A fachada da residência de Helena era imponente, com muros altos e uma sobriedade que refletia a imagem pública da delegada, mas, ao atravessar o portão, Mike sentiu uma atmosfera de abandono que o concreto não conseguia esconder. Ele foi recebido por Aline, que o conduziu para dentro com um olhar de cumplicidade silenciosa, como se soubesse que a presença de alguém de fora era o que aquela casa precisava para não sufocar em si mesma. O corredor estava mal iluminado, e o som dos passos de Mike parecia um intruso em um lugar onde o tempo parecia ter parado no dia em que Vitor se foi.
Aline indicou a biblioteca ao fundo, onde a porta entreaberta deixava escapar o brilho trêmulo de algumas velas acesas em pleno dia. Ao se aproximar, Mike estancou, sentindo-se um voyeur de uma dor sagrada: Helena estava sentada em uma poltrona de couro gasta, com uma pequena urna de madeira sobre o colo e um álbum de fotografias aberto sobre os joelhos. Não havia rastro da mulher que batia com força na mesa de interrogatório; em seu lugar, estava uma figura encurvada, cujos dedos trêmulos acariciavam a superfície da urna como se pudesse sentir o calor da vida que um dia habitara ali.
Mike observou as fotos espalhadas pelo tapete, retratando um jovem loiro de sorriso largo — Vitor — sempre acompanhado por um filhote de Golden Retriever que crescia a cada página virada. Ele percebeu que, para Helena, Bernardo não era um cão que morrera em um acidente de trânsito, mas o último fio de esperança que a mantinha conectada ao filho morto. Ao ver as cinzas e as lembranças, Mike sentiu uma onda de náusea ao lembrar-se do desdém de Gabriel, que chamara aquele luto de "apenas um símbolo", ignorando que estava pisando em feridas que nunca cicatrizariam.
— Eu não esperava visitas, muito menos a sua, Mike — disse Helena, sem levantar os olhos, sua voz saindo como um sussurro rouco que não guardava nenhuma autoridade. — Veio tentar me convencer da inocência do seu amigo mais uma vez?
— Eu vim tentar entender quem era o Bernardo, delegada — respondeu Mike, entrando lentamente na sala e sentando-se em um banco distante. — E acabei percebendo que não era sobre o cachorro, era sobre o que ele representava para o Vitor.
— Ele foi o último presente que meu filho me deu antes de o câncer levá-lo — confessou ela, finalmente erguendo o rosto, revelando olhos inchados e uma palidez que a maquiagem da delegacia costumava esconder. — Quando Luiz atropelou Bernardo, ele não quebrou apenas a lei; ele interrompeu a única conversa que eu ainda tinha com o meu filho através daquele animal.
Mike permaneceu em silêncio, sentindo o peso daquela revelação esmagar qualquer resquício de simpatia que ele pudesse ter pelos motivos de Gabriel. Ele viu diante de si uma mulher que já estava destruída muito antes do acidente, e percebeu que a "vingança poética" de seu amigo era, na verdade, um ato de crueldade gratuita contra alguém que já não tinha mais forças para lutar. A delegada de ferro era apenas uma armadura vazia, sustentada pelo dever, enquanto a mãe por trás dela sangrava em uma solidão que nenhuma sentença judicial poderia curar.
— O Luiz não é o monstro que a senhora imagina, mas eu sei que a dor não escolhe onde dói — comentou Mike, escolhendo as palavras com cuidado para não entregar Gabriel antes da hora certa. — Só queria que a senhora soubesse que nem todos os envolvidos nessa história agem por maldade, às vezes as pessoas são apenas peças em um jogo que não compreendem.
— A justiça não se importa com jogos, Mike, ela se importa com fatos — respondeu ela, recuperando por um breve segundo a rigidez na voz, embora suas mãos ainda segurassem a urna com força. — Mas agradeço por ter vindo... fazia tempo que ninguém olhava para essas fotos comigo sem sentir medo do meu cargo.
Ao sair da casa, Mike sentiu o ar frio da noite renovar seus pulmões, mas seu coração estava pesado com uma nova clareza. Ele sabia que o confronto final estava próximo e que não poderia mais adiar a verdade, pois cada dia de silêncio era uma nova punhalada naquela mulher e uma condenação injusta para Luiz. A figura de Gabriel, antes vista como um amigo ferido pelo passado, agora era apenas a sombra de um homem que se tornara exatamente o que ele dizia odiar: um carrasco de inocentes.
