A adultização de crianças na Internet é um fenômeno crescente e preocupante, que vem sendo alimentado pelo acesso precoce e sem controle a conteúdos e comportamentos próprios do mundo adulto. Nas redes sociais, em aplicativos de vídeo e até mesmo em jogos online, vemos crianças reproduzindo linguagens, gestos e estilos que não condizem com sua faixa etária, muitas vezes incentivadas por influenciadores, artistas ou até mesmo familiares. Diferente da televisão e do cinema, onde existe uma classificação indicativa clara e fiscalizada, o ambiente online ainda carece de filtros eficazes. Isso significa que, com poucos cliques, um menor pode ter contato com conteúdos sexualizados, violentos ou com mensagens inadequadas, sem qualquer barreira real. A ausência de mecanismos de proteção robustos deixa a infância exposta a riscos que comprometem não apenas o desenvolvimento emocional, mas também a segurança física dessas crianças.
Além da adultização, outro problema grave é a exploração infantil no ambiente digital. Em busca de curtidas, visualizações e monetização, muitas crianças têm suas vidas expostas de forma excessiva por familiares ou empresas, sem que haja clareza sobre os impactos disso no futuro. É comum que vídeos com crianças se tornem virais e gerem lucro, mas quase nunca há um debate sério sobre o direito à privacidade, sobre a exposição de dados e imagens ou sobre o risco de assédio e cyberbullying. Mesmo quando a intenção não é maldosa, o excesso de exposição pode transformar a intimidade e o cotidiano da criança em produto de consumo público, o que pode trazer danos irreversíveis à sua autoestima e identidade.
Para enfrentar esse cenário, é essencial que a classificação indicativa seja adaptada para o ambiente digital, tornando obrigatória a sinalização de faixa etária em todos os tipos de conteúdos online, com sistemas técnicos que realmente impeçam o acesso indevido. Da mesma forma, o Estatuto da Criança e do Adolescente precisa ser atualizado para incluir regras específicas sobre exposição de menores na Internet, uso de imagem, monetização de conteúdos e responsabilidades de plataformas digitais. Também é necessária a criação de uma legislação unificada para o uso da Internet no Brasil, já que atualmente as normas estão fragmentadas e desatualizadas, o que dificulta a fiscalização.
Apesar da sensação de liberdade que a Internet proporciona, ela ainda é, na prática, um espaço com poucas leis aplicadas e onde a proteção de menores é falha. Permitir que uma criança circule nesse ambiente sem supervisão é como deixá-la sozinha em um lugar desconhecido e potencialmente perigoso. É responsabilidade de pais, educadores, empresas e do Estado garantir que a tecnologia seja usada como uma ferramenta de aprendizado e entretenimento seguro. Preservar a infância significa oferecer experiências adequadas à idade e proteger as crianças da pressa de transformá-las em miniadultos para atender às demandas do consumo digital. A Internet pode ser uma aliada da educação e do desenvolvimento, mas isso só acontecerá com um compromisso coletivo pela proteção da infância.
