O tempo dentro do quarto parecia diferente agora. Mais lento. Mais calmo. Como se o universo respeitasse aquele momento de despedida.
Catarina estava mais fraca. Os olhos, quase sempre despertos, agora se abriam com esforço. O corpo lhe faltava, mas o espírito... não. A alma, enfim, descansava.
Gabriel continuava ao seu lado, segurando com firmeza a mão enrugada da bisavó. Já não havia pressa, nem receios. Somente presença.
Ela respirou fundo, uma última vez, e falou com a voz embargada, porém clara:
— Amar nunca foi o erro, meu querido. O erro foi o mundo tentar me convencer disso.
Fez-se um pequeno silêncio. Depois, com ternura, ela virou levemente o rosto para o bisneto e completou:
— Seja feliz, Gabriel. Com quem quiser. De qualquer jeito. Só... seja feliz. Porque no fim das contas, é a única coisa que vale a pena.
Gabriel sentiu um nó na garganta. Mas não chorou. Apertou com delicadeza a mão dela e sorriu. Um sorriso cheio de amor, de respeito e de gratidão.
Catarina retribuiu o gesto com um olhar sereno. E então, como quem termina um capítulo importante, fechou os olhos.
A respiração foi se acalmando.
E então... parou.
Não com dor, não com tristeza. Mas com a leveza de quem, enfim, havia contado sua história. De quem partia sem pendências.
O quarto permaneceu em silêncio. Um silêncio bonito, cheio de significado. Não mais o silêncio da solidão, mas o da paz.
Gabriel ficou ali por um tempo. Depois se levantou. Olhou mais uma vez para a caixa de madeira sobre a mesa de cabeceira. Não abriu. Já sabia o que havia dentro. E mais importante: agora sabia o que tudo aquilo significava.
Saiu do quarto com passos lentos. E quando cruzou a porta, sentiu que algo dentro dele tinha mudado. Uma coragem nova, uma liberdade que ele ainda não sabia nomear, mas que ardia no peito como promessa.
No corredor, o mundo o esperava. Grande, complexo, cheio de ruídos e de possibilidades.
E ele, agora, carregava uma certeza: amar vale a pena.
Sempre.
