CAPÍTULO 6


O sucesso tem um preço que nem todo mundo está disposto a pagar: a solidão do sacrifício. Largar o conforto de casa, o abraço da mãe e o cheiro da comida do pai é a prova de fogo de quem realmente quer vencer. No alojamento, a gente não só treina o corpo, mas forja o espírito.

O alojamento do Grêmio Esportivo Progresso (GEP) era um prédio antigo de dois andares, limpo, mas espartano. Camas de ferro, armários de metal e uma rotina militarmente organizada. Para Kauan, sair de casa foi a parte mais difícil. Abraçar Marta e José Alfredo na rodoviária foi um nó na garganta. Ele estava partindo para a oportunidade, mas deixava para trás seu porto seguro.

A vida no alojamento era um choque de realidade. As regras eram rígidas: hora para acordar, para comer, para estudar e para dormir. Não havia moleza.

Kauan foi colocado em um quarto com outros três garotos. Um deles era Rodrigo, um meia-armador de dezessete anos, extremamente habilidoso, mas com uma aura de superioridade.

— E aí, novato. De onde você veio? — perguntou Rodrigo, sem tirar os olhos do celular.

— Vila Progresso.

— Hã. Comunidade. Entendi. O professor Yoná gosta de reciclar. Bom, sou o Rodrigo. Meio-campo. Eu já era para estar no profissional, mas o técnico lá de cima está de birra. Eu já cheguei. Você, precisa mostrar serviço.

A arrogância de Rodrigo era um desafio constante. Ele menosprezava o esforço de Kauan, achando que o talento puro bastava.

Kauan, por sua vez, sentia a pressão de conviver com talentos iguais ou superiores ao dele. No Campo da Pedreira, ele era o astro; no GEP, era apenas mais um Falcão tentando voar.

A saudade era o inimigo mais traiçoeiro. Kauan ligava para casa todos os dias, ouvindo a voz cansada de sua mãe e a calma firme de seu pai.

— Tá se alimentando direito, filho? — perguntava Marta, preocupada.

— Tô sim, mãe. A comida é boa. É só... é só que não tem o seu tempero.

Ele também sentia falta das conversas rápidas com Ana Letícia, que, embora fossem sobre física ou história, tinham o poder de acalmar sua mente. Ele havia prometido a si mesmo que usaria a biblioteca do alojamento para não negligenciar os estudos.

Nos treinos, a competitividade era feroz. Cada disputa de bola era uma batalha. Kauan se destacava pela sua garra e por uma maturidade tática que Yoná havia notado. Ele corria por dois, recuperava a bola e fazia a transição com a velocidade que lhe rendeu o apelido.

Yoná exigia mais do que técnica. Ele exigia caráter.

— No futebol, o passe errado se conserta. O erro de caráter te tira do jogo para sempre. Entenderam? — gritava o técnico.

Kauan absorvia tudo como uma esponja. Ele via outros garotos, habilidosos como Rodrigo, relaxarem por acharem que já eram "jogadores", desperdiçando o tempo livre com distrações. Kauan, ao contrário, passava as noites estudando, conversando com Carol por mensagens sobre alongamento ou escrevendo para Arthur sobre a rotina.

A oportunidade veio mais rápido do que ele esperava. O GEP estava prestes a iniciar o Campeonato Estadual de Juniores, a principal vitrine da base.

Na véspera do primeiro jogo, Yoná reuniu o time para anunciar os titulares. Kauan estava apreensivo.

— No ataque, vou começar com o João e o Falcão.

Kauan mal ouviu o resto. Ele era titular. Ele havia conquistado a camisa.

Rodrigo, ao lado, murmurou, irritado:

— Pura sorte. O titular se machucou.

Kauan o ignorou. A sorte, ele sabia, era o momento em que o trabalho invisível encontra a oportunidade.

No dia seguinte, no vestiário, antes de entrar em campo, Kauan pegou o celular e mandou uma mensagem curta para Ana Letícia: Entre no jogo. Era o único sinal que ele podia dar.

Ao entrar no gramado iluminado pelo sol da tarde, com a camisa do GEP no peito, ele sentiu a realização. Não era a final, não era o profissional, mas era a primeira vitória sobre o destino. Ele se posicionou, respirou fundo e olhou para o campo, agora um gramado perfeito, não mais o Campo da Pedreira.

O apito inicial soou. Kauan era o Falcão, e ele estava pronto para voar. Ele tinha que provar a todos – a Yoná, a seus pais e a si mesmo – que seu sacrifício valia a pena. O jogo começou com a intensidade de uma decisão.