O último mês de aulas chegou trazendo um calor que parecia ter tomado conta da cidade inteira. As manhãs começavam com o barulho dos ventiladores nas salas, as tardes se arrastavam entre provas e trabalhos, e os corredores da escola estavam cheios de conversas sobre férias, viagens, festas e planos que mudavam a cada dia. Alguns alunos já contavam os minutos para o encerramento do ano letivo, enquanto outros começavam a demonstrar preocupação com as notas e com as decisões que precisariam tomar nos meses seguintes. Miguel observava tudo aquilo com uma sensação estranha. Durante muito tempo, o fim das aulas significava apenas mais tempo para ficar com Samuel, jogar videogame, andar pela cidade e inventar alguma coisa para fazer quando os dois estivessem entediados. Agora, pela primeira vez, ele se perguntava como seria aquele período se as coisas não acontecessem exatamente como antes.
Naquela segunda-feira, chegou à escola com a mochila pendurada em um ombro e um trabalho de história que havia terminado na noite anterior. Encontrou Gabriel perto do portão, tentando equilibrar um pacote de biscoitos e uma garrafa de água enquanto procurava alguma coisa no celular.
— Você está vendo isso? — perguntou Gabriel, mostrando a tela.
— Se for mais um vídeo de alguém caindo, eu já vi o suficiente para esta vida.
— Não é vídeo de queda. É o calendário das provas finais. O professor colocou a data da avaliação de matemática na mesma semana do trabalho de geografia.
Miguel olhou para a tela e fez uma careta.
— Isso é uma tentativa de acabar com a juventude brasileira.
— Vou escrever uma carta de reclamação.
— Escreve em nome dos dois. Você tem uma letra melhor.
Gabriel guardou o celular, e os dois entraram na escola conversando. No corredor, encontraram Rebeca, que estava contando para uma colega sobre um curso que pretendia fazer nas férias. Ela queria aproveitar o período para aprender algumas coisas que poderiam ajudá-la no ano seguinte, embora ainda estivesse decidindo se teria tempo para conciliar o curso com as outras atividades.
— Você já sabe o que vai fazer nas férias? — perguntou ela a Miguel, depois de se despedir da colega.
— Dormir até tarde, provavelmente.
— Esse é o seu plano inteiro?
— Estou trabalhando nos detalhes.
Gabriel deu uma risada.
— Ele também pretende escrever um livro, aprender três idiomas e conhecer o mundo. Só precisa decidir em que ordem vai fazer tudo isso.
Miguel empurrou o ombro do amigo, fingindo indignação.
— Vocês estão muito preocupados com a minha vida.
— Alguém precisa estar — respondeu Rebeca.
Os três riram e seguiram para a sala. Miguel gostava daquela facilidade, da maneira como conseguia brincar com os amigos sem precisar analisar cada frase em busca de algum significado escondido. Mesmo depois das últimas semanas, Gabriel e Rebeca continuavam sendo parte importante de sua rotina. Não estavam sempre disponíveis, nem concordavam com tudo o que ele dizia, mas tinham permanecido por perto quando ele precisou conversar. Aos poucos, Miguel começava a perceber que as amizades não precisavam ser idênticas para terem valor. Cada uma oferecia alguma coisa diferente, e talvez fosse injusto esperar que uma única pessoa ocupasse todos os espaços de sua vida.
Samuel chegou alguns minutos depois, acompanhado de Caio e André. Estava contando uma história sobre um jogo de futebol do fim de semana e gesticulava tanto que quase esbarrou em um aluno que passava pelo corredor. Quando viu Miguel, ergueu a mão em cumprimento.
— E aí, cara.
— E aí.
Samuel se aproximou e olhou para a mochila dele.
— Você terminou o trabalho de história?
— Terminei ontem.
— Posso dar uma olhada depois? Acho que o meu ficou pequeno demais.
Miguel fez uma expressão desconfiada.
— Você quer olhar ou copiar?
— Quero me inspirar.
— Essa é a palavra que vocês usam hoje em dia?
Samuel riu.
— Depois eu te pago um salgado.
— Agora estamos falando a minha língua.
A conversa durou pouco, porque o sinal tocou e todos precisaram entrar na sala. Ainda assim, Miguel percebeu que não ficou esperando alguma coisa a mais. Não tentou descobrir por que Samuel havia chegado com os outros, nem interpretou o fato de o amigo ter falado com ele por alguns segundos como sinal de que tudo estava resolvido. Eles tinham conversado, feito uma brincadeira e seguido com o dia. Era uma coisa simples, mas Miguel estava aprendendo a valorizar a simplicidade sem exigir que ela significasse mais do que realmente significava.
Durante as semanas seguintes, a rotina foi se reorganizando aos poucos. Miguel e Samuel voltaram a conversar com mais frequência, mas já não passavam todos os intervalos juntos. Em alguns dias, Samuel ficava com Caio e André, enquanto Miguel conversava com Davi ou acompanhava Gabriel e Rebeca até a cantina. Em outros, os dois se encontravam na saída e caminhavam juntos por algumas ruas antes de seguirem para casa. Às vezes combinavam de jogar videogame ou assistir a alguma coisa no fim de semana. Nem todos os planos davam certo, e nem sempre a ausência de um significava alguma coisa para o outro.
Houve uma tarde em que Samuel cancelou um encontro porque precisava ajudar em casa. Miguel sentiu uma pequena frustração, mas respondeu que estava tudo bem e aproveitou o tempo para terminar um texto que havia começado. Em outra ocasião, Miguel combinou de ir à padaria com Davi e só depois percebeu que havia esquecido de avisar Samuel sobre uma partida de futebol que tinham comentado na escola. O amigo ficou chateado, e os dois precisaram conversar sobre o assunto. Não foi uma discussão enorme, mas também não foi resolvida com uma brincadeira. Miguel pediu desculpas, Samuel explicou por que havia ficado incomodado, e os dois combinaram de tentar ser mais claros quando fizessem planos.
Era estranho descobrir que uma amizade podia continuar existindo mesmo depois de algumas decepções. Antes, Miguel acreditava que qualquer desentendimento importante era sinal de que alguma coisa estava se quebrando. Agora começava a entender que algumas relações precisavam passar por conversas desconfortáveis para encontrar um jeito mais honesto de continuar. Isso não significava que todas as amizades seriam permanentes, nem que qualquer problema poderia ser resolvido. Significava apenas que ele não precisava tratar cada dificuldade como se fosse o começo de um fim inevitável.
Davi também continuava presente, embora a amizade dos dois tivesse encontrado seu próprio ritmo. Eles conversavam durante as aulas, trocavam recomendações de filmes e, de vez em quando, ficavam depois da escola para comer alguma coisa na padaria. Miguel descobriu que Davi gostava de caminhar pela cidade sem pressa, principalmente pelas ruas mais antigas, onde ainda havia casas com fachadas que pareciam ter parado em outra época. Davi, por sua vez, começou a ler alguns dos textos que Miguel escrevia. Nem sempre gostava das histórias, e não tinha o menor problema em dizer isso.
— Você não pode terminar todas as histórias com o personagem olhando pela janela e pensando na vida — comentou Davi certa tarde, enquanto devolvia um caderno.
Miguel ergueu as sobrancelhas.
— Posso, sim. É uma escolha artística.
— É preguiça.
— Você está ficando muito atrevido para alguém que desenha mãos com seis dedos.
Davi olhou para ele, indignado.
— Aquilo foi uma experiência de perspectiva.
— Foi uma mão com seis dedos.
Os dois riram, e Miguel pegou o caderno de volta. Davi havia feito algumas anotações nas margens, sugerindo que ele desenvolvesse melhor uma conversa entre os personagens e mudasse o ritmo de uma cena. Miguel não concordava com tudo, mas gostava de perceber que alguém estava levando seus textos a sério o suficiente para apontar os problemas. Durante muito tempo, havia abandonado histórias porque tinha medo de que não ficassem tão boas quanto imaginava. Agora começava a entender que terminar alguma coisa também significava aceitar que ela poderia ser melhorada depois.
Em uma das tardes, Davi contou que talvez passasse parte das férias na casa de um parente em outra cidade. Ainda não estava decidido, porque dependia de alguns compromissos da família, mas ele parecia animado com a possibilidade de conhecer lugares diferentes e fazer alguns desenhos.
— Você vai embora? — perguntou Miguel, antes de perceber o peso que havia colocado na pergunta.
Davi olhou para ele.
— Por algumas semanas, talvez. Não vou mudar de planeta.
— Eu sei.
— Parece que você está pensando em organizar uma cerimônia de despedida.
Miguel riu, um pouco sem graça.
— Não estou. Só perguntei.
Davi fechou o caderno.
— Eu também vou sentir falta de conversar com o pessoal daqui, mas quero aproveitar se der certo. Faz tempo que estou querendo conhecer aquela cidade.
Miguel assentiu. A primeira reação havia sido imaginar que sentiria falta da companhia de Davi, que as conversas diminuiriam e que talvez a amizade perdesse um pouco da força por causa da distância. Era uma preocupação compreensível, mas ele percebeu como sua cabeça ainda tentava transformar qualquer mudança em uma ameaça. Davi não estava abandonando ninguém. Estava falando de uma possibilidade que o animava, e Miguel queria ser capaz de ficar feliz por ele sem pensar imediatamente no espaço que ficaria vazio.
— Espero que dê certo — disse. — E você vai ter que me mostrar os desenhos.
— Se eu conseguir fazer alguma coisa que preste.
— Você fala isso como se eu não conhecesse seus desenhos.
— E você fala como se eu não conhecesse suas histórias.
Miguel sorriu.
— Está bem. Vamos fazer um acordo. Você tenta terminar os desenhos, e eu tento terminar a história.
— Acho que eu saio perdendo.
— Você pode escolher qual história quer ler primeiro.
Davi pensou por um instante.
— Isso melhora a proposta.
O assunto mudou para as férias, e os dois começaram a falar sobre lugares que gostariam de conhecer. Miguel contou que tinha vontade de visitar cidades históricas, conhecer museus e passar alguns dias em uma cidade grande, onde pudesse andar pelas ruas observando as pessoas e imaginando as histórias de cada uma. Davi disse que gostaria de desenhar prédios antigos, estações de trem e praças. Nenhum dos dois sabia quando conseguiria fazer essas coisas, mas, dessa vez, Miguel não sentiu necessidade de transformar os desejos em promessas. Podiam ser planos para o futuro, e o futuro não precisava estar completamente definido para continuar sendo interessante.
Naquela mesma semana, Rebeca contou que havia sido aceita em um curso de férias que queria fazer havia algum tempo. Ela estava feliz, mas também preocupada com a possibilidade de não conseguir acompanhar tudo. Gabriel, por sua vez, começou a falar mais sobre procurar uma atividade que pudesse fazer durante o recesso. Queria ganhar algum dinheiro, aprender coisas novas e aproveitar melhor o tempo livre, embora ainda não tivesse decidido exatamente como organizaria os dias.
Miguel ouviu os dois conversarem no intervalo e percebeu que, mesmo dentro daquele grupo, cada pessoa começava a olhar para uma direção diferente. Não era uma ruptura. Gabriel continuava fazendo piadas ruins, Rebeca continuava reclamando quando ele deixava trabalhos para a última hora, e os três ainda encontravam tempo para conversar sobre as coisas que aconteciam na escola. Mas havia planos novos, interesses que se desenvolviam e compromissos que começavam a ocupar o lugar de algumas tardes livres.
— A gente devia combinar alguma coisa antes de as férias começarem — disse Rebeca, enquanto os três guardavam os materiais.
— Um passeio? — sugeriu Miguel.
— Pode ser. Só não quero que vocês inventem um plano enorme e depois ninguém apareça.
Gabriel apontou para Miguel.
— Ele é responsável por isso. Vai dizer que quer conhecer cinco cidades, atravessar o estado e voltar para casa antes do jantar.
— Eu tenho ambições — respondeu Miguel.
— Você tem dificuldade para escolher uma padaria.
Rebeca começou a rir, e Miguel jogou uma bolinha de papel na direção de Gabriel. O papel acertou a mochila dele, e os três saíram da sala ainda discutindo sobre quem deveria organizar o passeio. No fim, combinaram de passar uma tarde na praça, comprar alguma coisa para comer e caminhar até um parque nos arredores da cidade. Não era um plano grandioso, mas todos concordaram que seria bom fazer alguma coisa juntos antes do encerramento das aulas.
Naquela noite, Miguel começou a pensar em como havia mudado desde o início do semestre. Não de uma maneira que pudesse ser medida por alguma conquista específica, nem porque tivesse encontrado respostas para todas as dúvidas. Ainda sentia ciúmes em alguns momentos, ainda ficava inseguro quando alguém importante para ele parecia distante e ainda tinha o hábito de imaginar o pior quando não entendia uma situação. Mas agora conseguia reconhecer esses sentimentos antes de transformá-los em acusações. Estava aprendendo a perguntar, a ouvir e a admitir quando não sabia o que fazer.
Também começava a olhar para a própria rotina com mais atenção. Ajudava a mãe em casa sem esperar que ela pedisse todas as vezes, dedicava algum tempo aos textos que escrevia e pesquisava possibilidades de cursos para o ano seguinte. Não havia abandonado os sonhos antigos, mas estava tentando dar a eles um lugar mais concreto na vida. Algumas noites, escrevia durante meia hora antes de dormir. Em outras, lia alguma coisa ou simplesmente descansava. Percebeu que não precisava preencher todos os minutos com atividades para sentir que estava avançando.
O futuro continuava parecendo distante, mas já não era apenas uma preocupação que aparecia quando alguém perguntava o que ele faria depois da escola. Aos poucos, estava se tornando um conjunto de possibilidades que poderia explorar, uma de cada vez. Talvez não conseguisse seguir o caminho que imaginava naquele momento. Talvez descobrisse interesses novos, mudasse de ideia ou precisasse adiar alguns planos. Pela primeira vez, essas possibilidades não pareciam necessariamente um fracasso.
Na última semana de aulas, a escola organizou uma atividade para que os alunos apresentassem os trabalhos desenvolvidos durante o semestre. Miguel levou um texto que havia revisado com a ajuda de Davi, e os dois passaram parte da manhã organizando o material. Davi também apresentou alguns desenhos, incluindo uma versão mais elaborada daquela rua antiga que Miguel havia visto no começo do semestre. A imagem estava mais detalhada, com janelas, fios atravessando a rua e uma bicicleta encostada no mesmo muro. Miguel parou diante do desenho por alguns instantes.
— Você terminou.
Davi olhou para a folha.
— Demorei, mas terminei.
— Ficou muito bom.
— Eu sei.
Miguel soltou uma risada.
— Perdeu a humildade.
— Estou tentando seguir seu exemplo.
Os dois continuaram conversando até o professor chamar os alunos para organizar a próxima parte da atividade. Miguel apresentou seu texto, ouviu os comentários de alguns colegas e guardou o material na mochila. Não recebeu nenhum prêmio, nem descobriu naquele dia se tinha talento suficiente para transformar a escrita em alguma coisa maior. Mas ficou satisfeito por ter levado uma história até o fim e por ter aceitado que outras pessoas a lessem. Era um passo pequeno, porém concreto, e isso bastava.
Depois da atividade, encontrou Samuel perto da saída. O amigo estava com Caio, André e Pedro, que havia aparecido na escola para acompanhar parte da apresentação. Os quatro conversavam sobre o campeonato de futebol, que finalmente aconteceria no sábado. Samuel viu Miguel se aproximar e o chamou.
— Você vai jogar, né?
Miguel ajustou a mochila nas costas.
— Vou. Mas não prometo fazer gol.
— Ninguém espera que você faça gol.
— Então por que me chamaram?
Caio riu, e Samuel respondeu que precisavam de alguém para reclamar das decisões do árbitro. Miguel entrou na brincadeira e ficou conversando com o grupo por alguns minutos. Em determinado momento, Samuel foi buscar uma garrafa de água, e Miguel ficou sozinho com Caio e André. Antes, aquela situação provavelmente teria provocado algum desconforto. Agora, Miguel percebeu que conseguia participar da conversa sem sentir que precisava provar que também pertencia àquele grupo. Não precisava ser o melhor amigo de todos, nem ter participado de todas as histórias anteriores. Bastava estar ali, conhecendo as pessoas aos poucos.
Quando Samuel voltou, os dois se despediram dos outros e caminharam juntos até o portão.
— Você parece mais tranquilo — comentou Samuel.
Miguel olhou para ele.
— Com o quê?
— Com tudo isso. Com o pessoal, comigo, sei lá. Antes você ficava estranho quando eu estava conversando com os outros.
Miguel pensou um pouco antes de responder.
— Acho que eu ainda fico, às vezes. Só estou tentando não fazer disso um problema toda vez.
Samuel assentiu.
— Eu também estou tentando não achar que você está reclamando de tudo quando fica chateado com alguma coisa.
— Está funcionando?
— Mais ou menos.
Miguel riu.
— Pelo menos você é sincero.
Samuel ficou quieto por alguns passos, depois continuou:
— Eu também sinto falta de algumas coisas de antes, sabia?
Miguel virou o rosto para ele. Não esperava ouvir aquilo.
— Sente?
— Claro. A gente fazia muita coisa junto. Às vezes eu vejo alguma coisa engraçada e ainda penso em te contar primeiro. Só que agora também tenho outros amigos, outros planos. Não quero que você ache que isso significa que eu esqueci tudo o que a gente viveu.
Miguel sentiu uma mistura de alívio e tristeza. Durante muito tempo, havia acreditado que precisava encontrar um sinal de que ainda era importante para Samuel. Agora, o amigo estava dizendo isso sem que ele precisasse perguntar, e a resposta não veio acompanhada de nenhuma promessa de que tudo continuaria igual.
— Eu acho que também estava com medo de perder o que a gente tinha — confessou Miguel. — Só que, tentando manter tudo como era, acabei tornando as coisas mais difíceis para nós dois.
Samuel colocou as mãos nos bolsos.
— Eu também podia ter conversado antes. Em vez de ficar evitando o assunto, eu devia ter explicado o que estava acontecendo.
— A gente não é muito bom em conversar quando está com medo de alguma coisa.
— Você é pior.
Miguel olhou para ele, indignado.
— Olha quem está falando!
Samuel começou a rir, e Miguel acabou rindo também. Continuaram andando, trocando provocações sobre o campeonato e lembrando de algumas partidas antigas. Por alguns minutos, parecia que estavam recuperando uma parte da antiga naturalidade. Mas Miguel sabia que não precisavam voltar a ser exatamente os mesmos garotos para continuarem amigos. Talvez a amizade pudesse guardar as brincadeiras, as lembranças e os hábitos antigos sem exigir que o restante da vida permanecesse igual.
Na esquina onde costumavam se despedir, Samuel parou.
— Você quer ir lá em casa no domingo? A gente podia jogar videogame. Faz tempo que não jogamos.
Miguel sorriu.
— Quero. Mas desta vez eu vou ganhar.
— Você fala isso há uns cinco anos.
— Uma hora a estatística vai estar do meu lado.
— A estatística está cansada de esperar.
Os dois riram, combinaram o horário e seguiram para casa. Miguel percebeu que estava animado com o convite, mas não porque precisava daquela tarde para provar que ainda era importante. Queria passar um tempo com Samuel porque gostava da companhia dele, porque tinham uma história compartilhada e porque ainda havia coisas que apreciavam fazer juntos. Era uma diferença pequena na aparência, mas enorme na maneira como ele se sentia.
No sábado, Miguel foi ao campeonato e descobriu que jogar futebol continuava sendo uma das maneiras mais rápidas de perceber que não tinha coordenação suficiente para determinadas atividades. Errou um passe fácil, tropeçou tentando alcançar a bola e ouviu Caio gritar que ele deveria se dedicar à carreira de comentarista esportivo. Samuel riu tanto que precisou se apoiar nos joelhos, e Miguel ameaçou abandonar o time para sempre.
— Você não pode abandonar o time — disse André. — A gente precisa de alguém para buscar a bola quando ela vai para fora.
— Estou cercado de pessoas horríveis.
— E ainda assim continua vindo — respondeu Samuel.
Miguel sorriu. A tarde foi simples, cheia de brincadeiras e pequenas discussões sobre as regras do jogo. Em alguns momentos, ele conversou com os novos colegas de Samuel sem se sentir deslocado. Em outros, ficou apenas observando os amigos jogarem. Não precisava estar no centro de todas as conversas para aproveitar a companhia. Também não precisava fingir que gostava de tudo o que eles gostavam. Aquele grupo estava encontrando seu próprio jeito de funcionar, e Miguel começava a entender que poderia fazer parte dele sem deixar de ser quem era.
No domingo, foi à casa de Samuel, como haviam combinado. A mãe do amigo ofereceu um lanche, e os dois passaram parte da tarde jogando videogame na sala. Discutiram sobre as regras, acusaram um ao outro de trapacear e riram das mesmas coisas que os faziam rir quando eram mais novos. Em determinado momento, Samuel perdeu uma partida e jogou o controle sobre o sofá.
— Esse jogo está roubado.
Miguel ergueu os braços em comemoração.
— Você perdeu porque não sabe jogar.
— Você só ganhou porque eu deixei.
— Claro. E eu sou o melhor jogador do mundo.
Samuel pegou uma almofada e jogou na direção dele. Miguel desviou, e os dois começaram a rir. Quando a brincadeira terminou, ficaram sentados no sofá, descansando e olhando para a televisão.
— Você lembra quando a gente achava que ia morar na mesma rua para sempre? — perguntou Samuel.
Miguel sorriu.
— Você queria comprar uma casa do lado da minha.
— Porque você disse que ia construir uma piscina.
— Eu tinha oito anos. Não tinha dinheiro nem para comprar uma piscina de plástico.
— Mas tinha planos.
— Muitos.
Samuel ficou olhando para a tela por alguns segundos.
— Você acha que a gente vai continuar sendo amigo quando terminar a escola?
A pergunta pegou Miguel de surpresa. Antes, teria respondido imediatamente que sim, como se a amizade fosse uma promessa que os dois pudessem fazer e cumprir apenas porque queriam. Agora, pensou na possibilidade de estudarem em lugares diferentes, encontrarem trabalhos novos, conhecerem outras pessoas e terem rotinas que não coincidissem com tanta facilidade. Não sabia como seria a vida dali a dois anos, muito menos dali a dez.
— Eu quero continuar — respondeu. — Não sei como vai ser, mas quero.
Samuel assentiu.
— Eu também.
Miguel olhou para o amigo e percebeu que aquela resposta era mais honesta do que qualquer promessa de que nada mudaria. Não havia garantia de que continuariam se vendo todos os dias, nem de que manteriam os mesmos interesses. Mas os dois estavam dizendo que queriam encontrar uma maneira de permanecer na vida um do outro, mesmo sem saber exatamente como.
— Acho que a gente vai ter que combinar as coisas de verdade — disse Miguel. — Tipo, marcar um dia para se encontrar, em vez de achar que vai acontecer sozinho.
Samuel fez uma careta.
— Você quer transformar nossa amizade em uma agenda?
— Não. Só não quero que a gente fique esperando o outro adivinhar quando está com saudade.
Samuel ficou pensativo.
— Isso faz sentido.
— Eu sei. Sou uma pessoa muito inteligente.
— Não exagera.
Miguel riu e pegou o controle novamente. Eles voltaram a jogar, mas a conversa permaneceu na cabeça dele. Talvez a amizade não precisasse depender da proximidade diária para continuar existindo. Talvez fosse possível manter o vínculo por meio de escolhas pequenas, feitas ao longo do tempo, sem exigir que os dois abandonassem os próprios caminhos.
Quando o fim do ano letivo finalmente chegou, a escola organizou uma última atividade antes das férias. Os alunos tiraram fotos, trocaram mensagens e combinaram de se encontrar durante o recesso. Alguns pareciam animados com o que viria, enquanto outros já demonstravam saudade de uma rotina que ainda nem havia terminado completamente. Miguel participou das conversas, ajudou Gabriel a tirar uma foto em que ninguém saísse de olhos fechados e ficou alguns minutos com Rebeca, que estava preocupada com o curso que faria nas férias.
— Você vai aparecer durante o recesso? — perguntou ela.
— Vou tentar.
— Não responde como se estivesse negociando um contrato.
Miguel sorriu.
— Eu vou. A gente combina alguma coisa.
Gabriel se aproximou e passou um braço pelos ombros dos dois.
— Quero registrar esse momento. Miguel finalmente aprendeu a combinar planos sem fazer uma apresentação de quarenta minutos sobre as possibilidades.
— Eu ainda posso fazer a apresentação — respondeu Miguel.
— Eu sabia que era bom demais para ser verdade.
Os três riram. Depois, Rebeca foi falar com outras colegas, e Gabriel precisou ajudar um professor a guardar alguns materiais. Miguel ficou sozinho perto do pátio, observando os alunos se despedirem. Sentia uma mistura de felicidade e nostalgia, embora não soubesse exatamente do que estava sentindo saudade. O ano ainda estava acontecendo, as pessoas continuavam ali, e a maioria delas voltaria a aparecer em algum momento. Mesmo assim, havia alguma coisa naquela última manhã que fazia tudo parecer diferente.
Ele pensou no primeiro dia do semestre, quando esperava que cada manhã começasse com Samuel na esquina de sempre. Lembrou das mensagens que havia apagado, das tardes em que ficara esperando por um convite, das conversas com Davi na cantina e das discussões com Gabriel e Rebeca. Pensou na conversa na praça, quando finalmente conseguiu dizer em voz alta o medo que vinha carregando. Não tinha sido uma transformação repentina. Ainda havia dias em que sentia ciúmes, momentos em que interpretava o silêncio dos outros como rejeição e situações em que precisava se lembrar de que não podia controlar tudo.
Mas agora conseguia reconhecer essas reações e fazer escolhas diferentes. Podia sentir saudade sem exigir que alguém estivesse disponível. Podia ficar chateado sem transformar a frustração em uma acusação. Podia gostar de uma pessoa e, ao mesmo tempo, permitir que ela tivesse uma vida própria.
Davi apareceu perto dele carregando uma pasta com os desenhos que havia apresentado naquela manhã.
— Você está pensando em alguma coisa importante ou só fingindo que está em um filme?
Miguel soltou uma risada.
— Não posso ficar parado por dois minutos?
— Pode. Só estou tentando descobrir se devo esperar uma frase profunda.
— Não preparei nenhuma.
— Uma pena. Eu estava pronto para criticar.
Miguel olhou para a pasta.
— Você vai mesmo viajar?
— Acho que sim. Minha família confirmou ontem. Vou passar algumas semanas fora, depois volto para cá.
— Espero que você aproveite.
Davi sorriu.
— Vou tentar. E você vai terminar aquela história?
Miguel pensou no caderno que havia deixado sobre a mesa do quarto.
— Vou. Não sei se vai ficar boa, mas vou terminar.
— Essa resposta é melhor do que a que você costumava dar.
— Estou amadurecendo.
— Não exagera.
Os dois riram. Davi explicou que mandaria algumas fotos dos lugares que visitasse, e Miguel prometeu mostrar o texto quando terminasse. Não fizeram promessas grandiosas sobre a amizade, nem falaram como se algumas semanas de distância fossem capazes de apagar o que haviam construído. Apenas combinaram de manter contato e continuar conversando. Miguel percebeu que gostava daquela maneira de se despedir, sem transformar a separação em uma tragédia ou fingir que não sentiria falta.
Quando Davi foi embora, Miguel encontrou Samuel perto do portão, esperando por Caio e André. Os dois tinham combinado de se despedir antes de seguir para casa, mas Samuel estava conversando com os colegas sobre os planos para as férias. Miguel se aproximou e entrou na conversa. Falaram sobre futebol, sobre os lugares que gostariam de visitar e sobre a possibilidade de se encontrarem na semana seguinte. Em determinado momento, Caio convidou Samuel para passar uma tarde com o grupo, e Samuel aceitou. Depois, virou-se para Miguel.
— Você também pode ir, se quiser.
Miguel sorriu.
— Vou ver. Talvez eu tenha outros planos.
Samuel ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa.
— Olha só. O homem está disputado.
— Tenho uma agenda muito cheia.
— Você passou a semana dizendo que queria dormir até tarde.
— É uma atividade que exige organização.
Os dois riram. Miguel não sentiu necessidade de aceitar o convite só para garantir que continuaria fazendo parte dos planos de Samuel. Também não sentiu vontade de recusar para demonstrar que tinha uma vida própria. Poderia ir se estivesse com vontade, ou combinar outra coisa se preferisse. A escolha não precisava carregar um significado maior do que aquele que realmente tinha.
Depois de se despedir de Caio e André, Miguel e Samuel começaram a caminhar juntos até a esquina. O sol estava forte, e o movimento da cidade parecia mais lento do que de costume. Passaram por uma loja que estava fechando, por uma casa onde alguém regava as plantas e pela mesma calçada em que tantas vezes haviam inventado planos para o fim de semana.
— Você lembra da primeira vez que a gente foi sozinho até a praça? — perguntou Samuel.
Miguel pensou por alguns segundos.
— A gente tinha uns dez anos. Você queria comprar figurinhas, mas esqueceu o dinheiro em casa.
— E você pagou para mim.
— Você prometeu devolver.
— Eu devolvi!
— Depois de três semanas.
Samuel começou a rir.
— Você ainda lembra disso?
— Eu lembro de tudo.
A frase saiu naturalmente, mas Miguel percebeu que já não significava o mesmo que significaria alguns meses antes. Lembrar de tudo não era uma maneira de impedir que as coisas mudassem. Era apenas reconhecer que aquelas experiências faziam parte da história dos dois, mesmo que a vida continuasse avançando.
Na esquina, Samuel parou e ajeitou a mochila.
— A gente se vê amanhã?
Miguel sorriu.
— Se você não cancelar para ir jogar bola.
Samuel fez uma expressão de indignação.
— Você prometeu que ia parar com isso.
— Estou brincando.
— Eu sei. Mas você precisa melhorar suas piadas.
— E você precisa melhorar seu futebol.
Samuel riu e estendeu a mão. Miguel apertou a mão do amigo, mas Samuel puxou-o para um abraço rápido, daqueles que os dois raramente davam quando estavam na frente de outras pessoas. Miguel se surpreendeu por um instante, depois retribuiu o abraço.
Não houve promessa de amizade eterna, nem declaração de que tudo voltaria a ser como antes. Samuel apenas se afastou, sorriu e seguiu pela rua. Miguel ficou olhando por alguns segundos antes de continuar o caminho para casa.
Naquela tarde, ajudou a mãe com algumas tarefas, tomou banho e se sentou diante do caderno. A história que havia começado semanas antes continuava incompleta, mas ele já tinha decidido que não abandonaria o texto apenas porque ainda não sabia como terminá-lo. Escreveu algumas linhas, voltou ao começo para corrigir um trecho e depois ficou olhando para a página em branco. Não encontrou imediatamente a frase que procurava. Em vez de desistir, fechou o caderno e decidiu continuar no dia seguinte.
Antes de dormir, abriu o celular e encontrou mensagens de Gabriel, Rebeca, Samuel e Davi. Eram conversas diferentes, sobre assuntos diferentes, e cada uma lhe trouxe uma lembrança daquele semestre. Gabriel queria saber se todos poderiam se encontrar na praça durante as férias. Rebeca enviou as informações do curso que faria. Samuel perguntou se Miguel ainda estava disposto a jogar videogame no domingo seguinte. Davi mandou uma foto de um desenho que havia começado e pediu uma opinião.
Miguel respondeu a todos, sem sentir que precisava escolher uma conversa para provar a importância de alguma amizade. Depois deixou o celular sobre a mesa e apagou a luz.
Pensou no ano que estava terminando, nas pessoas que havia conhecido melhor e nas coisas que ainda não sabia sobre si mesmo. Não tinha certeza de como seriam as férias, de quais planos dariam certo ou de como sua relação com Samuel mudaria nos próximos meses. Também não sabia se conseguiria transformar a escrita em algo maior, nem se encontraria o caminho profissional que imaginava. Havia perguntas demais para uma única noite, e ele finalmente estava começando a aceitar isso.
Durante muito tempo, Miguel acreditou que crescer significava perder as coisas que amava. Imaginava que, para continuar sendo importante para alguém, precisava preservar os hábitos, repetir os encontros e impedir que novas pessoas ocupassem os espaços que conhecia tão bem. Agora entendia que a vida não funcionava daquela maneira. Algumas coisas realmente terminavam, outras se transformavam, e havia relações que encontravam um jeito de continuar mesmo depois de passarem por momentos difíceis.
Nem tudo dependia dele. Não podia decidir quanto tempo Samuel passaria com os outros amigos, quais caminhos Davi seguiria ou que escolhas Gabriel e Rebeca fariam no futuro. Também não podia garantir que todas as pessoas permaneceriam por perto. Mas podia cuidar das amizades sem tentar controlá-las, dizer o que sentia antes que a mágoa se transformasse em raiva e prestar atenção na própria vida enquanto ela acontecia.
Na manhã seguinte, a cidade continuaria a mesma em muitos aspectos. O café seria passado na cozinha, os vizinhos abririam as portas de suas casas e alguém reclamaria do calor antes mesmo das nove horas. A praça continuaria no mesmo lugar, a escola ficaria vazia durante as férias e as ruas guardariam as marcas de tantas tardes que Miguel ainda lembraria por muito tempo.
Mas ele já não esperava que tudo permanecesse igual para que essas lembranças continuassem importantes.
Talvez fosse isso que tivesse aprendido naquele semestre. As pessoas mudavam, os planos precisavam ser refeitos e até as amizades mais antigas exigiam cuidado. Não havia como impedir o tempo de avançar, assim como não havia uma maneira perfeita de atravessar todas as mudanças sem sentir medo ou tristeza. O que ele podia fazer era continuar vivendo, aprendendo a conversar, errando menos em algumas coisas e tentando novamente em outras.
Miguel fechou os olhos e pensou em Samuel, nos amigos novos, na mãe e nas histórias que ainda queria escrever. Sentiu saudade de algumas coisas que já não aconteciam da mesma maneira, mas também ficou curioso com tudo o que ainda poderia acontecer.
No fim, talvez não precisasse escolher entre guardar o passado e seguir em frente. Podia fazer as duas coisas. Podia lembrar das tardes em que ele e Samuel acreditavam que nada mudaria, rir das promessas que fizeram quando eram crianças e, ainda assim, aceitar que o futuro não tinha obrigação de obedecer aos planos que haviam inventado.
A vida continuaria mudando, com ou sem a permissão deles.
E Miguel, pela primeira vez, já não queria passar o tempo inteiro tentando impedir isso.
