Miguel e Samuel permaneceram sentados no muro da praça por alguns minutos, sem saber por onde começar. A conversa que haviam combinado parecia muito mais simples quando ainda estava distante. Agora, com os dois frente a frente e nenhuma mensagem para servir de escudo, Miguel percebeu que não bastava encontrar as palavras certas. Precisava aceitar que talvez ouvisse coisas de que não gostasse, assim como Samuel teria de escutar algumas verdades que preferia não enfrentar. O movimento da praça seguia ao redor deles, com crianças correndo perto dos bancos, bicicletas atravessando a calçada e o barulho de uma moto que passou pela rua. Era estranho estar naquele lugar, onde haviam passado tantas tardes falando sobre qualquer coisa, e sentir que até o silêncio entre eles tinha se tornado diferente.

— Você quer começar? — perguntou Samuel.

Miguel soltou uma risada nervosa.

— Eu achei que você fosse começar.

— Por quê?

— Porque foi você que disse que a gente precisava conversar.

— E você concordou.

— Está vendo? A gente não consegue conversar nem para decidir quem vai conversar primeiro.

Samuel sorriu de leve, mas o sorriso desapareceu logo depois. Miguel também deixou de rir. A brincadeira havia surgido naturalmente, como acontecia antes, mas nenhum dos dois conseguiu usá-la para escapar do assunto por muito tempo.

— Eu não quero ficar brigado com você — disse Samuel. — Só que também não quero continuar tendo que explicar tudo o que faço.

Miguel abaixou a cabeça, observando os próprios tênis.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

— Estou tentando saber.

Samuel passou a mão pelos cabelos e olhou para a rua. Parecia estar escolhendo as palavras com cuidado, algo que Miguel raramente via nele. Desde pequenos, os dois tinham uma facilidade enorme para conversar sobre quase tudo, mas assuntos sérios costumavam ser resolvidos de outra maneira. Um fazia uma piada, o outro mudava de assunto, e, quando percebiam, já estavam falando sobre futebol, algum programa de televisão ou um plano absurdo para o fim de semana. Durante muito tempo, isso tinha funcionado. Agora, estavam descobrindo que algumas coisas não desapareciam só porque ninguém falava sobre elas.

— Eu fiquei chateado com o que você me disse — continuou Samuel. — Aquela parte de eu ter uma vida inteira em que você não faz falta. Você realmente acha que eu penso assim?

Miguel demorou a responder.

— Não sei.

— Como assim, não sabe?

— Eu sei que você se importa comigo. Não acho que tudo o que a gente viveu deixou de valer alguma coisa. Mas, ultimamente, eu fico com a sensação de que você está bem sem mim. E aí começo a pensar que talvez eu seja o único que ainda está tentando manter as coisas como eram.

Samuel ficou quieto por alguns segundos.

— Eu não sabia que você estava se sentindo assim.

— Eu também não sabia direito como explicar.

— Então por que você não falou comigo antes?

Miguel olhou para ele.

— Porque eu tinha medo de parecer idiota.

Samuel franziu a testa, sem entender.

— Idiota por quê?

— Por me importar tanto. Por ficar chateado porque você saiu com outras pessoas. Eu sabia que você tinha direito de fazer isso. Sabia que não podia ficar esperando que você estivesse disponível toda vez que eu quisesse fazer alguma coisa. Mas, quando acontecia, eu ficava mal mesmo assim. Aí eu tentava fingir que não era nada, até que uma hora ficava irritado com você por coisas que nem tinha explicado.

Samuel ouviu sem interromper. Miguel percebeu que estava falando mais do que pretendia, mas decidiu continuar.

— Eu também comecei a reparar em tudo. Se você sentava com o Caio, se falava mais com o André, se me chamava para sair ou se eu precisava ir atrás. Qualquer coisa virava um sinal de que você estava se afastando. Eu sei que isso não é justo, mas não conseguia parar.

Samuel apoiou as mãos no muro e ficou olhando para os próprios dedos.

— Eu acho que comecei a me afastar um pouco mesmo — admitiu.

Miguel sentiu o estômago apertar. Embora tivesse passado semanas tentando descobrir se aquilo era verdade, ouvir a confirmação diretamente de Samuel foi diferente. Por um instante, quis perguntar por quê, o que havia feito de errado e se existia alguma coisa que pudesse mudar. As perguntas vieram tão depressa que quase saíram todas juntas, mas ele se lembrou de que havia prometido ouvir.

Samuel continuou:

— Não foi porque eu deixei de gostar de você. Só comecei a fazer outras coisas. O Caio me chamou para jogar bola, depois conheci melhor o André, o pessoal começou a organizar o campeonato... Quando percebi, estava passando mais tempo com eles. E eu gostei disso. Não vou mentir para você.

Miguel assentiu devagar.

— Eu sei.

— Mas também fiquei com a sensação de que, quando eu estava com eles, você ficava esperando alguma coisa dar errado. Às vezes eu queria te contar uma história engraçada que tinha acontecido, mas pensava que você ia perguntar por que não estava junto. Outras vezes, eu queria fazer alguma coisa diferente e já ficava imaginando se você ia ficar chateado. Eu comecei a sentir que precisava escolher entre fazer o que eu queria e evitar uma discussão.

Miguel sentiu vontade de se defender. Poderia dizer que Samuel estava exagerando, que nunca o havia proibido de sair com ninguém ou que só queria continuar sendo incluído nos planos. Mas, antes que respondesse, percebeu que estava prestes a repetir exatamente o que o amigo havia acabado de explicar: transformar uma tentativa de conversa em uma disputa para decidir quem tinha sofrido mais.

— Eu não queria que você se sentisse assim — disse.

— Eu sei. Mas aconteceu.

Miguel respirou fundo. A resposta doeu porque não vinha acompanhada de uma acusação. Samuel não estava dizendo que ele era uma pessoa ruim, nem que havia estragado a amizade sozinho. Estava contando como se sentia, e Miguel precisava aceitar que suas intenções não apagavam o efeito de suas atitudes.

— Acho que eu fiquei com medo de você encontrar pessoas de quem gostasse mais do que gosta de mim — confessou. — E, em vez de admitir isso, comecei a reclamar das coisas que você fazia.

Samuel virou o rosto na direção dele.

— Você acha que eu posso gostar mais de outra pessoa só porque comecei a passar tempo com ela?

— Na hora, pareceu isso.

— Mas você sabe que não é assim.

— Agora eu sei. Quer dizer, eu sei que não dá para comparar tudo desse jeito. Só que eu ainda estou tentando entender.

Samuel soltou uma risada curta.

— Você sempre foi bom em pensar demais.

— E você sempre foi bom em fingir que não pensa em nada.

— Eu penso nas coisas!

— Pensa tanto que demora três dias para responder uma pergunta simples.

— Isso é diferente.

— Claro que é.

Os dois riram, dessa vez um pouco mais naturalmente. A conversa não tinha resolvido o que havia entre eles, mas aquela troca familiar fez Miguel se lembrar de quantas vezes tinham discutido por motivos pequenos durante a infância e terminado a tarde jogando videogame como se nada tivesse acontecido. Naquela época, era fácil acreditar que uma amizade duraria para sempre. Bastava combinar de se encontrar no dia seguinte.

Miguel se lembrou de uma tarde em que os dois tinham tentado construir uma cabana atrás da casa de Samuel usando pedaços de madeira que encontraram no quintal. A estrutura desabou antes mesmo de conseguirem colocar o telhado, e os dois passaram quase uma hora discutindo sobre quem havia escolhido as peças erradas. No fim, a mãe de Samuel apareceu, mandou que recolhessem a bagunça e ofereceu um lanche. Eles comeram sentados no chão da varanda, inventando uma história sobre a cabana ter sido destruída por um furacão.

— Você lembra da nossa cabana? — perguntou Miguel.

Samuel sorriu imediatamente.

— Aquela coisa que caiu em cinco minutos?

— Não caiu em cinco minutos. A gente levou quase uma hora para montar.

— E uns trinta segundos para destruir.

— Porque você colocou aquela madeira torta em cima!

— Você que disse que ela aguentava.

— Eu tinha oito anos, Samuel. Não era engenheiro.

— E eu tinha oito anos também. Você fala como se eu fosse responsável pela segurança da obra.

Miguel riu, e Samuel também. Por alguns instantes, os dois voltaram a ser os garotos que acreditavam que qualquer problema poderia ser resolvido com um lanche e uma nova brincadeira. Mas a lembrança terminou, e a praça voltou a ocupar o espaço ao redor deles.

— A gente fazia muita coisa idiota — disse Samuel.

— Continua fazendo.

— Pelo menos nisso não mudamos.

Miguel sorriu, mas logo ficou sério novamente.

— Acho que é isso que me assusta.

Samuel olhou para ele.

— O quê?

— A gente sempre achou que as coisas iam continuar iguais. Eu nunca pensei muito sobre o que aconteceria quando começássemos a fazer coisas diferentes. Quando você conheceu o Caio e os outros, eu fiquei tentando entender em que momento a nossa amizade tinha mudado. Como se tivesse acontecido alguma coisa de repente e eu precisasse descobrir onde foi que tudo começou a dar errado.

— Para mim também foi estranho — disse Samuel. — Eu estava acostumado a te contar tudo, a te chamar para jogar bola, a saber que você ia estar lá. Só que eu também comecei a querer fazer outras coisas. E fiquei com medo de falar isso porque sabia que você podia ficar chateado.

Miguel franziu a testa.

— Você tinha medo de me contar que queria passar tempo com outras pessoas?

— Não exatamente. Eu tinha medo de transformar uma coisa simples em uma discussão. Só que, tentando evitar isso, comecei a deixar de te contar algumas coisas. Às vezes eu dizia que estava ocupado, outras vezes só falava dos planos depois que já tinha combinado tudo com o pessoal. Achei que seria mais fácil assim.

— Mas não foi.

— Não. Porque você percebeu que eu estava escondendo algumas coisas e ficou ainda mais desconfiado.

Miguel ficou olhando para o chão. Era difícil ouvir aquilo sem sentir uma mistura de tristeza e alívio. Tristeza porque Samuel realmente havia começado a agir de maneira diferente, e alívio porque, pela primeira vez, havia uma explicação que não dependia de Miguel imaginar o que o amigo estava pensando. Samuel também havia ficado com medo. Também havia escolhido o silêncio em vez de uma conversa difícil. Os dois tinham tentado evitar um problema e, sem perceber, ajudaram a torná-lo maior.

— Eu queria que você tivesse me contado — disse Miguel.

— E eu queria que você tivesse perguntado sem já achar que eu estava fazendo alguma coisa contra você.

— Eu sei.

Samuel soltou o ar devagar.

— A gente está ficando muito ruim nisso.

— Em quê?

— Em ser amigo um do outro.

Miguel não conseguiu responder imediatamente. A frase parecia dura, mas havia sido dita sem raiva. Samuel não estava anunciando o fim da amizade. Estava reconhecendo que algo que antes acontecia com naturalidade agora exigia um esforço que nenhum dos dois sabia muito bem como fazer.

— Talvez a gente nunca tenha precisado aprender a fazer isso de verdade — disse Miguel.

— Como assim?

— A gente cresceu junto. Sempre esteve por perto. Nunca precisou pensar muito em como manter a amizade porque ela simplesmente estava ali. Agora parece que a gente precisa aprender a conversar, a combinar as coisas, a entender quando o outro quer fazer alguma coisa diferente.

Samuel passou a mão pelo rosto e soltou uma risada cansada.

— Parece trabalho.

— É porque você nunca gostou de fazer trabalho de escola.

— Eu continuo não gostando.

Miguel sorriu, mas a conversa havia aberto uma porta que nenhum dos dois poderia fechar tão facilmente. Eles estavam acostumados a acreditar que a amizade era algo que possuíam, como uma lembrança compartilhada ou um lugar ao qual sempre poderiam voltar. Agora começavam a perceber que também era uma relação que precisava ser cuidada, e que gostar de alguém não garantia que soubessem como fazer isso.

Depois de alguns minutos, Samuel perguntou sobre Davi.

— Vocês estão andando bastante juntos, né?

Miguel virou o rosto, surpreso com a mudança de assunto.

— Estamos conversando mais.

— Ele parece legal.

— É. Ele é.

Samuel mexeu na barra da camiseta, sem olhar diretamente para Miguel.

— Você gosta mais de ficar com ele agora?

A pergunta fez Miguel perceber que o amigo também carregava suas próprias inseguranças. Durante semanas, ele havia se convencido de que Samuel estava tão ocupado com os novos colegas que nem percebia o que acontecia do outro lado. Mas Samuel havia notado a aproximação com Davi, assim como Miguel percebia a amizade dele com Caio e os outros. A diferença era que Samuel não havia falado sobre isso até aquele momento.

— Eu gosto de conversar com ele — respondeu Miguel. — É diferente. A gente tem alguns interesses em comum e está se conhecendo melhor. Mas não é como se eu tivesse decidido parar de ser seu amigo.

Samuel assentiu, embora parecesse um pouco desconfortável.

— Eu sei. Só achei estranho ver vocês tão próximos de repente.

Miguel quase respondeu que agora Samuel sabia como era, mas percebeu que a frase só serviria para devolver a dor que havia sentido. Em vez disso, ficou alguns segundos em silêncio.

— Acho que eu também teria ficado estranho se tivesse visto você se aproximando de alguém e não soubesse como me encaixar nisso — admitiu. — Eu não quero que você pare de sair com seus amigos. Só preciso aprender a não achar que isso significa que você não quer mais ficar comigo.

Samuel olhou para ele.

— E eu preciso aprender a não agir como se toda conversa difícil fosse uma cobrança. Às vezes eu fico irritado antes mesmo de entender o que você está tentando dizer.

Miguel sorriu de leve.

— Isso acontece bastante.

— Não começa.

— Estou apenas apresentando fatos.

Samuel deu um empurrão de leve no ombro dele, e Miguel devolveu o gesto. A brincadeira durou pouco, mas ajudou a aliviar a tensão. Nenhum dos dois parecia pronto para transformar aquela conversa em um pedido formal de desculpas, e talvez fosse melhor assim. Ainda havia coisas que precisavam ser ditas, lembranças que doíam e hábitos que não mudariam apenas porque os dois haviam conseguido conversar por uma tarde.

Samuel olhou para o relógio.

— Você tem que ir embora?

— Não. Por quê?

— Porque eu queria passar na padaria. Estou com fome.

Miguel riu.

— Você acabou de ter uma conversa séria comigo e agora quer comer?

— Eu consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo.

— Duvido que consiga pensar e comer ao mesmo tempo.

— Você fala demais para alguém que ainda me deve aquela partida de videogame.

Miguel se levantou, sacudindo a poeira da calça.

— Aquilo foi há meses.

— E você continua fugindo.

Os dois começaram a caminhar em direção à padaria. No caminho, falaram sobre o campeonato de futebol, os trabalhos da escola e a possibilidade de Gabriel tentar organizar uma saída com todo o grupo no fim de semana. Samuel contou que Caio queria mudar as regras do campeonato porque não gostava da maneira como os times estavam sendo escolhidos. Miguel fez uma piada sobre Caio querer criar uma federação internacional para um torneio de bairro, e Samuel riu.

A conversa parecia mais leve, mas Miguel sabia que não era a mesma coisa que antes. Havia uma diferença entre conseguir passar alguns minutos juntos sem discutir e voltar a confiar plenamente um no outro. A primeira coisa havia acontecido naquela tarde. A segunda ainda precisaria de tempo.

Na padaria, Samuel pediu um salgado e um suco, enquanto Miguel escolheu um pão de queijo e um refrigerante. Sentaram-se perto da janela, de onde era possível ver o movimento da rua. Durante alguns minutos, falaram sobre a escola e fizeram comentários sobre as pessoas que passavam. Então Samuel ficou quieto, olhando para o copo.

— Tem outra coisa — disse.

Miguel pousou o refrigerante na mesa.

— Pode falar.

— Eu fiquei chateado quando você disse que eu só te chamava para não ficar feio.

Miguel sentiu o rosto esquentar.

— Eu estava com raiva.

— Eu sei. Mas pareceu que você achava que eu era capaz de fingir uma amizade só para não parecer um idiota.

Miguel abaixou os olhos. Não havia pensado na frase daquela maneira quando a enviou, mas conseguia entender por que Samuel tinha ficado magoado.

— Eu não acho isso de você — disse. — Na hora, eu estava tentando explicar como me sentia. Só que acabei falando como se soubesse o que você estava pensando.

— Foi isso que me deixou com raiva. Você falava como se já tivesse decidido tudo sobre mim.

Miguel assentiu devagar.

— Desculpa por isso.

Samuel pareceu surpreso com a resposta. Talvez esperasse outra explicação, uma tentativa de justificar a frase ou alguma lembrança do que ele próprio havia feito de errado. Miguel também se surpreendeu um pouco consigo mesmo. Pedir desculpas não apagava o que sentia, nem significava que Samuel não tivesse cometido erros. Significava apenas que conseguia reconhecer a parte que lhe cabia sem precisar esperar que o amigo fizesse o mesmo primeiro.

— Eu também devia ter avisado que não ia conseguir te encontrar naquela sexta-feira — disse Samuel. — Eu fiquei enrolado com o pessoal e achei que dava tempo de fazer as duas coisas. Quando percebi, já estava tarde. E, depois, fiquei na quadra porque estava ajudando a organizar o campeonato. Devia ter te explicado isso melhor.

— Eu vi você lá.

— Eu sei. Vi quando você passou pelo portão.

Miguel ergueu os olhos.

— Você me viu?

— Vi. Achei que você fosse entrar.

— Eu estava pensando nisso.

Samuel mexeu no guardanapo que estava sobre a mesa.

— Eu queria que você entrasse também. Só não sabia se você ainda queria ficar comigo depois de ter cancelado o encontro.

Miguel soltou uma risada incrédula.

— Então nós dois ficamos esperando o outro fazer alguma coisa?

— Parece que sim.

— Isso é muito idiota.

— Bastante.

Os dois riram, mas dessa vez havia um pouco de tristeza misturada à graça da situação. Miguel se lembrou de quantas vezes havia imaginado Samuel rindo com os novos amigos enquanto ele ficava sozinho, acreditando que o amigo nem se lembrava dele. Agora descobria que, naquela tarde, Samuel também havia ficado esperando uma reação que não veio. Não era exatamente a mesma dor, mas era suficiente para mostrar que a distância entre os dois não tinha sido construída por uma única pessoa.

— Acho que a gente precisa parar de esperar que o outro adivinhe as coisas — disse Miguel.

— Concordo. Mas você vai ter que me avisar quando estiver chateado, em vez de guardar tudo até explodir.

— E você vai ter que parar de fugir das conversas porque acha que eu vou ficar bravo.

Samuel fez uma expressão pensativa.

— Parece justo.

— Você está concordando comigo muito rápido. Está passando mal?

— Não estraga o momento, Miguel.

Ele riu, e Samuel também. Por alguns segundos, Miguel sentiu que estavam perto de recuperar a antiga naturalidade. Mas, quando terminaram de comer e saíram da padaria, os dois seguiram em silêncio por parte do caminho. Não era um silêncio desconfortável como o do início da tarde, mas também não era exatamente igual ao que compartilhavam quando eram crianças. Havia coisas que ainda não sabiam como dizer, e talvez precisassem aprender a conviver com essa incerteza sem transformar cada pausa em um problema.

Na esquina onde costumavam se despedir, Samuel parou.

— Você vai jogar bola no sábado?

Miguel pensou antes de responder.

— Acho que vou. Se vocês ainda precisarem de alguém para completar o time.

Samuel franziu a testa.

— Não precisa falar desse jeito. Você é meu amigo, não um reserva que eu chamo quando falta gente.

Miguel sorriu, um pouco envergonhado.

— Foi mal. Ainda estou tentando parar de falar essas coisas.

— Eu percebi.

Samuel ajeitou a mochila no ombro.

— Se quiser ir, vai. Se não quiser, tudo bem também. Só não quero que você ache que precisa participar de tudo para continuar sendo meu amigo.

Miguel assentiu. A frase ainda trazia uma pequena pontada, mas agora conseguia ouvi-la de outra maneira. Samuel não estava dizendo que não queria sua companhia. Estava tentando estabelecer um espaço em que os dois pudessem escolher estar juntos sem que isso se transformasse em uma obrigação.

— Eu vou — respondeu Miguel. — Mas quero combinar alguma coisa com você outro dia. Só nós dois.

Samuel sorriu.

— Pode ser. A gente vê um dia.

Miguel quase reclamou da falta de uma data específica, mas segurou a resposta. Não queria transformar um convite em mais uma cobrança. Os dois se despediram, e Samuel seguiu pela rua em direção à própria casa.

Miguel continuou andando devagar. Sentia-se melhor do que quando havia chegado à praça, embora soubesse que a conversa não tinha resolvido tudo. Samuel ainda faria planos com os novos amigos. Miguel ainda sentiria ciúmes em alguns momentos, talvez ficasse inseguro quando não fosse incluído em alguma atividade e precisasse se lembrar de que uma amizade não era uma competição. Também haveria dias em que Samuel interpretaria suas perguntas como cobranças, e outros em que Miguel precisaria reconhecer que estava esperando demais do amigo.

O que havia mudado era que, pela primeira vez, os dois tinham conseguido falar sobre essas coisas sem transformar cada frase em uma tentativa de vencer a discussão.

Quando chegou em casa, Miguel encontrou uma mensagem de Davi perguntando se ele havia terminado de escrever a história que estava tentando organizar. Miguel respondeu que ainda não, mas que havia conseguido avançar um pouco. Davi mandou uma mensagem dizendo que, um dia, os dois precisariam trocar os textos para ler o trabalho um do outro. Miguel concordou e guardou o celular.

Depois, abriu o caderno sobre a mesa. Releu algumas páginas da história que havia começado semanas antes e percebeu que o personagem principal estava preso a uma ideia antiga sobre como a vida deveria funcionar. Ele acreditava que, se fosse bom o bastante e fizesse tudo certo, as pessoas permaneceriam ao seu lado e os planos dariam certo. Miguel havia escrito aquilo sem pensar muito, mas agora a ideia parecia familiar demais.

Pegou a caneta e acrescentou algumas linhas. O personagem não precisava deixar de se importar com as pessoas, nem aprender a viver como se ninguém fosse importante. Precisava apenas entender que não podia escolher por elas, assim como não podia controlar todas as coisas que aconteciam em sua própria vida.

Miguel parou de escrever e releu o trecho. Não sabia se aquela seria a versão definitiva, nem se conseguiria terminar a história. Mas, dessa vez, não riscou as frases nem começou outra página. Deixou o caderno aberto sobre a mesa e foi ajudar a mãe com o jantar.

Naquela noite, antes de dormir, pensou novamente na conversa com Samuel. Ainda havia um pouco de mágoa, e algumas palavras ditas durante a discussão continuavam incomodando. Não seria possível simplesmente apagá-las, como se nunca tivessem existido. Também não havia garantia de que a amizade voltaria a ser o que era antes. Talvez não voltasse. Talvez, aos poucos, os dois encontrassem uma maneira diferente de continuar próximos, com novos interesses, outros amigos e menos expectativas que nenhum deles havia se comprometido a cumprir.

Miguel não tinha certeza de nada disso. Pela primeira vez, porém, percebeu que não precisava ter certeza naquela noite.

A amizade com Samuel havia começado muito antes de qualquer um dos dois entender o que significava crescer. Agora, os dois estavam tentando descobrir como continuar amigos enquanto aprendiam a ser pessoas diferentes. Não seria uma tarefa simples, e uma única conversa não bastaria para mudar os hábitos que haviam construído durante anos. Mas alguma coisa tinha começado naquela tarde, quando ambos finalmente pararam de falar apenas sobre o que o outro fazia de errado e admitiram o próprio medo.

Na manhã seguinte, Miguel acordaria, iria para a escola e encontraria Samuel conversando com os outros colegas. Talvez sentisse um incômodo. Talvez conseguisse agir com mais tranquilidade. De qualquer maneira, a vida continuaria acontecendo, sem esperar que os dois resolvessem todas as suas dúvidas.

E, aos poucos, Miguel começava a entender que amadurecer não significava deixar de sentir medo de perder alguém. Significava aprender a não deixar que esse medo decidisse tudo por ele.