Capítulo 7: O Convite dos Olheiros

 Era o dia do campeonato de bairro, e Chris sentia o peso da expectativa em seus ombros. O campo de terra batida, onde tantas vezes havia treinado descalço, agora estava repleto de vida. O som dos tambores, as vozes da comunidade e os gritos de incentivo ecoavam pelas vielas. Havia uma energia diferente no ar, algo que ele nunca tinha sentido antes. Aquele jogo significava mais do que uma vitória — era uma chance de ser visto, uma chance de mudar sua vida.

— Hoje é o dia, Chris — disse João, dando-lhe um tapinha nas costas enquanto eles se aqueciam. Embora João tivesse se afastado por conta de seu envolvimento com o tráfico, ele ainda era amigo de infância de Chris, e naquele momento, o antigo companheirismo parecia ter voltado. — Faz o que você sabe fazer, irmão. Mostra quem você é.

Chris apenas assentiu, o coração acelerado. O jogo começaria em poucos minutos, e ele sabia que os olheiros de um time profissional estariam presentes. Eles estavam ali, escondidos entre os espectadores, prontos para observar os jovens talentos da comunidade. Aquela poderia ser sua única chance de sair dali, de se afastar da violência e da pobreza que moldavam sua vida. E ele estava pronto.

Quando o juiz apitou o início da partida, Chris se transformou. Era como se o campo de terra batida desaparecesse, e ele estivesse em um estádio de verdade, com milhares de olhos atentos ao seu talento. Cada drible, cada passe, cada chute parecia uma extensão de quem ele era. Ele se movia com graça e força, arrancando aplausos e gritos de surpresa da torcida. Seus companheiros de time confiavam nele, sabiam que Chris era a estrela do jogo.

A bola parecia colada aos seus pés. Ele avançava pelo campo, deixando os adversários para trás como se fossem meros obstáculos no caminho do seu destino. Em um dos momentos mais importantes da partida, ele driblou dois zagueiros e chutou com precisão, marcando um gol que fez a torcida explodir em comemoração.

— É isso! — gritou João da lateral, pulando de alegria.

Chris sorriu, mas o foco não era a celebração. Seus olhos vagaram pela arquibancada improvisada, procurando por aqueles olheiros. Sabia que eles estavam ali, em algum lugar, observando cada movimento. O jogo era a sua chance de provar que ele merecia mais. E ele estava dando tudo de si.

Quando o apito final soou, a vitória era deles. O time de Chris havia conquistado o campeonato, mas, mais importante, ele sabia que havia se destacado. Assim que o jogo acabou, seu treinador, um homem mais velho e que sempre acreditara no talento de Chris, aproximou-se com um olhar que ele nunca tinha visto antes.

— Chris... — disse o treinador, tentando conter o sorriso que se alargava em seu rosto. — Tem alguém que quer falar com você.

O coração de Chris acelerou ainda mais. Seguiu o treinador até o lado do campo, onde um homem de meia-idade, vestindo um terno casual, estava parado. Ele observava Chris com interesse, e seu olhar parecia o de alguém que já viu muitos jovens talentos. Ele se apresentou como Gustavo, um dos olheiros de um clube de futebol profissional.

— Parabéns pelo jogo, garoto — disse Gustavo, apertando a mão de Chris. — Você tem algo especial. O clube está interessado em você. Gostaríamos que você fizesse um teste para o time de base. O que acha?

Chris quase não acreditava no que estava ouvindo. Aquilo era real? Ele piscou, tentando absorver as palavras, enquanto o som da favela ao seu redor parecia sumir. O que Gustavo estava lhe oferecendo era uma oportunidade. Um caminho para fora. Um futuro diferente do que ele sempre temeu.

— Eu... eu não sei nem o que dizer... — gaguejou Chris, ainda em choque.

— Só precisa dizer que está dentro — Gustavo respondeu, sorrindo. — Eu vou marcar os detalhes com seu treinador. Vai ser uma chance importante, mas você tem que continuar se dedicando. Nada é garantido, entende?

Chris assentiu vigorosamente, a emoção tomando conta dele. Ele apertou a mão de Gustavo novamente, agradecendo, e mal conseguia conter a felicidade que irradiava de cada poro de seu corpo. Quando o olheiro se afastou para falar com o treinador, Chris olhou para o céu, como se finalmente pudesse ver uma luz brilhando no fim do túnel.

Correndo para casa, o coração de Chris batia acelerado. Ele não via a hora de contar a novidade para sua mãe. Dona Teresa sempre acreditou no potencial dele, mas sempre manteve os pés no chão, enfatizando a importância dos estudos. Agora, ele tinha algo concreto para mostrar: uma chance real de transformar seu sonho em realidade. Ao chegar em casa, entrou pela porta quase ofegante, encontrando sua mãe na cozinha.

— Mãe, eu consegui! — exclamou, os olhos brilhando. — O olheiro do time profissional... ele me convidou para um teste! Vou ter a chance de jogar num time de verdade!

Dona Teresa parou o que estava fazendo e olhou para o filho, a surpresa transformando-se em um sorriso emocionado.

— Meu Deus, Chris... eu sempre soube que você podia! — disse ela, com lágrimas nos olhos. Ela o abraçou forte, e naquele abraço, Chris sentiu todo o apoio e amor que sempre o manteve firme, mesmo nos momentos mais difíceis.

A pequena casa encheu-se de alegria. Chris, Dona Teresa e até seus vizinhos celebravam a notícia. O sonho que parecia tão distante começava a se tornar possível. Mas, como a vida na favela sempre ensinava, a felicidade era frequentemente interrompida por uma realidade cruel.

No meio da celebração, o som que eles tanto temiam ecoou pela comunidade. Tiros. Vários, em sequência, rasgando o ar como um lembrete sombrio de onde estavam. Todos se jogaram no chão, instintivamente buscando abrigo. A festa se transformou em pânico.

— Tiroteio de novo... — murmurou Dona Teresa, com a voz tensa.

Chris, deitado no chão ao lado dela, sentiu o contraste entre o sonho que acabara de receber e a realidade brutal que o cercava. Lá fora, as balas voavam, as sirenes gritavam, e a violência, tão comum àquele lugar, continuava a roubar vidas e esperanças.

Por mais que ele quisesse acreditar que o futebol poderia ser sua saída, momentos como aquele o faziam lembrar que ele ainda estava preso em um ciclo de pobreza e violência. O convite para o teste era uma luz, mas a escuridão que rondava sua vida estava sempre presente, pronta para apagar qualquer faísca de esperança.

Enquanto o tiroteio se acalmava e a noite avançava, Chris ficou deitado, ouvindo o silêncio pesado que se seguiu. Ele sabia que aquele convite era mais do que uma oportunidade. Era sua única chance de escapar. E ele precisava agarrá-la com todas as forças. O futebol não era apenas um sonho. Agora, era uma questão de sobrevivência.