Capítulo 6 – A Última Lição

 O tempo dentro do quarto parecia diferente agora. Mais lento. Mais calmo. Como se o universo respeitasse aquele momento de despedida.

Catarina estava mais fraca. Os olhos, quase sempre despertos, agora se abriam com esforço. O corpo lhe faltava, mas o espírito... não. A alma, enfim, descansava.

Gabriel continuava ao seu lado, segurando com firmeza a mão enrugada da bisavó. Já não havia pressa, nem receios. Somente presença.

Ela respirou fundo, uma última vez, e falou com a voz embargada, porém clara:

— Amar nunca foi o erro, meu querido. O erro foi o mundo tentar me convencer disso.

Fez-se um pequeno silêncio. Depois, com ternura, ela virou levemente o rosto para o bisneto e completou:

— Seja feliz, Gabriel. Com quem quiser. De qualquer jeito. Só... seja feliz. Porque no fim das contas, é a única coisa que vale a pena.

Gabriel sentiu um nó na garganta. Mas não chorou. Apertou com delicadeza a mão dela e sorriu. Um sorriso cheio de amor, de respeito e de gratidão.

Catarina retribuiu o gesto com um olhar sereno. E então, como quem termina um capítulo importante, fechou os olhos.

A respiração foi se acalmando.

E então... parou.

Não com dor, não com tristeza. Mas com a leveza de quem, enfim, havia contado sua história. De quem partia sem pendências.

O quarto permaneceu em silêncio. Um silêncio bonito, cheio de significado. Não mais o silêncio da solidão, mas o da paz.

Gabriel ficou ali por um tempo. Depois se levantou. Olhou mais uma vez para a caixa de madeira sobre a mesa de cabeceira. Não abriu. Já sabia o que havia dentro. E mais importante: agora sabia o que tudo aquilo significava.

Saiu do quarto com passos lentos. E quando cruzou a porta, sentiu que algo dentro dele tinha mudado. Uma coragem nova, uma liberdade que ele ainda não sabia nomear, mas que ardia no peito como promessa.

No corredor, o mundo o esperava. Grande, complexo, cheio de ruídos e de possibilidades.

E ele, agora, carregava uma certeza: amar vale a pena.

Sempre.