O convés de botes do Titanic era agora um palco de contrastes brutais. Sob o clarão ofuscante dos foguetes de socorro que subiam a intervalos regulares, o ar gélido era preenchido pelo som sibilante do vapor escapando pelas chaminés e, estranhamente, pelas notas alegres de um ragtime. A orquestra de Wallace Hartley havia se posicionado perto da entrada da Grande Escadaria, tocando como se estivessem em um baile de gala, uma tentativa desesperada de manter a civilidade enquanto o chão começava a inclinar-se para a frente.

— Por que eles continuam tocando? — perguntou Isabella, a voz embargada enquanto observava os músicos. — O navio está afundando e eles tocam como se nada estivesse acontecendo.

— É a música que mantém o pânico no fundo do oceano, senhorita — respondeu Fillemon, puxando-a pelo braço em direção ao bote número 7, que estava sendo preparado pelo Primeiro Oficial Murdoch.

A confusão era contida, mas nítida. Oficiais gritavam ordens, e o lema "mulheres e crianças primeiro" ecoava como uma sentença de separação. Fillemon via homens de cartola despedindo-se de suas esposas com promessas vazias de que se veriam no próximo navio. Ele sabia que as contas não fechavam; não havia botes para todos, e a matemática da White Star Line era cruel.

— Isabella, você precisa entrar. Agora — ordenou Fillemon, usando sua astúcia para abrir caminho entre a multidão. Ele se dirigiu ao oficial com uma autoridade fingida: — Com licença, senhor, esta é a senhorita Isabella, a pianista. Ela precisa estar no próximo bote por ordens superiores.

O oficial, sobrecarregado, apenas acenou para que ela subisse. O bote estava sendo baixado lentamente pelas cordas de cânhamo, balançando perigosamente contra o casco iluminado. Isabella parou na borda, olhando para o espaço vazio entre o navio e o pequeno barco de madeira lá embaixo.

— E você, Miller... ou seja qual for o seu nome? — ela perguntou, segurando a mão dele com uma força desesperada. — Venha comigo. Há espaço!

— Não há espaço para homens da minha classe, Isabella — disse ele, um sorriso triste cruzando seu rosto pálido. — Eu passei a vida tentando subir na vida, e agora que estou no topo deste navio, percebo que o único lugar para onde posso ir é para baixo.

— Eu não vou deixá-lo aqui sozinho! — ela gritou, ignorando os oficiais que tentavam empurrá-la para dentro do bote. — Você mentiu, você me enganou, mas você foi o único que me tratou como um ser humano e não como um troféu!

Fillemon olhou para os olhos marejados dela e sentiu o peso do seu sacrifício. Ele queria que ela vivesse, que voltasse para a América e tocasse suas músicas, mesmo que ele nunca mais pudesse ouvi-las. Ele usou a última de suas astúcias, aproximando-se do ouvido dela.

— Se você entrar nesse bote, eu prometo que darei um jeito de sair daqui. Eu sou um sobrevivente, Isabella. Eu sei como me infiltrar em lugares impossíveis. Mas eu não posso lutar pela minha vida se estiver preocupado com a sua.

Ela hesitou, olhando para o abismo negro do oceano e depois para o homem que, em poucos dias, havia se tornado o seu mundo. O bote começou a descer, e a distância entre eles aumentou. Isabella estendeu a mão, mas Fillemon recuou para as sombras do convés, deixando que a música da orquestra preenchesse o vazio que suas mentiras haviam deixado.

— Vá! — gritou ele, enquanto o Titanic soltava mais um gemido de metal retorcido, inclinando-se um pouco mais para as águas geladas.