O ar da noite de 14 de abril não era apenas frio; era uma lâmina invisível que punia quem se atrevesse a deixar o calor das cabines. O mar estava de um espelhamento assustador, sem uma única crista de espuma para denunciar a presença de qualquer obstáculo. No convés de passeio, em um recanto onde as sombras das baleeiras ofereciam um refúgio contra os olhares curiosos, Isabella e Fillemon compartilhavam o silêncio da noite estrelada.
Isabella estava envolta em seu casaco de pele, mas o tremor em suas mãos não vinha apenas da temperatura. Fillemon, ao seu lado, observava a imensidão negra com uma inquietação que não conseguia aplacar.
— Veja como as estrelas parecem próximas — sussurrou Isabella, quebrando o silêncio. — É como se pudéssemos tocá-las se subíssemos apenas mais alguns metros no mastro.
Fillemon tirou do bolso o relógio de prata que pertencera ao homem cujo nome ele roubara. Ele abriu a tampa metálica, observando o movimento mecânico dos ponteiros sob a luz fraca de uma lâmpada do convés.
— O tempo parece correr diferente aqui no meio do nada — comentou ele, a voz rouca. — São quase onze e quarenta. Em poucos dias, estaremos em Nova York. Você voltará para os seus concertos e eu... eu tentarei encontrar meu lugar.
Isabella olhou para o relógio dele e depois para o rosto de Fillemon.
— Você fala como se estivéssemos em mundos diferentes, Miller. Mas olhe para este navio. Aqui, neste momento, somos apenas dois passageiros sob o mesmo céu.
No exato instante em que os ponteiros marcaram 23h40, um som estranho interrompeu a conversa. Não foi uma explosão, nem um solavanco violento. Foi um ruído surdo, uma vibração profunda que pareceu percorrer toda a extensão de aço do Titanic, vindo das profundezas do casco estibordo.
Fillemon e Isabella olharam simultaneamente para a amurada.
— O que foi isso? — perguntou Isabella, a voz falhando. — Parece que... tropeçamos em algo.
Fillemon inclinou-se sobre o corrimão, estreitando os olhos na escuridão. Por um breve segundo, ele viu uma massa monumental de gelo, mais alta que o próprio convés, deslizando silenciosamente ao lado do navio. O som que se seguiu foi o de mil facas raspando contra uma lata de conservas — um rangido metálico, agudo e prolongado, que fez os dentes de Fillemon vibrarem.
— Gelo — murmurou Fillemon, sentindo o sangue congelar nas veias. — Nós batemos em um iceberg.
Alguns pedaços de gelo saltaram para dentro do convés, brilhando como diamantes sob as luzes elétricas. Isabella estendeu a mão para pegar um fragmento, mas Fillemon a puxou pelo braço.
— Olhe para o relógio, Isabella — disse ele, apontando para o mostrador que ainda brilhava em sua mão. — Guarde este momento. Onze e quarenta.
Longe dali, no ninho de corvo, os vigias Frederick Fleet e Reginald Lee ainda sentiam o coração disparado após tocarem o sino três vezes. No passadiço, o Capitão Smith corria para encontrar o oficial Murdoch. Para a maioria dos passageiros, o tremor fora apenas um detalhe, um leve incômodo que nem sequer derrubara as peças de xadrez nas mesas de jogo. Mas para Fillemon, que sentia o navio vibrar de uma forma doente, aquele era o som do início do fim. O gigante de aço fora ferido, e o oceano, paciente e escuro, começava a reivindicar seu espaço.
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