No dia seguinte, Evandro acordou sentindo-se diferente. A primeira aula com Mestre João ainda estava fresca em sua mente. Ele havia tropeçado, errado os movimentos, mas algo dentro dele havia mudado. Pela primeira vez, ele sentia que poderia, aos poucos, aprender a ser corajoso. "Um passo de cada vez", como o mestre havia dito.
Na escola, tudo parecia normal até o intervalo, quando ele ouviu um som vindo do pátio que fez seu estômago revirar. Era uma risada alta, uma daquelas risadas maldosas que ele já conhecia. Quando se aproximou, viu um grupo de meninos mais velhos cercando Pietro, seu melhor amigo. Eles puxavam a mochila de Pietro e faziam piadas cruéis, rindo de seu tamanho.
— Ei, baixinho, você nunca vai crescer! — zombou um deles, balançando a mochila no ar.
Pietro tentava pegar de volta, mas os meninos eram maiores e mais rápidos. Evandro parou a poucos metros, o coração disparado. Ele conhecia essa sensação. Era o medo. E, como sempre, o medo lhe dizia para ficar quieto, para não se meter, para se afastar e deixar que aquilo passasse.
Mas então, uma lembrança surgiu em sua mente. As palavras de Mestre João ecoaram em sua cabeça: "A coragem não é a ausência do medo, Evandro. É o que você faz mesmo quando está com medo." Evandro sabia que não podia deixar Pietro sozinho. Ele sentiu suas pernas tremerem, mas também sentiu que aquele era o momento de agir.
Respirou fundo e se aproximou do grupo, mesmo que seu coração estivesse acelerado.
— Devolvam a mochila do Pietro! — disse ele, com a voz mais firme do que esperava.
Os meninos pararam por um segundo, surpresos com a coragem de Evandro. Ele geralmente era quieto, sempre na dele, e nunca se metia em confusão. Um dos meninos maiores olhou para ele, com um sorriso debochado.
— Ah, olha só quem decidiu aparecer! O que vai fazer, Evandro? — perguntou o menino, cruzando os braços.
Evandro sentiu o medo crescer dentro de si, mas lembrou das lições do mestre. Não era sobre não sentir medo, mas sim sobre enfrentá-lo. Ele deu um passo à frente, encarando o menino mais velho.
— Eu disse para devolver a mochila — repetiu Evandro, mais confiante.
Os outros meninos riram, mas o líder do grupo deu de ombros.
— Tá, tanto faz — disse ele, jogando a mochila de volta para Pietro. — A gente já estava entediado mesmo.
Os meninos se afastaram, ainda rindo e fazendo piadas, mas Evandro não deu importância. Ele se aproximou de Pietro, que pegava a mochila do chão com um olhar agradecido.
— Obrigado, Evandro — disse Pietro, respirando fundo, claramente aliviado.
Evandro sorriu, mas, por dentro, ele ainda sentia o coração bater forte. Ele havia enfrentado aqueles meninos, mas a verdade era que ele ainda estava com medo. No entanto, algo dentro dele mudou naquele momento. Ele percebeu que, mesmo com medo, ele foi capaz de agir. E isso era coragem.
— Não precisa agradecer — disse Evandro, tentando parecer tranquilo. — Somos amigos, certo?
Pietro assentiu, e os dois voltaram juntos para a sala de aula. Durante o caminho, Evandro pensou nas palavras de Mestre João. Talvez crescer fosse exatamente isso: aprender a enfrentar os medos, um pequeno passo de cada vez.
E naquele dia, Evandro deu mais um passo em direção à coragem. Ele sabia que ainda tinha muito o que aprender, tanto na capoeira quanto na vida. Mas agora ele entendia que, mesmo com medo, ele poderia ser corajoso.
