O silêncio que se seguiu ao impacto foi mais aterrorizante do que o próprio ruído. O Titanic parecia ter recuperado sua compostura, mas para Fillemon, o leve adernar para estibordo era um sinal claro de que as entranhas do gigante estavam sendo invadidas. Enquanto nos salões de primeira classe alguns passageiros brincavam com os fragmentos de gelo que caíram no convés, o projetista Thomas Andrews descia às profundezas com o Capitão Smith, confirmando o que a matemática não podia negar: cinco compartimentos rompidos. O navio tinha pouco mais de duas horas de vida.

Fillemon deixou Isabella por um momento, prometendo voltar com informações. Ele desceu as escadarias em direção à terceira classe, onde a realidade era desprovida de cortesia. Ali, o pânico não era um sussurro, mas um grito abafado por portas trancadas e o som da água jorrando pelos corredores inferiores.

— O que está acontecendo, Miller? — gritou um dos imigrantes irlandeses, vendo a água atingir os tornozelos. — Os oficiais dizem para ficarmos calmos, mas as bombas não estão dando conta!

Fillemon viu o medo nos olhos dos homens que, como ele, só queriam uma chance na América. Ele percebeu que a tripulação estava tentando conter a multidão para evitar o caos nos botes, mas aquela "calma" era uma sentença de morte. Ele sentiu o peso da mala que deixara no beliche, cheia de documentos falsos e moedas ganhas com trapaça. Tudo aquilo parecia patético diante da imensidão do oceano que agora reclamava o ferro.

Ele subiu as escadas correndo, o coração martelando contra as costelas. Precisava encontrar Isabella. Ao chegar ao convés de passeio, encontrou-a parada perto de um dos botes ainda cobertos, observando os oficiais que começavam a remover as proteções de lona com uma urgência contida.

— Miller! Você voltou — disse ela, a voz trêmula. — Eles dizem que é apenas uma precaução. Que o navio é seguro.

Fillemon parou diante dela, ofegante. O dilema o corroía: continuar sendo o "Thomas Miller", o jovem esforçado que ela admirava, ou ser o homem que conhecia a feiura do mundo e sabia que o luxo não os salvaria.

— Isabella, escute-me — disse ele, segurando-a pelos ombros com uma força que a assustou. — Não há precaução nisso. Eu vi a água lá embaixo. Ela está subindo e não vai parar. Este navio está morrendo.

— Mas os oficiais... o Capitão... — ela gaguejou, olhando para as luzes brilhantes que ainda iluminavam o convés com uma ironia cruel.

— Eles estão mentindo para manter a ordem! — Fillemon quase gritou, a voz carregada de uma urgência brutal. — Eu passei a vida toda ouvindo mentiras de gente como eles, Isabella. Eu mesmo sou uma mentira. Meu nome não é Miller. Eu entrei aqui com papéis roubados, enganando a todos para chegar ao topo. Mas a água não se importa com quem eu sou ou com quem você é.

Isabella recuou um passo, o choque da revelação misturando-se ao pavor do naufrágio. O mundo que ela conhecia, feito de etiquetas e certezas, estava desmoronando tanto por dentro quanto por fora.

— Você... mentiu para mim o tempo todo? — perguntou ela, as lágrimas finalmente transbordando.

— Sim — confessou ele, com uma honestidade que doía mais do que qualquer golpe. — Mas a única coisa real em meio a toda essa farsa foi o que eu senti quando ouvi você tocar. Agora, por favor, esqueça quem eu sou e suba em um desses botes. A negação não vai impedir o abismo de chegar.

Ao longe, o primeiro foguete de socorro riscou o céu estrelado com um clarão branco, um grito visual de socorro que iluminou o rosto pálido de Isabella e a expressão desesperada do homem que acabara de destruir a própria máscara para tentar salvá-la.