Capítulo 13


— Você não vai dizer nada Lucas?

 Ele estava de pé entre a porta da sala de estar e da cozinha com a mão na boca. Gabriel estava sentado no sofá, pensou em se levantar e se aproximar de Lucas mas Marialda o segurou.

 A casa estava bem silenciosa. Gabriel tinha feito exatamente o que Marialda pediu e contou que Augusto não morreu realmente, que Beatriz, a mãe dele, tinha viajado para ver o filho.

— Não vai dizer nada? — perguntou Gabriel mais uma vez.
Lucas foi responder mas algo o segurava de falar.

— Posso ficar sozinho? — perguntou abrindo a porta para a rua.

— Não! Você tem que ir pra casa com a gente. Não é verda...

— Vamos! — disse Marialda, empurrando o filho para fora — Eu volto te buscar em uma hora. Fique bem querido.

Gabriel ficava um pouco estressado quando via que as coisas não saiam como pensou, ou quando Marialda parecia mudar os planos sem avisar ele, ele se sentia como um palhaço porque não gostava de algumas coisas que Marialda pedisse que ele fizesse. Se arrumou para falar com Lucas, pediu desculpas e não teve resposta alguma. Gabriel odiava ser ignorado.

— Por que era pra eu vir aqui se ele nem aceitou as desculpas? Fiz papel de idiota...

— Você não escutou eu dizendo que volto buscar ele daqui a pouco? E Gabriel, você não percebeu a dimensão do que realmente aconteceu? O irmão dele esta vivo. Eu preciso soletrar pra você?

— Merda! Fiquei tão focado pensando em mim que nem me liguei nessa história.
Gabriel ficou em silencio dentro do carro tentando encaixar seus pensamentos por quase dez minutos, Marialda quando estava dirigindo costumava dirigir em silêncio, era seu filho quem colocava algum pendrive para escutar música, porém naquela noite não colocou.

— Se o Augusto morreu carbonizado quando o ônibus dele pegou fogo e a gente foi no enterro. Como é que ele pode estar vivo?

— Eu não sei Gabriel. Até estou um tanto curiosa. Se eu não tivesse uma reunião com a secretária do meio ambiente agendada pra amanhã eu teria ido com a Beatriz.

— Você é a prefeita dessa cidade, poderia fazer o que quiser.

— Eu quero cumprir com minhas obrigações que é ajudar a população e nossa cidade. Eu sempre falo pra você pensar nos outros. Principalmente nas garotas da sua idade, é preciso respeitar elas, imagine se você tivesse uma irmã menor e os garotos tratassem ela mal, brincassem com os sentimentos dela. Você iria gostar?

Gabriel não respondeu, mas começou a lembrar de Letícia, a primeira vez que viu ela. Lembrou de quando ela foi na fazenda e eles ficaram sozinhos, que ela e eles estudaram juntos, do momento em que se beijaram. Quando veio em sua cabeça a imagem dele e Letícia juntos, Gabriel estava com os olhos fechados e sorriu. Marialda viu Gabriel sorrir e também sorriu, mas não interrompeu o momento.

Florianópolis.

Beatriz chegou na delegacia de Florianópolis e avisou a recepção que tinha acabado de chegar.

— Senhora Beatriz Braz?

— Eu mesma. — Respondeu, se levantando da cadeira a qual tinha acabado de sentar.

— Me acompanhe, por favor!

O ambiente da delegacia mais parecia um hospital por causa do clima gelado, apesar de aparentar estar ótima, Beatriz estava muito ansiosa e louca pra ver seu filho, saber onde estava, como estava, o que teria acontecido, eram milhares de perguntas que ela queria fazer. Ao perceber que quem iria atende-la era uma delegada, de certa forma ela ficou mais tranquila, parecia que eram amigas de alguma outra vida.

— Não sei se você está lembrada, mas em 2013 eu já trabalhava aqui, a gente recebeu uma ligação do SOS Cardio, um hospital aqui próximo, um casal de idosos que mora na área rural da cidade, chegaram lá com um rapaz que estava tendo fortes dores no peito, só que quando pediram a documentação dele, acharam estranho que ele não tinha nenhuma, o casal disse que ele apareceu na casa deles em um dia chuvoso todo machucado e não se lembrava de nada. Então a gente procurou no banco de dados pessoas desaparecidas que se encaixavam no perfil dele mas não encontrávamos ninguém. Foi só com a digital que chegamos a você. Aqui eu tenho uma foto do nosso garoto sem memória, é o Augusto não é?

A delegada tirou a foto da gaveta e a colocou sobre a mesa. Beatriz olhou pra foto e lágrimas escorreram de seus olhos.

Continua...