No dia seguinte, Evandro mal conseguia se concentrar na escola. Ele só pensava na clareira, nos tambores, e nas palavras de Mestre João. "A coragem é como uma semente." Ele nunca tinha pensado que aprender a ser corajoso poderia ser algo que ele poderia praticar, assim como se pratica um esporte ou um instrumento.
Assim que a aula terminou, Evandro foi correndo pela trilha da fazenda. Quando chegou à clareira, Mestre João já o esperava, sentado em uma grande pedra, como no dia anterior. O som dos tambores ecoava suavemente, tocado por alguém que Evandro ainda não conseguia ver. O ambiente parecia mágico, como se tudo estivesse pronto para começar uma nova aventura.
— Você veio — disse Mestre João, levantando-se com um sorriso. — Está pronto para sua primeira aula?
Evandro hesitou, olhando para o chão. A verdade é que ele ainda estava com medo. E se não conseguisse? E se fosse muito difícil?
— Eu... não sei se estou pronto. E se eu não conseguir aprender? — disse ele, com uma voz baixa.
Mestre João riu suavemente e balançou a cabeça.
— Ninguém começa sabendo tudo, Evandro. A capoeira, assim como a vida, é algo que você aprende aos poucos. O importante é dar o primeiro passo. O resto, a gente descobre no caminho.
O mestre deu um passo para trás e começou a fazer os movimentos que Evandro já tinha visto antes. Movimentos fluidos, como uma dança, mas cheios de força e equilíbrio.
— Vamos começar com algo simples — disse Mestre João, parando e olhando para Evandro. — Este é o ginga, o movimento básico da capoeira. É como o coração da nossa arte. Você move seu corpo de um lado para o outro, mantendo o ritmo. Tente.
Evandro tentou imitar os movimentos do mestre, mas logo percebeu que não era tão fácil quanto parecia. Ele se desequilibrava, tropeçava nos próprios pés e sentia que estava fazendo tudo errado.
— Eu... acho que sou ruim nisso — disse Evandro, frustrado, enquanto quase caía para trás.
Mestre João observou com paciência, sem demonstrar nenhum sinal de impaciência.
— Ninguém começa sendo bom, Evandro. O que importa é não desistir. A ginga não é sobre fazer tudo perfeito de uma vez. É sobre encontrar o seu ritmo, o seu jeito. Tente de novo.
Evandro respirou fundo e tentou mais uma vez. Dessa vez, ele conseguiu se mover um pouco melhor, embora ainda estivesse longe de se sentir confiante. Mas Mestre João o encorajou.
— Está vendo? Já melhorou. Agora, é só praticar. A capoeira nos ensina a ter paciência com nós mesmos. Assim como o medo de crescer, você não precisa superar tudo de uma vez. Vai devagar, um passo de cada vez.
Evandro sorriu, ainda um pouco desconfiado de si mesmo, mas sentindo que, talvez, pudesse aprender.
— E agora, tente isso — disse Mestre João, mostrando um movimento de esquiva, abaixando-se e movendo o corpo para o lado. — É importante saber como se proteger, tanto na capoeira quanto na vida. Às vezes, a gente precisa se desviar dos obstáculos para continuar seguindo em frente.
Evandro tentou o movimento, e, para sua surpresa, foi mais fácil do que a ginga. Ele se abaixou e se moveu para o lado, sentindo o corpo reagir de maneira mais natural.
— Isso! Muito bem, Evandro! — exclamou Mestre João. — Está vendo? Com prática, as coisas vão ficando mais fáceis. O mesmo acontece quando a gente cresce. No começo, parece difícil, mas, com o tempo, você aprende a lidar com as dificuldades.
Evandro olhou para o mestre, começando a entender o que ele queria dizer. Talvez crescer fosse mesmo como aprender capoeira. No começo, ele tropeçava, se sentia perdido, mas, com paciência e prática, tudo podia melhorar.
— Mas, e se eu continuar com medo? — perguntou Evandro, ainda com algumas dúvidas.
Mestre João colocou uma mão no ombro dele, com um olhar sábio.
— O medo sempre vai existir, Evandro. Ele faz parte da vida. Mas o importante é o que você faz com ele. A cada vez que você enfrenta o medo, ele fica um pouco menor. E um dia, você vai perceber que já cresceu o suficiente para não ter mais medo de certas coisas. Outras, você vai continuar enfrentando, mas será mais forte.
Evandro sentiu algo diferente dentro de si. Ainda havia medo, mas, dessa vez, ele não se sentia sozinho. Ele sabia que, com o tempo, poderia aprender a ser corajoso, como Mestre João. E talvez, no fim das contas, crescer fosse mais sobre aprender do que ele imaginava.
— Vamos continuar? — perguntou o mestre, com um sorriso.
— Vamos! — respondeu Evandro, agora mais confiante.
E assim, o primeiro dia de aula terminou com Evandro sentindo que tinha dado seu primeiro grande passo. Não só na capoeira, mas também em direção a se tornar a pessoa corajosa que sabia que podia ser.
