CAPÍTULO 5
Futebol não é só chute e gol. É, acima de tudo, inteligência e visão de jogo. Na vida, é a mesma coisa. A gente precisa aprender a ler o campo antes que a bola chegue. E quando a oportunidade finalmente aparece, ela quase sempre vem disfarçada de trabalho duro.
Os meses de trabalho invisível deram resultado. Kauan não era mais o garoto franzino que Rodrigo havia dispensado no CAU. Ele era o Falcão: mais forte, com uma resistência pulmonar invejável, e o principal, com a mente blindada pela persistência. Os treinos com Junior e as orientações de Carol haviam forjado um atleta completo.
O professor Junior estava orgulhoso.
— Falcão, a hora é agora. Conversei com um amigo, e consegui para você um teste no Grêmio Esportivo Progresso (GEP). Eles têm uma das melhores bases do interior.
O GEP era um time de porte médio, respeitado por dar chances a jovens talentos. Era uma distância ainda maior, mas uma chance infinitamente melhor. O teste seria em um sábado, o que aliviou Kauan, pois não precisaria faltar às aulas.
Desta vez, a família inteira o apoiou sem hesitar. José Alfredo havia vendido uma ferramenta antiga para garantir o dinheiro da passagem e Marta preparou um lanche reforçado, com carinho.
Na manhã do teste, Kauan se despediu de Ana Letícia na porta da escola.
— Boa sorte. Você está pronto — ela disse, pela primeira vez, com um sorriso de incentivo.
— Obrigado, Ana. Eu... eu vou dar tudo de mim.
— Eu sei que vai.
Ao chegar ao CT do GEP, Kauan se sentiu diferente. A grama era verde, o ambiente, profissional. A concorrência era pesada, garotos de vários estados, mas ele não sentiu o pânico da primeira vez. A dor da recusa no CAU havia lhe dado casca.
O treino era supervisionado de perto pelo técnico Yoná, um senhor calvo e de olhar penetrante, famoso por sua capacidade de enxergar o potencial onde ninguém via.
Durante o treino tático, Kauan não brilhou apenas com sua velocidade. Ele brilhou com a cabeça. Antecipava passes, cobria espaços e, mesmo sem ser o maior, protegia a bola com a força que havia conquistado. Em uma jogada, ele recebeu no meio-campo, viu um companheiro desmarcado na ponta e, em vez de arriscar o drible individual, fez um passe preciso que resultou em gol.
Yoná anotou algo na prancheta.
Ao final do treino, enquanto os garotos se dirigiam à lateral, Kauan sentiu a mão firme de Yoná em seu ombro.
— Kauan Henrique, certo?
— Sim, senhor.
— Você é rápido, garoto. Mas o que me impressionou é a sua visão. Você jogou mais com a cabeça do que com os pés. Você pensa o jogo. Me diga, por que o Atlético União não te aprovou?
Kauan respirou fundo.
— Eles disseram que eu era bom, mas não tinha o físico para o nível profissional. Que eu precisava amadurecer.
Yoná soltou uma risada curta.
— Eles estavam olhando para a capa, não para o conteúdo. Você ganhou corpo, mas ganhou algo mais importante: determinação. A persistência é mais importante que o talento puro.
O coração de Kauan disparou.
— O senhor está dizendo...?
— Estou dizendo que você está dentro do time de juniores do Grêmio Esportivo Progresso. Não para um teste, mas para integrar o elenco.
Era a chance. O alívio foi tão grande que Kauan quase cambaleou.
— E tem mais, Falcão — continuou Yoná. — Você é de longe, certo? Nós temos alojamento para os garotos de fora. Alimentação e moradia inclusas. Você só se preocupa em jogar e estudar.
Moradia e alimentação gratuitas. Era a garantia de que o sacrifício financeiro de seus pais chegaria ao fim.
Kauan sentiu os olhos marejarem, não de tristeza, mas de uma felicidade avassaladora. Ele mal conseguia agradecer.
— É a chance da minha vida, professor. Eu prometo que o senhor não vai se arrepender.
— Eu sei que não vou. Agora, volte para casa, converse com seus pais. Você se apresenta na próxima segunda-feira. E lembre-se: aqui, o jogo é de gente grande.
A notícia em casa foi recebida com a maior festa que a Vila Progresso já vira. Marta chorou e preparou a melhor macarronada que pôde. José Alfredo sorria, abraçando o filho. O Falcão finalmente estava voando para longe.
Até mesmo na escola, o clima mudou. Junior apertou a mão de Kauan com fervor. Caio e Bianca se calaram diante da notícia.
No final daquele dia, Kauan estava sentado no velho banco do Campo da Pedreira, ao lado de Arthur.
— Deu certo, Falcão. Você conseguiu.
— A gente conseguiu, Arthur. Agora é o começo de tudo.
A bola, por mais redonda que fosse, havia finalmente rolado na direção que Kauan tanto lutara para alcançar. Ele não estava no topo, mas estava na porta de entrada. E, pela primeira vez, ele não sentia a vergonha do fracasso, mas o peso doce da responsabilidade.
