A manhã de domingo, 14 de abril, despertou com um céu de um azul tão nítido que parecia pintado à mão. O Titanic deslizava sobre um mar liso como um espelho, uma calmaria absoluta que trazia uma sensação de paz quase irreal. No salão de jantar da primeira classe, o serviço religioso conduzido pelo Capitão Smith unia vozes em hinos que pediam proteção aos que viajam pelo mar, enquanto o cheiro de café fresco e carvalho encerado perfumava o ar.

Isabella, sentada à mesa durante um almoço que parecia não ter fim — entre consommés e lagostas — observava o entusiasmo dos oficiais e empresários ao seu redor. A conversa era monótona, girando sempre em torno do mesmo eixo: a potência das máquinas.

— O capitão parece decidido — comentou ela mais tarde, ao encontrar Fillemon perto das estufas de ventilação do convés de passeio. — Ouvi dizer que acenderam as últimas caldeiras. Querem bater o recorde de velocidade do Olympic. Existe um orgulho vibrando em cada centímetro deste navio hoje. Eles acreditam que o tempo e o oceano estão sob nosso comando.

Fillemon, no entanto, não compartilhava daquela euforia. Ele passara a manhã observando os marinheiros e notara uma tensão sutil sob a cortesia dos uniformes brancos. Além disso, havia algo no clima que o inquietava fisicamente.

— A temperatura caiu dez graus em menos de duas horas, Isabella — observou ele, encolhendo-se dentro do casaco que já não parecia suficiente. — O ar não está apenas frio; ele está cortante, como se estivéssemos entrando em um necrotério gigante.

— É apenas o Atlântico Norte sendo ele mesmo, Miller — respondeu ela, tentando manter o otimismo que a cercava. — Os engenheiros dizem que o Titanic foi construído para ignorar essas variações. Ele é inafundável, lembra? A própria natureza parece ter se curvado para nos deixar passar.

Fillemon soltou uma risada amarga, olhando para a fumaça negra que saía das chaminés com uma intensidade furiosa. O navio estava correndo, desafiando a escuridão que se aproximava.

— O otimismo é uma doença perigosa quando se está no meio do nada — murmurou ele. — Eu sinto que algo está mudando no ar. Não é apenas o frio. É o silêncio do mar. Não há ondas, não há espuma... é como se o oceano estivesse prendendo a respiração, esperando por algo.

Isabella olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr em um tom alaranjado gélido. Ela queria acreditar na segurança das anteparas estanques e na autoridade do Capitão Smith, mas o olhar de Fillemon — um homem que aprendera a ler os perigos antes que eles o atingissem — plantou uma semente de dúvida em seu peito.

Enquanto a noite caía e os passageiros se recolhiam para o jantar de gala, o Titanic continuava sua marcha acelerada. No convés, o frio tornou-se insuportável para qualquer passeio prolongado. Dentro, a música da orquestra de Wallace Hartley abafava o som das máquinas, criando uma ilusão de imortalidade. Ninguém parecia notar que, na sala de rádio, os avisos sobre icebergs acumulavam-se sobre a mesa, ignorados pela pressa de chegar ao destino e pelo excesso de confiança em um gigante que, até então, parecia invencível.