CURITIBA



 Eu sempre soube que transformações precisam de mudanças, que eu teria que correr atrás das coisas se eu quisesse acabar com todos os dias ruins que eu tinha na escola. Sem ninguém ao meu lado, o que me restará era ir atrás de um amor, ir viver a melhor e maior aventura da minha vida. Me mudar para Curitiba era a chance de reconstrução, de recomeçar. Porque se ninguém soubesse quem eu era, eu podia ser quem eu quisesse.

 Minha família nunca me tratou bem, e não sei se isso era por falta de atenção ou por prazer. O que eu fiz para que me tratassem tão mal? Bem, isso não importava mais, já que eu estava em um ônibus vislumbrado com todos aqueles prédios que eu assistia pela janela. Eu estava chegando em Curitiba e sabia que a partir daquele momento, as coisas jamais voltariam a ser como antes. Eu iria conhecer pessoas novas e naquele instante uma nova janela estava se abrindo para mim.

 Apesar da pouca idade, eu sempre tive muita história para contar, machucados que não cicatrizavam e decepções ao descobrir que o amigo da história sempre fora eu. Será que em algum momento as coisas vão ser diferentes? Como todo adolescente, acreditei que não existia malícia, tão pouco maldade, eu não sabia que as pessoas eram tão perversas e que nem toda bondade é atitude de gente boa, mas isso é a segunda parte dessa história, já que acabei sendo aceito na casa de uma dona de pizzaria.

 Conviver com uma galera diferente foi algo extraordinário. Aquela galera passava o dia todo na casa do meu amigo, deitavam no sofá cama e quando a mãe dele chegava, ela deitava junto com a gente. Perceber que além de adolescentes, adultos também poderiam ter atitudes diferentes fazia com que pela primeira vez eu tivesse vontade sorrir sozinho. Existe um momento em que a gente para, olha o mundo em nossa volta, e acaba dando um pequeno sorriso. O sorriso é pequeno, mas a mudança é gigantesca.

 Ao sair de lá, eu tinha a certeza de que as coisas poderiam ser melhores, mas eu não sabia que estava entrando em uma história LGBTQIA+ com destaque para tudo de ruim que poderíamos esperar de outra pessoa. Em um dos nossos primeiros contatos, me disse que era como uma grande família, mas eu não sabia que a intenção era me transformar em um futuro pai. Foi eu me recusar a sair do sofá em que eu dormia durante uma noite para começar um inferno de humilhações.

 Estava procurando um emprego, e sofrer ameaças e humilhações foi uma das piores coisas que poderiam acontecer. Em que planeta alguém se sujeitaria a dormir com outra pessoa em troca de ter um lugar para dormir? Eu não seria aquela pessoa. Conseguir um emprego não foi suficiente para que a paz finalmente fosse alcançada, a "família" resolveu me visitar no serviço e constantemente procurava querer me humilhar. Amava aquela cidade, tinha aprendido a me defender, mas como eu posso me defender de alguém que estou dependendo?

 Meu amor por Curitiba não tinha acabado, mas as coisas estavam piores do que as quais eu me dispus a relatar, então o sonho precisava ser interrompido. Dar adeus ao que a gente acreditava estar conseguindo alcançar doeu, eu estava rompendo com o futuro e só me restará dar passos para trás. Porém, ainda que as coisas tenham saído errado, o melhor que podia ser feito naquele momento era fugir. Pela primeira vez, aprendi que a gente pode recomeçar, não importa que os outros tenham se engessado no passado, eu posso começar de novo.