Para compreender a violência policial contra jovens negros, é fundamental investigar as raízes históricas e sociais que sustentam o racismo estrutural no Brasil. A violência não surge de forma isolada, mas é consequência de séculos de desigualdade racial, marcados pela herança da escravidão, pela marginalização econômica e por um sistema de justiça que muitas vezes opera de forma discriminatória. Esse histórico de opressão moldou uma sociedade que ainda associa a figura do negro a estereótipos de criminalidade e periculosidade, prejudicando não apenas a relação entre jovens negros e a polícia, mas toda a experiência social e econômica desses jovens.
Herança da Escravidão e Exclusão Histórica
A escravidão, que perdurou por mais de três séculos no Brasil, deixou marcas profundas na sociedade. Ao longo desse período, negros eram vistos e tratados como propriedade, desprovidos de direitos e sujeitos a abusos extremos. A abolição da escravatura, em 1888, não trouxe políticas de integração para a população negra, que foi abandonada à própria sorte, sem acesso a terra, educação ou oportunidades de trabalho. O resultado foi uma marginalização generalizada, onde a maior parte dos ex-escravizados e seus descendentes acabaram habitando periferias e favelas em condições de extrema pobreza. Esse passado excludente criou as bases para a desigualdade social e econômica que ainda persiste e reforçou um imaginário de inferioridade racial.
Marginalização Econômica e a Perpetuação da Desigualdade
A marginalização econômica é outro fator chave para entender o racismo estrutural que afeta jovens negros hoje. Historicamente, as oportunidades de trabalho e de ascensão social foram restritas para a população negra, que enfrentou inúmeras barreiras de acesso à educação de qualidade e ao mercado formal. Em muitas famílias negras, a luta pela sobrevivência é constante, e essa falta de perspectivas alimenta a exclusão. Esse quadro leva à reprodução de estigmas e preconceitos que associam a pobreza ao crime, o que tem um impacto direto na forma como a polícia se relaciona com os jovens negros nas periferias. A desigualdade econômica, portanto, não é apenas uma questão de falta de recursos; ela perpetua uma visão distorcida da população negra, que é constantemente vista como uma ameaça à ordem social.
Discriminação no Sistema de Justiça
O sistema de justiça brasileiro também reflete e reforça o racismo estrutural. Estudos mostram que jovens negros são mais frequentemente presos e condenados por crimes de menor potencial ofensivo do que jovens brancos em situações semelhantes. Além disso, negros enfrentam maiores dificuldades no acesso à defesa jurídica de qualidade, o que os coloca em situação de desvantagem no sistema judiciário. Esse cenário contribui para a criação de um ciclo de criminalização, onde a cor da pele e a origem social determinam a forma como a justiça é aplicada. Em outras palavras, o sistema de justiça tende a punir mais severamente os negros e a tratá-los com mais suspeita, o que se reflete também na abordagem policial cotidiana.
O Papel da Mídia e a Construção do Imaginário Social
A mídia desempenha um papel crucial na construção do imaginário social que associa jovens negros à criminalidade. Historicamente, os meios de comunicação reproduzem estereótipos e imagens de violência que relacionam, de forma simplista e preconceituosa, a população negra ao crime. Termos como “suspeito” e “perigoso” são frequentemente utilizados para descrever negros e moradores de favelas, criando uma narrativa que perpetua o medo e a desconfiança. Ao construir e disseminar essas representações, a mídia contribui para o fortalecimento de um imaginário coletivo que vê a juventude negra como potencialmente criminosa. Esse estigma influencia a forma como a polícia, o sistema de justiça e a sociedade tratam os jovens negros, consolidando uma visão discriminatória e perigosa.
Políticas Públicas de Segurança: Exacerbando a Opressão
As políticas de segurança pública no Brasil, ao invés de oferecerem proteção e segurança a todas as comunidades, frequentemente exacerbam a opressão racial. A abordagem militarizada nas favelas e periferias, caracterizada por operações com uso excessivo de força e armamento pesado, transforma essas regiões em cenários de guerra. O foco em operações de repressão violenta, como invasões e cerco policial, reflete a visão de que as favelas são territórios hostis que precisam ser "controlados" ao invés de protegidos. Esse modelo de segurança pública ignora as causas estruturais da violência, tratando os moradores dessas áreas, em sua maioria negros, como inimigos. A presença policial nesses moldes não gera confiança ou segurança, mas sim medo e insegurança, resultando em mais mortes e traumas para as comunidades.
Essa análise das raízes históricas e sociais do racismo estrutural demonstra que a violência policial contra jovens negros não é um problema isolado, mas uma consequência de séculos de exclusão, discriminação e marginalização. Ao entender esse contexto, fica claro que combater essa violência exige mais do que mudanças nas ações policiais; requer uma transformação profunda nas estruturas sociais, econômicas e políticas que sustentam o racismo no Brasil.
