1972
Para Carolina, água é liberdade. E seus banhos no rio são como um escape, além da beleza das águas de Entre Rios, ali na água, Carolina se sentia como um peixe; ele apenas segue em frente. Ser adolescente é uma fase de rebeldia, queremos liberdade a todo custo. Carolina sentia que nasceu no tempo errado, enquanto esperavam que ela se casasse, cuidasse da casa e ali ficasse a servir, seus planos eram outros.
— O que esperam de mim? Que eu fique com o filho do dono do açougue? Jamais! Isso não é vida...
— Carolina, minha filha! Eu quero você feliz, se você gosta de brincar no rio, está tudo bem, mas quando você invade a fazenda dos outros, você acaba se complicando.
— É muito mais implicação dele, eu sempre tomei cuidado pra não pisar nas plantações, e então ele corre atrás de mim, nesse ponto, é impossível que eu consiga tomar cuidado... Mas eu não tenho medo dele!
— Eu fico preocupada, você está se tornando falada e aquele homem morto no rio... Não sei o que pensar.
— Acha que fui eu? — perguntou Carolina — Acredita que eu seria capaz de matar um homem daquele tamanho? Eu juro que jamais faria algo do tipo!
— Calma! — pediu Eugênia — Você é minha filha e eu conheço você. É que eu tenho medo do que possa acontecer. Você não consegue, pelo menos, ser mais paciente com o Jonas Ricardo?
— Consigo sim. Eu só não consigo aceitar que ele seja algum ser superior. Não sei por qual razão os homens acreditam que a mulher é sua propriedade! E é exatamente essa a razão pra que eu não queira me casar.
— O Jonas Ricardo é bravo por querer proteger você. E sabe, imagino que um dia você vai poder ser independente e não se casar, mas eu penso que por agora, nós mulheres precisamos de um marido e com esse comportamento, você não vai conseguir...
Carolina se mostrava estressada e cansada.
— É sobre isso mãe! Não quero ter que esperar, não quero ter que me sujeitar e algo que eu não queira.
— E você não pensa em se tornar uma professora? A gente pode te apoiar...
— De jeito nenhum! — respondeu um pouco ríspida — Eu quero mais na minha vida! Eu sempre contei pra vocês, eu quero ir viver em Curitiba.
— Carolina...
— Mãe...
Paulo Augusto não gostava dessas invasões de Carolina, e na realidade ela não fazia nada além de ir ao rio e ficar brincando por lá. Ele não dizia, mas a razão era por ela não ter ligado para a autoridade que ele julgava ter. E esse desafeto já aconteceu no primeiro encontro deles quando ele pediu que ela saísse do rio e rispidamente ela respondeu:
— Você não manda no rio!
Automaticamente, Paulo Augusto criou ali uma antipatia por aquela menina.
— Vai me pagar por ser desobediente.
— Não me importo! — Respondeu ela, dando risada.
Tininha nunca soube exatamente o que havia acontecido para que ele começasse a criar ódio pela menina do rio, mas ela sabia que Paulo Augusto era um homem complicado. Quando estavam sozinhos, a situação era outra, ele era agressivo, um homem horrível.
— Você não cansa de chorar? — Perguntou ele — Não é por causa daquela criança, não é mesmo?
— Era meu filho. Não tem como eu não chorar!
— Tem que parar de ser sentimental. Imagine a criança hoje em dia sabendo que tinha uma mãe igual e você? Seria um desgosto enorme.
— Paulo, eu não sou feliz!
— Vai ficar comigo até quando eu quiser... — Respondeu rindo, enquanto ela dava risada.
Tininha não comentava, mas sabia a verdade sobre o primeiro homem morto no rio. Sempre que estava nervosa, ela acabava rezando, pedindo uma luz, pedindo uma ajuda divina.
"Minha santinha, me ajuda! Eu não aguento mais conviver com um assassino! Preciso de forças, ou eu vou ficar louca!"
Tempos atrás, Paulo Augusto chegou em casa com um homem que havia emprestado dinheiro para ele e ele acabaria pagando a dívida com parte de sua fazenda. E foi chamando o homem para conhecer a fazenda que ele acabou lhe matando e jogando no rio. Tininha presenciou a cena, mas escondeu isso de Paulo, com medo de que o mesmo acontecesse com ela.
Com medo, sempre era conivente com a fantasia de que a assassina seria uma menina, mas quando Vandinho apareceu e Paulo Augusto seguiu com uma espingarda atrás de Carolina, ela finalmente parece ter encontrado a coragem necessária.
"Minha santinha, me ajuda! Me perdoa, eu preciso fazer alguma coisa! Eu..." Foi neste instante que ela sentiu que precisava fazer alguma coisa, mesmo que fosse no impulso.
Ao ver Carolina, Paulo resolveu mirar nela, mas antes de atirar sentiu uma grande pontada em suas costas e ao mesmo tempo uma dormência em todo o corpo. A espingarda caiu no chão e ele não conseguia se mover. Queria se virar de costas mas não conseguia; sabia que tinha mais alguém ali, mas não sabia quem.
Tininha estava sem reação, soltou a faca que havia apunhalado em Paulo e Carolina acabou presenciando ela ali, que fingiu ter acabado de encontrar o corpo do marido.
— Você matou o meu marido! — Afirmou ela.
— Não! Eu juro que eu não fiz nada! — Carolina estava assustada e queria fugir do local. — Por favor, acredita em mim!
— Vai embora Carolina, foge! Vai embora! — Gritava Tininha.
Sem conseguir reagir, Carolina apenas correu, queria chegar em casa e conseguir ajuda de sua mãe, a única pessoa que confiava nela. Carolina queria liberdade, mas infelizmente ficou presa na história da cidade por um crime que não cometeu. Uma adolescente imatura, sonhadora, agora se via diante de uma situação que ninguém gostaria: ir presa por ter matado alguém.
Continua...
