A chuva que ameaçava cair finalmente desabou, batendo contra as janelas do apartamento de Luiz com uma violência que parecia ditar o ritmo do que estava por vir. Mike entrou no recinto com as roupas úmidas e o rosto pálido, encontrando Luiz sentado à mesa, ainda tentando processar os fragmentos de memória que haviam retornado. O silêncio no local foi interrompido apenas pelo som da chave de Gabriel girando na fechadura momentos depois; ele entrou com uma arrogância renovada, como se a confissão feita a Mike no armazém o tivesse libertado de um fardo, transformando sua culpa em orgulho sombrio.
Mike não esperou que Gabriel se acomodasse e, com uma voz carregada de pesar, contou a Luiz cada palavra que ouvira no armazém, revelando o plano meticuloso de vingança de Gabriel. Luiz ouvia tudo em um estado de transe catatônico, seus olhos alternando entre a incredulidade e o horror enquanto percebia que sua ruína pessoal fora arquitetada por quem ele mais confiava. A atmosfera no pequeno cômodo tornou-se irrespirável, uma panela de pressão prestes a explodir sob o calor da traição e do ressentimento acumulado.
A explosão aconteceu quando Gabriel, em vez de negar, deu de ombros e soltou uma risada cínica que cortou o ar como uma navalha. Luiz se levantou com uma agilidade que ninguém esperava, avançando contra Gabriel e agarrando-o pelo colarinho da jaqueta, prensando-o contra a parede com uma força alimentada pelo puro desespero. O som do impacto dos corpos contra a madeira ecoou pelo apartamento, enquanto gritos de dor e fúria substituíam qualquer tentativa de diálogo racional entre os três amigos.
— Como você pôde fazer isso comigo, Gabriel? — gritou Luiz, com lágrimas de raiva escorrendo pelo rosto. — Eu quase perdi a minha alma por causa desse acidente, e você me assistiu sofrer todos os dias!
— O sistema tirou o meu pai de mim, Luiz! — berrou Gabriel, empurrando-o de volta com um vigor violento. — Aquele cachorro era apenas um símbolo de tudo o que a Helena representa. Eu precisava que ela sentisse o que é ser injusta, mesmo que para isso eu tivesse que usar você como isca!
— Você não usou uma isca, Gabriel, você destruiu um irmão! — interveio Mike, colocando-se fisicamente entre os dois para evitar que a briga escalasse para algo fatal. — Eu entendo a dor de perder um pai para uma injustiça, eu realmente entendo, mas o que você fez com o Luiz é uma mancha que nenhuma vingança no mundo pode apagar.
— Você não entende nada, Mike! — rebateu Gabriel, apontando o dedo para o peito do amigo. — Você é apenas um observador que acha que pode consertar o mundo com palavras bonitas e mediação.
Após a saída tempestuosa de Gabriel, que bateu a porta com tanta força que um quadro na parede caiu e se estraçalhou, o silêncio que restou foi ainda mais devastador. Luiz desabou no chão, no meio dos estilhaços de vidro, e entrou em um estado de apatia completa, recusando-se a comer ou a falar por dias. A depressão profunda o tragou como um pântano, deixando Mike sozinho na tarefa hercúlea de tentar manter as cinzas daquela amizade unidas enquanto o peso da injustiça continuava a esmagar o pouco que restava da sanidade de Luiz.
— Ele não vai sair dessa sozinho, Mike — sussurrou Luiz, horas depois, olhando para o vazio com olhos sem vida. — Eu prefiro a prisão da delegada Helena do que a liberdade que o Gabriel me deu baseada nessa mentira.
