O quarto continuava silencioso, mas já não parecia o mesmo. As palavras de Catarina haviam aberto uma janela no tempo, e agora, o passado respirava junto com o presente. Gabriel estava sentado à beira da cama, os cotovelos sobre os joelhos, os olhos presos na figura frágil de sua bisavó.
Ela olhava para a parede como se ainda enxergasse os trilhos do bonde, as árvores da Praça da Sé, os olhos de Nágila. Sua voz havia ficado rouca, mais pela emoção do que pela idade.
— Gabriel... — murmurou, virando-se com esforço — abre aquela gaveta pra mim. A de baixo, debaixo da mesinha.
O garoto se levantou e fez o que ela pediu. Dentro, havia uma pequena caixa de madeira, escurecida pelo tempo, com marcas de uso e um fecho gasto. Era simples, mas carregava algo solene. Ele a entregou com cuidado.
Catarina sorriu, quase com reverência, e abriu a caixa com as mãos trêmulas.
Lá dentro, o tempo dormia.
Havia cartas dobradas com delicadeza, os papéis amarelados e frágeis. Uma fita azul, desbotada, como as que Catarina usava no cabelo nas festas juninas. E um lenço de linho com as iniciais bordadas à mão: N. M.
— Eu fui feliz, Gabriel — disse ela, com a voz baixa, mas firme. — Mas só de verdade uma vez. E foi com ela.
Gabriel não sabia o que dizer. Pegou uma das cartas, abriu com cuidado. A letra era inclinada, feminina, cheia de curvas. Leu os primeiros trechos em silêncio. Palavras de carinho, metáforas escondidas, frases que escapavam das convenções da época, e mesmo assim, tão doces.
“Hoje sonhei com a praça e o cheiro do seu cabelo. Ainda lembro da sua risada quando tropecei. Tudo em você me faz falta. Aqui, o tempo parece andar mais lento, mas o amor continua vivo. Escrevo escondida, mas escrevo com a alma.”
Gabriel engoliu em seco. Pela primeira vez, via sua bisavó como uma jovem. Não como a senhora de quase um século que agora descansava na cama. Mas como uma menina apaixonada que teve coragem de amar num mundo que dizia não.
— Nunca pensei que você tivesse... vivido algo assim — disse ele, por fim, num tom quase de espanto.
Catarina sorriu. Um sorriso com gosto de memória.
— Todos temos segredos, Gabriel. Só que alguns precisam ser ditos antes do fim.
Ela fechou a caixa com delicadeza, como quem sela uma história. Os olhos, mesmo cansados, ainda brilhavam. Era um brilho diferente, não o da juventude, mas o da paz de quem, enfim, pôde dizer a verdade. Catarina estava sorrindo para ele.
Gabriel permaneceu ali, em silêncio, segurando o lenço bordado. E pela primeira vez, sentiu que conhecia Catarina de verdade.
Não como a bisa da foto na parede.
Mas como alguém que, apesar de tudo, ousou viver um amor inteiro.
