O retorno para a mansão foi feito em um silêncio absoluto. No banco de trás do carro blindado, Victor olhava para as próprias mãos, sentindo que o sangue invisível daqueles jovens havia manchado sua pele de forma permanente. Alberto, ao seu lado, mantinha o olhar fixo na estrada, as feições de mármore imóveis sob a iluminação intermitente dos postes.

Ao entrarem na biblioteca, Alberto serviu duas taças. O cheiro de ferro e carvalho parecia impregnar o ar. O segredo não era mais um sussurro nas sombras; era um monstro devidamente exposto sob a luz elétrica.

— Eu estou cansado, Victor — confessou Alberto, sentando-se com um peso que parecia carregar séculos em cada vértebra. — Gerir a rede Patrones, manter esta fachada de poder e riqueza... tudo isso se tornou uma repetição insuportável. Eu vi impérios caírem e hotéis serem construídos sobre as cinzas de palácios. Nada muda. Só a fome permanece.

Victor levantou os olhos, as lágrimas secas marcando o rosto pálido.

— Você me salvou ou me condenou, Alberto? — Victor perguntou, olhando para as próprias mãos trêmulas que agora seguravam o destino de sua avó e o seu próprio.

Alberto caminhou até ele, a silhueta longa e esguia bloqueando a única saída da sala.

— Eu te dei o mundo, Victor. O preço é apenas a sua alma, algo que você já estava perdendo para a fome e para a humilhação. Aqueles rapazes teriam tirado tudo de você, e o tempo teria feito o resto. Eu apenas antecipei a sua libertação das regras mesquinhas dos homens.

— Eu não pedi por isso. Eu só queria um emprego.

— E eu queria um herdeiro. Alguém que não fosse um servo como Henrico, mas um sucessor. Eu posso te ensinar a gerir este império. Posso garantir que sua avó tenha os melhores médicos, as melhores camas e uma partida sem dor. Mas eu não quero mais caminhar sozinho por este corredor de séculos.

Alberto estendeu a taça de cristal para o jovem. O líquido lá dentro não era vinho, e ambos sabiam disso. O brilho nos olhos de Alberto era uma mistura de súplica e comando.

— Agora, escolha, Victor — continuou Alberto, a voz como um veludo frio. — Quer envelhecer como o Henrico, definhando até que seu corpo falhe e você seja enterrado em uma vala com um nome que ninguém lembrará? Ou quer ver o sol se pôr mil vezes sem nunca temer a escuridão? A liberdade na pobreza é apenas o direito de morrer de fome. A eternidade comigo é o poder de nunca mais ser uma vítima.

Victor olhou para a porta, pensando na pequena casa humilde e no cheiro de doença que o esperava lá. Depois, olhou para Alberto, o homem rico e vazio que oferecia um trono feito de sombras. Ele estendeu a mão, os dedos roçando o cristal frio da taça.

A noite lá fora parecia eterna, e o silêncio da mansão Patrones selou o pacto antes mesmo do primeiro gole.

Fim