Você & eu & o ano novo

 Perceber que eu estou crescendo me deixa com medo. Um blog disse uma vez que minhas decisões do presente é que irão definir todo o meu futuro. Não quero ficar marcado como o gay virgem de Wenceslau Braz, mas eu também não queria viver uma vida de mentira que não é a minha.


 Minha avó recentemente disse que o Leandro precisa arrumar uma namorada, e isso me trouxe uma insegurança tão grande. Machuca escutar o que as pessoas esperam da gente, pra que dar opinião? Não seria mais fácil nos dar a liberdade de escolhermos e dizer que nos apoia?


 As coisas parecem estar piorando, eu não queria terminar o ensino médio da forma que eu estou terminando. São 17 anos vivendo alguém que não sou eu, eu queria que as coisas fossem diferentes, queria pelo menos ter nascido em uma cidade grande onde ninguém está preocupado com a sua vida. A única parte legal tem sido conversar com o Maurício, ele não parece ser de uma cidade pequena, ele não parece ter medo, ele não parece ser a bagunça que eu sou.


 Amo a minha mãe, mais do que tudo, mas sei que ela espera que eu continue em Wenceslau Braz ao lado dela, porque se não fosse aquele acidente horrível de 1997, pelo menos eu teria um outro irmão. Nunca o conheci, afinal de contas, ele morreu tem 24 anos, mas com todas as mídias que minha mãe tem guardada, é óbvio que ele seria o filho favorito.


 Com todo o medo que eu carrego e insegurança de ser uma fraude, pensar que ainda tenho o meu irmão me conforta, tenho áudios dele gravado no celular e sempre escuto para me acalmar. Outro segredo que eu carrego são as constantes visitas no cemitério onde passo o dia conversando com o túmulo, por um instante eu sinto ele comigo, mas quando preciso ir embora, só consigo ver o quanto eu sou uma bagunça.


 Foi lá diante do túmulo do César que eu tomei a decisão de que no ano que vem eu vou embora para Curitiba. Eu preciso crescer e isso só vai acontecer se eu sair da zona de conforto de viver com minha mãe e do desconforto do dia de amanhã. Mas minha mãe seria a segunda pessoa a saber disso, primeiro eu precisaria contar pro Maurício.


— Tudo bem, mas a gente precisa se encontrar antes!