarefa difícil, mas demorou mais do que imaginava porque ele se distraiu com um programa na televisão. A mãe fez um comentário sobre a quantidade de tempo que ele gastava no celular, e Miguel respondeu que estava tentando diminuir. Ela não perguntou se havia algum motivo especial, e ele ficou agradecido por isso.

Mais tarde, os dois jantaram juntos. A conversa passou por assuntos comuns, até a mãe perguntar se ele já estava pensando no que faria depois de terminar a escola. Miguel contou um pouco do que havia ouvido na aula e mencionou algumas possibilidades. Falou de cursos, de escrita e de seu interesse por comunicação, mas admitiu que ainda não sabia exatamente como transformar aquilo em um plano.

— Você não precisa decidir sua vida inteira agora — disse ela. — Mas precisa começar a olhar para essas coisas com carinho. O tempo passa, e a gente não percebe enquanto está ocupado demais com outras preocupações.

Miguel mexeu na comida com o garfo.

— Você acha que eu fico preocupado demais com coisas que não consigo controlar?

A mãe pareceu pensar antes de responder.

— Acho que todo mundo faz isso de vez em quando. A gente quer que as pessoas continuem perto, que as coisas deem certo e que os planos aconteçam como imaginamos. Só que nem sempre depende da gente. O que depende é a maneira como tratamos as pessoas, o que fazemos com as oportunidades que aparecem e o esforço que colocamos nas coisas importantes.

Miguel permaneceu quieto. Não havia contado à mãe sobre a discussão com Samuel, e ela não tinha como saber o quanto aquela conversa se aproximava do que estava vivendo. Ainda assim, sentiu vontade de explicar tudo. Queria contar que estava com medo de perder o melhor amigo, que tinha ciúmes dos novos colegas e que, apesar de saber que Samuel não lhe devia exclusividade, ainda se sentia deixado para trás. Mas a ideia de colocar aquilo em palavras diante da mãe o deixou constrangido.

— Às vezes eu acho que, se eu não fizer alguma coisa, tudo vai mudar e eu não vou conseguir impedir — confessou.

Ela pousou o garfo no prato.

— Mas você não precisa impedir todas as mudanças, filho. Algumas coisas mudam mesmo quando a gente faz tudo o que pode. Isso não significa que você falhou.

Miguel olhou para ela. A mãe não tentou descobrir a quem ele estava se referindo, nem transformou a conversa em uma série de perguntas. Apenas voltou a comer, dando espaço para que ele pensasse no que havia acabado de ouvir.

Depois do jantar, Miguel lavou a louça enquanto ela terminava de guardar as roupas. Quando voltou para o quarto, pegou o celular e abriu a conversa com Samuel. A última mensagem continuava sendo a combinação para a conversa na praça. Miguel pensou em mandar alguma coisa antes, talvez dizer que não queria brigar ou que estava tentando entender o lado do amigo. Mas resolveu esperar. Não porque quisesse manter o silêncio, e sim porque começava a perceber que nem toda conversa precisava acontecer no instante em que sentia vontade de aliviar a própria ansiedade.

Em vez disso, abriu o caderno e fez uma lista de coisas que queria organizar nas próximas semanas. Pesquisar cursos, terminar a história que estava escrevendo, ajudar mais em casa, separar algum tempo para ler e procurar informações sobre oportunidades de trabalho. A lista não resolveu nenhuma das suas preocupações, mas deu a elas um lugar diferente. Pela primeira vez em vários dias, Miguel conseguiu pensar no futuro sem sentir que precisava ter todas as respostas imediatamente.

Na quarta-feira, ele chegou à escola alguns minutos antes do sinal e encontrou Samuel perto do portão. Os dois trocaram um cumprimento discreto. Miguel percebeu que o amigo parecia prestes a dizer alguma coisa, mas Caio apareceu logo depois, chamando Samuel para ver um aviso sobre o campeonato. Samuel olhou para Miguel, hesitou e acabou seguindo com o colega.

O incômodo veio, como sempre. Miguel sentiu vontade de interpretar aquela cena como mais uma confirmação de que Samuel já não o colocava em primeiro lugar. Por alguns segundos, quase voltou a alimentar a mesma sequência de pensamentos. Então respirou fundo e seguiu para a sala. Não precisava fingir que não estava magoado, mas também não precisava decidir, a cada gesto do amigo, o que aconteceria com a amizade dos dois.

No intervalo, Miguel encontrou Davi perto da janela da sala, tentando desenhar o formato de uma mão sem que os dedos ficassem parecendo palitos tortos. Ficou ao lado dele, observando por alguns segundos.

— Está tentando desenhar uma mão ou uma aranha?

Davi levantou o lápis.

— Estou tentando desenhar alguém que faz comentários inconvenientes. Ainda estou decidindo se vou colocar você no desenho.

— Se colocar, pelo menos me deixa bonito.

— Aí já não seria um desenho realista.

Miguel riu e puxou uma cadeira. Conversaram sobre o trabalho de matemática, sobre a atividade que teriam na semana seguinte e sobre um filme que Davi queria assistir. Em determinado momento, Davi perguntou se Miguel estava melhor. A pergunta veio sem insistência, e Miguel percebeu que poderia responder com sinceridade sem precisar contar todos os detalhes.

— Acho que estou começando a entender algumas coisas — disse. — Ainda não resolvi nada, mas pelo menos parei de tentar resolver tudo na minha cabeça.

— Isso já parece um bom começo.

— Você fala como se soubesse do que está falando.

— Não sei. Só tenho uma cara convincente.

Miguel sorriu. Não contou a Davi que ainda estava preocupado com Samuel, nem tentou transformar aquela conversa em uma oportunidade de falar sobre a briga. Preferiu ouvir a história que o colega estava contando sobre o avô e a oficina, fazendo perguntas e rindo quando Davi imitava o jeito sério com que o homem explicava coisas simples. Pela primeira vez, conseguiu aproveitar a amizade sem ficar comparando o que sentia com o que havia sentido ao lado de Samuel.

Isso não significava que a preocupação tivesse desaparecido. Quando o sinal tocou e os dois voltaram para a sala, Miguel viu Samuel sentado com Caio e sentiu novamente aquela pontada de tristeza. A diferença foi pequena, mas importante: dessa vez, não deixou que o sentimento decidisse o restante do seu dia.

Na saída, Samuel se aproximou enquanto Miguel guardava o material na mochila.

— Você ainda quer conversar hoje? — perguntou.

Miguel olhou para ele, surpreso por ter sido o amigo a tocar no assunto.

— Quero. A gente combinou, não foi?

— Foi. Só queria confirmar.

Samuel parecia cansado, e Miguel percebeu que também estava nervoso. Por um instante, teve vontade de perguntar se o amigo havia pensado na briga, se tinha entendido o que ele sentia ou se pretendia pedir desculpas. Mas conteve as perguntas. Não queria começar a conversa cobrando uma resposta que Samuel talvez ainda não tivesse encontrado.

— Te encontro na praça depois de deixar a mochila em casa — disse Miguel.

— Tá bom. Eu vou passar lá também.

Os dois se despediram e seguiram por caminhos diferentes. Miguel caminhou devagar, observando as casas, as árvores e os pequenos comércios que conhecia desde criança. Nada parecia muito diferente. A mesma senhora varria a calçada em frente à própria casa, um cachorro latiu atrás de um portão e um carro passou devagar pela rua. Ainda assim, Miguel sentia que alguma coisa dentro dele estava mudando, embora não soubesse dizer exatamente o quê.

Em casa, deixou a mochila no quarto, ajudou a mãe a guardar algumas compras e trocou de roupa. Antes de sair, olhou para o caderno sobre a mesa. A lista de tarefas continuava lá, incompleta. Havia muito que ele ainda precisava organizar, tanto na vida escolar quanto em casa, e sabia que não resolveria tudo em poucos dias. Mas já não sentia que precisava escolher entre cuidar de si mesmo e se importar com as pessoas de quem gostava.

Talvez tivesse confundido essas duas coisas por tempo demais.

Quando chegou à praça, Samuel estava sentado no mesmo muro onde Miguel havia esperado por ele na sexta-feira. O amigo ergueu a cabeça ao ouvi-lo chegar e guardou o celular no bolso. Por alguns segundos, os dois ficaram se olhando, sem saber muito bem como começar.

Miguel sentou-se ao lado dele. A árvore continuava no mesmo lugar, as crianças brincavam perto dos bancos e o movimento da rua seguia como em qualquer outra tarde. Tudo parecia familiar, mas nenhum dos dois conseguiu agir como se estivessem apenas esperando o tempo passar.

— Então — disse Samuel, depois de um momento. — A gente precisa conversar.

Miguel assentiu, apoiando os braços nos joelhos.

Dessa vez, não tinha preparado um discurso. Não sabia se conseguiria explicar tudo o que sentia sem se irritar, nem se seria capaz de ouvir as respostas de Samuel sem procurar nelas alguma confirmação de seus medos. Mas estava disposto a tentar.

Porque começava a entender que uma amizade não podia depender de uma pessoa tentando impedir todas as mudanças enquanto a outra tentava seguir em frente. E, se ainda havia alguma coisa que os dois pudessem salvar, talvez o primeiro passo fosse parar de tratar cada diferença como uma ameaça.

Samuel respirou fundo, preparando-se para falar. Miguel virou o rosto na direção dele e esperou.

Pela primeira vez em muito tempo, não estava tentando adivinhar o que o amigo diria. Estava disposto a ouvir.