Capítulo 5: O Axé da Família Torta


O AXÉ DA FAMÍLIA TORTA

 Um ano havia se passado desde a crise da serra circular e da graduação perdida. Um ano que forjou uma rotina que era, aos olhos de qualquer vizinho, estranha, mas que para Leandro e Yago era a única realidade possível.

Yago, agora com três anos e meio, era um turbilhão de energia e perguntas. As fraldas tinham sido substituídas por calças jeans sujas de tinta e areia. O apartamento continuava caótico, mas de um jeito habitável; havia uma ordem funcional na desordem dos brinquedos e dos livros infantis.

Leandro havia, de fato, abdicado da busca pela excelência. Na marcenaria, ele era eficiente, mas não ambicioso. Ele fazia o suficiente para garantir o sustento, recusando projetos que exigissem longas horas noturnas. Na capoeira, ele frequentava a roda apenas duas vezes por semana, aceitando o seu lugar na mediocridade do meio do grupo.

Contramestre Gavião, que o observava de longe, nunca mais o criticou pela falta de foco. Em vez disso, certa vez, ele lhe disse:

— Sua ginga pode estar lenta, Capivara, mas o seu axé está mais forte. Você aprendeu a lutar a batalha mais importante.

O relacionamento com o Sr. Sebastião permaneceu um campo minado. Os encontros eram raros, breves e sempre tensos. O pai de Leandro jamais perguntou pelo neto, e Leandro jamais o levou para vê-lo. A ausência de um teste de DNA permanecia um muro invisível de desaprovação. Sebastião buscava a pureza da linhagem; Leandro vivia a impureza da vida real, e eles não conseguiam se encontrar.

Mas se ele falhara em ser o filho ou o capoeirista que se esperava, havia triunfado onde importava. Ele era, inegavelmente, um pai competente e, acima de tudo, amoroso. Ele sabia fazer o penteado de Yago, conhecia seus medos noturnos e entendia que a birra na verdade era fome.

A cultura da capoeira havia se infiltrado na paternidade. Quando Yago caía, Leandro cantava uma cantiga de "cura" para o machucado. Quando ele estava impaciente, Leandro o acalmava com o toque rítmico do atabaque nos joelhos. O berimbau, antes um instrumento de luta, havia se tornado um objeto de brincadeira e aprendizado.

A questão do DNA, que antes era uma angústia existencial, havia se transformado em uma irrelevância. Leandro revisitava a carta de Rosana ocasionalmente, mas o medo de descobrir que Yago não era seu filho biológico já não o assustava. Ele havia concluído que, mesmo que o sangue dissesse "não", o coração e a história diriam "sim". A ligação que construíram, tijolo por tijolo de cuidado e entrega, era a mais forte possível.

Certa tarde de sábado, a calma habitual pairava no apartamento. Leandro estava na sala, tentando consertar um dos brinquedos de madeira de Yago, enquanto o menino assistia a um desenho animado.

Yago, entediado com a televisão, virou-se e viu o pai sentado. De repente, ele se levantou, caminhou para o centro do tapete e assumiu uma postura inusitada. Com as mãos abertas e o corpo levemente inclinado, ele começou a imitar, de forma totalmente desgovernada, a ginga que via o pai fazer.

Ele balançava as pernas descontroladamente, quase caindo a cada movimento, os cachos balançando. Então, ele tentou o impensável. Imitando um dos movimentos de ataque que Leandro praticava no treino, Yago levantou a perninha descalça e tentou executar uma meia-lua de compasso.

Claro, ele não conseguiu. Perdeu o equilíbrio e caiu de bunda no chão, soltando um grito de surpresa que rapidamente se transformou em risada.

Leandro largou o brinquedo. Ele não correu para pegar Yago nem o repreendeu. Apenas se permitiu o luxo de um sorriso aberto, de aceitação total. O sorriso não era de um pai orgulhoso pelo golpe correto, mas de um pai grato pela presença do filho.

— Essa ginga está torta, meu mestre — disse Leandro, a voz carregada de ternura.

— Torta! — repetiu Yago, levantando-se e tentando de novo, agora com o mesmo sorriso no rosto.

Leandro o observou. A cena simples — um pai exausto, um apartamento bagunçado e um filho que tentava lutar com os próprios pés — era a imagem mais pura de felicidade que ele já havia conhecido. Sua família não era a do comercial de margarina que Sebastião sonhava. Era uma família "torta", nascida de um abandono e nutrida pela escolha diária. Era imperfeita, falha em muitas métricas, mas abundante em axé — aquela energia vital, de força e propósito que a capoeira tanto valorizava.

Leandro se levantou, esticou as costas doloridas e se juntou a Yago no tapete. Ele começou a fazer a ginga, devagar, e Yago tentou imitá-lo.

A vida não tinha tido um final espetacular. Não houve retorno de Rosana, nem reconciliação dramática com Sebastião, nem graduação de Mestre. Havia apenas o novo normal: dois corpos, dois ritmos, encontrando o compasso juntos. E, naquele momento, Leandro soube que havia vencido a batalha que importava. A música do seu berimbau não havia silenciado, apenas mudado de melodia, embalando agora uma canônica de amor e responsabilidade. Ele era um pai.