Capítulo 2: O encontro com a modernidade

Tarsila chegou à cidade em 1920, uma época em que Paris era o epicentro das novas tendências artísticas, e seu encontro com esse ambiente seria decisivo para sua evolução. Em Paris, Tarsila se matriculou na Académie Julian, uma das escolas de arte mais renomadas da época, conhecida por sua abordagem liberal e inclusiva. A Académie Julian era frequentada por artistas de várias partes do mundo e era um lugar ideal para Tarsila absorver novas ideias e técnicas. Durante seu tempo na academia, ela começou a experimentar com o cubismo, um movimento que estava desafiando as convenções tradicionais da arte com suas formas geométricas e perspectivas fragmentadas.


Paralelamente aos estudos formais, Tarsila teve a oportunidade de interagir com alguns dos mais importantes artistas do período. A visita ao estúdio de Pablo Picasso e a participação em exposições e eventos promovidos por outros artistas vanguardistas ajudaram a expandir sua visão artística. Picasso, com seu cubismo inovador, e outros artistas como Fernand Léger e Amedeo Modigliani, deixaram uma marca indelével em sua abordagem criativa.


O contato com o surrealismo também teve um impacto profundo em Tarsila. Os artistas surrealistas, com sua ênfase na exploração do inconsciente e na representação de sonhos, ofereceram a ela novas maneiras de pensar sobre a arte e a expressão pessoal. Tarsila incorporou elementos surrealistas em seu trabalho, resultando em uma fusão única de estilos que refletia tanto a inovação europeia quanto a sua visão individual. Ao longo de sua estadia em Paris, Tarsila começou a desenvolver uma identidade artística que misturava as influências modernas com aspectos da cultura e do folclore brasileiro. Essa fusão seria crucial para o desenvolvimento do seu estilo próprio. Ela começou a criar obras que, embora influenciadas pelas tendências europeias, também carregavam um profundo senso de brasilidade, refletindo suas raízes e suas observações do cotidiano brasileiro.



Seu retorno ao Brasil em 1922 marcou o início de um período de intensa criatividade e impacto cultural. Tarsila trouxe consigo uma nova perspectiva e uma série de influências que ajudaram a redefinir a arte brasileira. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco importante nesse processo. O evento, realizado no Teatro Municipal de São Paulo, foi um ponto de virada para a arte no Brasil e contou com a participação de Tarsila e outros artistas modernistas que buscavam romper com as tradições acadêmicas.


Durante a Semana de Arte Moderna, a obra de Tarsila foi um destaque, especialmente a pintura "Abaporu", que seria a inspiração para o movimento antropofágico liderado por Oswald de Andrade. "Abaporu", com sua representação de figuras estilizadas e cores vibrantes, capturou a imaginação do público e ajudou a estabelecer Tarsila como uma das principais vozes do modernismo brasileiro. O movimento antropofágico, que promovia a "devoração" criativa das influências estrangeiras e a criação de uma arte autenticamente brasileira, teve uma grande influência na arte e na literatura do país.


A influência da arte moderna europeia foi evidente em muitas das obras que Tarsila criou após seu retorno. Seus trabalhos passaram a incorporar elementos de cubismo e surrealismo, mas também se destacaram por sua interpretação única da cultura brasileira. Obras como "O Sol Poente" e "A Lua" refletem essa mistura de influências, com sua paleta de cores vibrantes e representações estilizadas da natureza e do folclore.


O encontro com a modernidade europeia ajudou a moldar seu estilo e suas ideias, permitindo-lhe criar uma arte que era simultaneamente inovadora e profundamente enraizada na cultura brasileira. A combinação dessas influências resultou em uma obra que não apenas desafiava as convenções da época, mas também ajudava a definir a identidade da arte moderna no Brasil.